Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Estrela Serrano

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Olhares sobre os jornalistas", copyright Diário de Notícias, 30/11/03

"O leitor Acácio Lima afirma que a sondagem publicada pelo DN no domingo dia 9 sobre ?o que pensam os portugueses dos jornalistas?, contém ?clamorosos erros de concepção e interpretação?, o que, em sua opinião, convida a considerá-la como uma ?manipulação?. O leitor acrescenta que ?as demais sondagens que o jornal e a sua concorrência inserem evidenciam anormalidades numéricas flagrantes acrescidas, neste caso, de uma evidente falta de perspicácia na formulação das perguntas?.

A sondagem do DN foi suscitada por um trabalho publicado na revista francesa Le Nouvel Observateur, intitulado ?La face cachée du journalisme?, no qual os autores referem que a imagem dos jornalistas franceses, traduzida em sondagens de opinião, surge cada ano mais negativa. Segundo a citada revista, os jornalistas são acusados de ?ligeireza, incompetência, cupidez, irresponsabilidade e conivência com os poderosos?. Ao mesmo tempo, refere a revista, são vendidos em França milhares de livros nos quais o trabalho dos jornalistas é posto em causa, enquanto, paradoxalmente, as candidaturas aos cursos de jornalismo continuam a encher-se de jovens que aspiram a exercer uma profissão tão ?vilipendiada?.

Embora ambas se centrem na imagem dos jornalistas, existem diferenças consideráveis entre a abordagem do DN e a do Nouvel Observateur. De facto, o trabalho do DN baseia-se essencialmente na sondagem, embora inclua depoimentos de figuras públicas e uma entrevista a um profissional de comunicação, enquanto a revista francesa escalpeliza algumas das críticas mais frequentes feitas à ?classe?, confrontando-as com citações extraídas de livros da autoria de jornalistas, políticos e intelectuais, sobre o jornalismo e os jornalistas.

A sondagem do DN foi tema de capa do jornal, com o título ?Portugueses contra ?abusos? jornalísticos?. Em destaque, são apresentados três resultados: ?77/% dos portugueses ?acham que os jornalistas são sérios e credíveis??; ?55% pensam que são ?influenciáveis pelo poder político?? e ?74% estão contra a divulgação de escutas telefónicas?. A capa salienta, ainda, que a ?grande maioria dos inquiridos (…) considera que os jornalistas interferem demasiado na vida privada?.

A sondagem inclui 12 perguntas (pelo menos, foram as que o DN publicou): sete são da ordem do ?ser? (a pergunta é formulada de modo a obter resposta a uma situação concreta – exemplo: ?Os jornalistas deixam-se influenciar pelo poder político??) e abrangem questões gerais sobre a profissão. As restantes cinco são da ordem do ?dever? (a pergunta é formulada em termos de dever ou poder – – exemplo: ?Os jornalistas devem publicar… ou podem…??) e incidem sobre a cobertura de assuntos judiciais (abuso sexual de menores, segredo de justiça, escutas telefónicas, Casa Pia). Por outro lado, duas das perguntas incidem não sobre ?os jornalistas?, mas sobre ?a comunicação social?.

A análise das respostas ao primeiro grupo de perguntas mostra uma evidente contradição. De facto, 77% de inquiridos afirmam que os jornalistas portugueses são ?sérios e credíveis?, mas, depois, uma significativa maioria afirma que eles se deixam ?influenciar pelo poder político?, pelo ?poder económico?, ?podem ser corruptos? e ?interferem na vida privada das pessoas? – não falando já da pergunta que particulariza ?os jornalistas da área desportiva?, esses avaliados maioritariamente como não ?isentos?, nem ?independentes?. Isto é, as respostas à primeira pergunta (favoráveis aos jornalistas) são ?anuladas? pelas respostas às restantes seis.

O segundo grupo de perguntas – formuladas em termos de probabilidade (dever ou poder) e ligadas à conjuntura político-judiciária portuguesa – mostram que os inquiridos estão maioritariamente contra a divulgação de escutas telefónicas e a violação do segredo de justiça, mas consideram que a cobertura do processo Casa Pia foi maioritariamente boa ou muito boa (50%) contra má ou muito má (46%).

