Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > 6.

Estranhas regras do jornalismo cultural

Por lgarcia em 12/02/2003 na edição 211

ROTEIRO PERVERSO

Nelson Hoineff (*), de Berlim

Num festival de cinema, não só os filmes são capazes de ensinar alguma coisa. Um dos bons ensinamentos durante este 53o Festival do Cinema de Berlim, por exemplo, está contido no canto de um famoso trade journal ? o Screen International ? que sai diariamente durante a mostra. É uma lição preciosa para os jornalistas, notadamente os da área cultural e mais especialmente ainda para os mais jovens.

O ensinamento aparece numa série que o Screen está fazendo: "Regras para a sobrevivência no festival". Aparece ali, na parte 4, "o jogo da entrevista". O que o pequeno artigo contém é um sintoma do caráter subserviente de que o jornalismo cultural se tornou vítima ? e que, pelo que se vê, não é um mal circunscrito ao Brasil. Apesar de estar na primeira pessoa, o texto não é assinado. Mas vale a pena reproduzir alguns trechos ? que deveriam ser distribuidos a muitos segundos cadernos do pais.


"Vi recentemente, na TV inglesa, uma entrevista com Ray Liotta, que estava na cidade para… promover um novo filme. Seguiu-se uma conversa casual, onde um repórter perguntou: ?Quando você volta para Los Angeles?? ?Depois de amanhã?, respondeu Liotta. ?Antes, tenho que fazer um pouco mais de imprensa.?

"Seguiu-se um silêncio revelador. (…) Há uma grande confusão aqui. A imprensa faz e, ao mesmo tempo, é feita. Mais: qualquer evento da indústria cinematografica ou um objeto com a palavra ?imprensa? é em si um exercicio auto-contraditorio. Um press book é uma coleção de coisas que eles gostariam que você dissesse mas sabem que não fará por conta própria. E uma conferência de imprensa, diferentemente de todas as outras conferências, nao serve para conferir coisa alguma.

"(…) Num mundo onde distribuidores ?indicam? quem vai participar de uma entrevista ou mesmo de uma mesa redonda ? e, freqüentemente, pagam por isso ?, um ?jornalismo do entretenimento? proporiamente dito é quase uma coisa do passado. Na verdade, conferências de imprensa são o mais próximo que conseguimos nestes dias de uma troca espontânea de informações. O que não quer dizer muita coisa.

"Aqui está entao o guia para sobreviver a esse jogo:

1. Escreva somente boas coisas. Não tenha opiniao sobre o filme.

2. Confira o que diz o poster do filme e reflita isso no seu texto.

3. Ouça o que o seu editor de variedades diz. Ele é mais jovem que você, mais bem pago e tem conexões melhores com o departamento de publicidade da distribuidora, que é onde tudo nasce.

4. Nunca pesquise sobre o que está escrevendo; se nao está no press book, eles não vão querer que esteja no seu texto.

5. Use a vontade adjetivos como ?incisivo? e ?intrigante? e fale bastante sobre o que o entrevistado estava trajando. Se ele tomar uma Coca-Cola, atender o telefone ou mantiver a janela aberta, mencione isso como se fosse um milagre. Talvez você não tenha se dado conta, mas nos últimos anos você tornou-se um subdepartamento do jornalismo de celebridades. E no jornalismo de celebridades, qualquer coisa que uma celebridade faz é interessante.

6. Arranje um trabalho decente.


(*) Jornalista e diretor de TV

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