Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Estrela Serrano

Por lgarcia em 16/12/2003 na edição 255

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Os jornalistas e o peru do Presidente", copyright Diário de Notícias, 14/12/03

"As polémicas desencadeadas a propósito da recente visita do Presidente Bush às tropas americanas no Iraque motivaram reparos dos leitores João Morais e Teresa Cavaleiro, o primeiro sobre ?o caso do peru? e a segunda sobre ?mentiras? que terão envolvido a deslocação do Presidente.

João Morais afirma que ?ao ver na televisão as imagens do Presidente no meio dos militares, vestido como eles e segurando a travessa do peru, estava longe de imaginar que se tratava de uma “operação de relações públicas” para ganhar votos nas próximas eleições presidenciais? e que ?o peru era de plástico?. Confessa-se ?desiludido? com o que chama de ?oportunismo político?, afirmando que sentia ?admiração e respeito pelo Presidente Bush?, cuja deslocação ao Iraque considerou ?prova de grande coragem?, mas ao ?conhecer agora a verdadeira história? repudia ?o gesto presidencial?.

Por seu turno, Teresa Cavaleiro manifesta ?perplexidade? pela ?conivência dos jornalistas que acompanharam o Presidente nas mentiras que envolveram a visita?. A leitora cita notícias que dão conta de um ?diálogo entre o piloto do avião presidencial e um piloto britânico com quem se terá cruzado a caminho do Iraque?, que, afinal, ?não existiu?. Por outro lado, afirma que ?os jornalistas colaboraram na operação montada pelo staff presidencial, incluindo as mentiras necessárias ao sucesso da visita?. Pergunta, pois, que confiança podem os cidadãos depositar nos políticos e nos jornalistas.

Vejamos: a reacção dos dois leitores é compreensível, na medida em que ?a história do peru? tem dado origem a numerosos comentários e análises, uns desvalorizando a discussão sobre a natureza do peru, outros considerando o episódio uma manipulação da opinião pública para melhorar a imagem do Presidente.

Acresce que em Portugal (e mesmo na grande maioria dos países europeus) os processos de comunicação política não atingem a sofisticação dos praticados nos EUA.

De facto, a imagem do Presidente segurando a travessa do peru ? independentemente de ser verdadeiro ou de plástico ? corresponde a um gesto ?construído?, como são, aliás, todas as aparições do Presidente norte-americano, qualquer que ele seja, para mais em período pré-eleitoral. Não é suposto que o Presidente dos EUA ?surpreenda? o seu staff (nomeadamente os homens da segurança) com atitudes e gestos que não tenham sido previamente planeados e aprovados. Aliás, apesar das diferenças, nomeadamente de meios humanos, técnicos, financeiros e outros, as técnicas americanas de comunicação política eleitoral são fonte de inspiração para políticos europeus, incluindo portugueses.

Quanto às questões colocadas pela leitora Teresa Cavaleiro, sobre a ?colaboração dos jornalistas? na estratégia eleitoral do Presidente, uma vez mais se torna necessário evocar o contexto em que se processam as relações entre o Presidente dos EUA (incluindo o seu staff) e o press corps da Casa Branca ? expressão usada para indicar os jornalistas ?acreditados? junto da Presidência. Trata-se de uma elite de jornalistas que ?vive? praticamente na Casa Branca, mantendo relações privilegiadas com os altos funcionários da Administração e com acesso (controlado) ao Presidente. O relacionamento entre ambas as partes desenvolve-se, geralmente, num clima de confiança pessoal, transformando-se, em muitos casos, em afinidade política.

É claro que nem sempre a Casa Branca consegue controlar ou proteger a imagem presidencial de eventuais ?danos? causados pelos media, incluindo membros do press corps. Contudo, raramente esses danos, nomeadamente os ?escândalos? que ensombraram os mandatos de alguns presidentes, tiveram origem nos jornalistas que integravam o press corps. O caso mais paradigmático é o Watergate, que culminou com a demissão do Presidente Nixon. Nessa altura, alguns membros do press corps tentaram, em vão, proteger o Presidente do escândalo denunciado pelos jornalistas do Washington Post.

