Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Estrela Serrano

Por lgarcia em 09/12/2003 na edição 254

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Os nossos jornalistas no Iraque", copyright Diário de Notícias, 7/12/03

"Os processos de recolha de informação utilizados pelos ?grandes media internacionais? baseiam-se, essencialmente, na organização de ?redes? informativas, isto é, na colocação de repórteres junto de instituições onde é suposto existir um fluxo razoável de notícias ou na sua deslocação para zonas onde ocorrem acontecimentos extraordinários.

O estabelecimento dessas redes torna mais provável que determinadas ocorrências venham a ser definidas como notícia, as quais sem a presença de jornalistas ficariam fora do circuito noticioso. A distribuição de repórteres ?em rede? e a sua localização em determinados lugares constitui um elemento decisivo na escolha e eliminação de determinados acontecimentos como notícias.

A existência de redes informativas corresponde ao princípio ?onde há repórteres há notícias?. De facto, o ?enviado especial?, munido de meios tecnológicos cada vez mais sofisticados que lhe permitem uma comunicação instantânea, sente-se ?obrigado? a justificar o investimento feito na sua deslocação, enviando textos, sons e imagens com a frequência e a dimensão impostas, não apenas pela redacção central e pelo desafio da concorrência mas, também, pelo seu próprio desejo de apresentar trabalho.

Ora, o número de acontecimentos ?interessantes? para serem noticiados raramente corresponde às expectativas, quer do próprio repórter, quer dos seus superiores hierárquicos ? que o pressionam a ?descobrir? informação ?, quer do público que espera que o jornal lhe traga, todos os dias, novidades em ?primeira mão?.

O jornalista ?deslocado? vê-se, pois, compelido a encontrar notícias mesmo onde elas não existem. Os repórteres deslocados possuem algumas estratégias para responder a esse imperativo de descoberta permanente de matéria noticiável. Por um lado, acompanham o trabalho dos colegas (e concorrentes), ?vigiando-se? mutuamente e partilhando informação (sem que isso impeça que cada um confira ao seu trabalho o enfoque correspondente à ?linha editorial? da sua empresa).

Por outro, empenham-se na procura de ?estórias? locais e entrevistam quem está ?à mão? ou quem tem experiências para contar. São quase sempre ?estórias? casuísticas que valem, muitas vezes, mais pelo seu carácter literário enquanto narrativas impressivas sobre estados de alma, do que pelo seu valor informativo. São ?estórias? que preenchem a ausência de matéria substantiva para noticiar.

Vem isto a propósito dos jornalistas portugueses enviados ao Iraque para acompanharem o destacamento da GNR. Muito se escreveu e disse, por um lado, sobre as condições (não totalmente esclarecidas) em que se processou a sua deslocação e, por outro, sobre o facto de eles se terem tornado, durante os primeiros dias, os principais protagonistas das notícias.

As críticas incidiram principalmente sobre as televisões, em especial a SIC, pela dramatização conferida ao regresso da sua jornalista ferida à chegada ao Iraque e ao rapto e libertação do jornalista da TSF. Mas os jornais não resistiram, também, ao relato da odisseia dos repórteres portugueses. Os enviados do DN foram também protagonistas das notícias, mercê do ataque ao hotel onde se encontravam, em Bagdad, com presença em jornais televisivos e fotografia na primeira página do jornal.

Mas, será que o que se passou com os nossos repórteres não merecia ser noticiado? Evidentemente que merecia, embora se deva discutir o enfoque e, sobretudo, a dimensão que lhe foi conferida ? por exemplo, teria sido oportuno questionar as hierarquias dos jornais, rádios e televisões sobre as condições em que os seus repórteres se deslocaram ao Iraque.

Ora, a verdade é que, descontando o exagero das descrições pormenorizadas e repetidas, o assalto a um grupo de jornalistas que acompanhava um contingente militar do seu país, em que um deles é baleado na perna e outro raptado, seria notícia em qualquer país.

A questão não reside, pois, no interesse noticioso desse acontecimento, que era real, mas no facto de a dimensão que lhe foi dada traduzir, também, a ausência de matéria informativa, substituída, neste caso, pelo relato das ?peripécias? que envolveram a chegada dos jornalistas e dos militares da GNR. De facto, só assim se explicam os relatos detalhados de cenas do quotidiano dos militares portugueses, como sejam as conversas sobre refeições ? o enjoo das massas italianas, a falta de temperos da comida, a ausência de carne de porco para o cozido à portuguesa. Fora isso, os relatos jornalísticos falam das preocupações com a segurança dos militares, das barricadas que constroem para se protegerem, das notícias do País que lhes chegam através dos próprios jornalistas (era suposto que fossem eles a fonte das notícias e não os jornalistas a sua fonte) e dos telefonemas para a família transmitidos nos telejornais.

Os nossos repórteres no Iraque vão, assim, cumprindo diariamente a regra de que ?onde há um jornalista há sempre uma ?estória? para contar?."

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