Isto é, colocados perante casos concretos, os inquiridos condenam as práticas jornalísticas usadas na cobertura do processo Casa Pia (escutas e violação do segredo de justiça), mas, em abstracto, acham que a cobertura é boa.

Os textos jornalísticos que acompanham a publicação dos resultados evidenciam, aliás, algum desconforto na leitura dos dados, como se verifica pelos títulos Confiança q.b. e São sérios e credíveis mas só até certo ponto, embora não explorem as contradições, nem expliquem os critérios que presidiram à elaboração das perguntas – a ficha técnica refere, apenas, que o objectivo era ?avaliar a opinião dos portugueses sobre o jornalismo praticado em Portugal, incluindo a cobertura do processo Casa Pia e a divulgação de escutas telefónicas? e que ?a análise dos resultados é da responsabilidade do DN?.

É pois, difícil, mesmo que não se dominem as técnicas de sondagem de opinião, não dar razão ao leitor, quando refere ?erros de concepção e interpretação? ou ?falta de perspicácia na formulação das perguntas?.

Bloco-Notas

Saber o que os portugueses pensam dos jornalistas é certamente importante. Seria, contudo, igualmente importante que os portugueses soubessem o que os jornalistas pensam de si próprios. Um estudo realizado em cinco países – Estados Unidos, Grã-Bretanha, Itália, Alemanha e Suécia – por dois investigadores, Thomas Patterson (norte-americano) e Wolfgang Donsbach (alemão), forneceu resultados interessantes. Os dados obtidos são extensos e a sua análise profunda. Ficam algumas conclusões gerais:

AUTO-DEFINIÇÃO O objectivo desse estudo era apurar que avaliação fazem os jornalistas da sua profissão. O método utilizado consistiu num questionário elaborado na língua nacional de cada um dos países, que incluía resolução de casos práticos de natureza profissional, dirigido a jornalistas que cobrem assuntos da política, do Governo, dos negócios, do trabalho e do ambiente, excluindo os da área do desporto, viagens e entretenimento. A sondagem foi feita, sequencialmente, no período de 1991-1993.

INCLINAÇÕES PARTIDÁRIAS Relativamente ao quadrante político em que se situam os inquiridos, em cada um dos países os jornalistas afirmam identificar-se mais com a esquerda do que com a direita, sendo os italianos os que se situam mais à esquerda e os britânicos e alemães mais à direita. Contudo, em cada país, a maioria coloca-se ao centro.

LINHA EDITORIAL Sobre a relação entre as suas inclinações partidárias e a linha editorial da empresa onde trabalham, os jornalistas avaliam-se à esquerda das posições editoriais das suas empresas, para os autores do estudo uma forma de equilíbrio do posicionamento, à direita, que os jornalistas atribuem às suas empresas.

AUDIÊNCIAS E JORNALISTAS O mesmo resultado foi apurado relativamente à avaliação que os jornalistas fazem das suas audiências, isto é, os jornalistas avaliam-se à esquerda do que pensam ser as inclinações partidárias dos seus públicos. Sobre este ponto, o estudo mostra que o deficit entre os jornalistas e o público é menor na Su&eacueacute;cia.

SELECÇÃO DE NOTÍCIAS Quanto a saber se as tendências partidárias dos jornalistas influenciam a selecção de notícias, o estudo mostra que eles são mais influenciados por normas e práticas profissionais que pelas inclinações partidárias, isto é, o profissionalismo é mais importante que o partidarismo. Contudo, quando os jornalistas passam da auto-avaliação à prática verifica-se que, apesar de existirem diferenças entre os países analisados, as tendências partidárias influenciam as decisões profissionais, isto é, os jornalistas não são ?actores apartidários?, apesar de negarem a existência de partidarismo nas notícias. Os autores concluem que existe um deficit entre as percepções que os jornalistas têm da sua imagem e a sua acção concreta."

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