Seria, todavia, impensável para qualquer jornalista a quem fosse concedida a possibilidade de acompanhar a deslocação do Presidente Bush ao Iraque recusar essa ?oferta?, estivesse ou não consciente de que se tratava de uma ?operação mediática? com objectivos eleitorais.
A visita do Presidente Bush às tropas em serviço no Iraque constituiu, sem dúvida, uma ?operação mediática?, organizada com o profissionalismo de que se reveste, geralmente, o trabalho de ?construção da imagem? do Presidente dos EUA. Contudo, o facto de terem vindo a público notícias questionando a ?pureza? do gesto presidencial ? desde a natureza do peru à autenticidade do diálogo ?aéreo? entre os pilotos e aos planos para ocultação da visita ? mostra que alguém ?de dentro? minou a alegada ?colaboração? dos jornalistas com a estratégia presidencial, o que prova que, por mais criativos que sejam os peritos em ?operações mediáticas?, o sucesso nunca está antecipadamente garantido.

Bloco-Notas

O aparelho de comunicação e as estratégias de comunicação do Presidente dos Estados Unidos têm sido objecto de vários estudos, muitos deles publicados. Alguns são da autoria de jornalistas que acompanharam de perto a actividade presidencial, outros são de académicos, alguns dos quais antigos funcionários da Casa Branca. Um dos autores mais fecundos, a nível editorial, é Stephen Hess, membro do staff presidencial de Eisenhower e de Nixon. No seu livro The Government Press/Connection, Hess analisa as relações entre os jornalistas ?acreditados? na Casa Branca e o staff presidencial.

PRODUZIR EVENTOS Diz Stephen Hess: ?Em Washington, todos os dias o Governo produz uma série de eventos destinados a ser reportados pelos media. Os repórteres são alertados através de comunicados, de despachos das agências ou de telefonemas. O staff do Presidente prepara materiais escritos onde se sublinham os temas principais e resumos das posições oficiais e muitas vezes são disponibilizadas transcrições ou gravações vídeo. Os assessores de imprensa procuram tornar esses eventos atractivos e interessantes, escolhendo os oradores mais adequados a cada situação.? Segundo o autor, a cobertura da Presidência é constituída quase só por eventos deste género. Nos casos em que exista um grande número de jornalistas e não haja discursos ou entrevistas suficientes, os assessores organizam eventos e oportunidades para fotografia, de modo a alimentar os media e a servir de válvula de escape para a pressão exercida pelos repórteres. O autor afirma, contudo, que os jornalistas protestam, por se considerarem usados, quando cobrem essas actividades.

ACTIVIDADES SIMBÓLICAS Segundo Hess, grande parte do trabalho do Presidente dos EUA incide sobre actividades de natureza simbólica que precisam de ser conhecidas. Por exemplo: um Chefe de Estado cumprimentando outros chefes de Estado, um chefe político dirigindo-se aos candidatos do seu partido, um chefe de governo deve ser visto a negociar com os seus colegas de outros países.

OS ‘BRIEFINGS’ Hess afirma que o ambiente dos briefings diários na Casa Branca se assemelha a ?reuniões familiares?, dado que os jornalistas estabelecem ?relações muito cordiais e fraternais? com o staff.

Os jornalistas que frequentam os briefings dividem-se, segundo Hess, em 3 grupos: os habituais (do press corps); os correspondentes estrangeiros e um terceiro grupo, que inclui jornalistas pertencentes a ?franjas? que vão e vêm, pretendendo confirmar algum rumor que afecte, por exemplo, a moeda.

Segundo o autor, cada grupo tem a sua própria agenda.

No final do briefing, repórteres e assessores almoçam geralmente na cafetaria da Casa Branca.

Segundo Hess, os jornalistas consideram que é uma boa ocasião para conversas interessantes com os assessores."

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