Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

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Estrela Serrano

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

“A entrevista jornalística”, copyright Diário de Notícias, 28/12/03

“Nenhum leitor do DN considerou pertinente pronunciar-se sobre a denúncia feita por vários jornais alemães da prática habitual naquele país de os políticos (ou os seus conselheiros) relerem e retocarem a versão escrita de entrevistas que concedem, antes de elas serem publicadas.

O caso merece atenção, por abranger aspectos menos conhecidos do trabalho jornalístico.
Os jornalistas alemães, que levantaram o problema, alegam que ?tal como as coisas estão, os leitores não podem saber se aquilo que lêem é o que de facto foi dito ao jornalista? e, ainda, que ?os jornais devem questionar-se para saberem até que ponto estão preparados para manterem este jogo preverso?. Por seu turno, o porta-voz do Governo alemão ?admitiu que a tomada de posição dos jornais abre um debate sensível mas defende a prática da revisão das entrevistas? (citado do Público, 29/11/03).

Vejamos: em termos jornalísticos, uma entrevista constitui um meio de obtenção de notícias. Pode ser da iniciativa de um jornalista ou suscitada (informalmente) por alguém interessado em ser entrevistado. Ao conceder uma entrevista, o entrevistado possui, geralmente, um objectivo de autopromoção, seja difundir uma ideia, anunciar uma decisão ou esclarecer algo. Interessa-lhe que a entrevista traduza o seu pensamento de uma maneira fiel. O jornalista não ignora essa pretensão, interessando-lhe, também, que a entrevista corresponda o mais fielmente possível ao pensamento do entrevistado. Apesar de os interesses de ambos não serem, em princípio, coincidentes, convergem, contudo, no facto de o entrevistado pretender ser notícia e de o jornalista necessitar de notícias.

Antes da realizaç&atatilde;o de uma entrevista, é suposto que entrevistador e entrevistado se ponham de acordo sobre um conjunto de regras que podem abranger o tema geral da entrevista, a sua extensão – se será publicada na íntegra ou com ?cortes? e, neste caso, em que condições estes serão feitos – a data e o enquadramento geral em que será publicada, o formato e, eventualmente, a técnica de recolha e a possibilidade de revisão das respostas. Uma vez discutidas e aceites essas, ou outras, regras não há, em princípio, razão para surpresas.

A possibilidade de revisão das suas respostas constitui, para o entrevistado, uma maneira de assegurar que o que será publicado corresponde ao que foi dito e que o que foi dito fica claro para o público.

Dessa revisão resultará, em princípio, a garantia de que a entrevista é fiel ao seu pensamento, não havendo, pois, lugar para desmentidos ou protestos posteriores.
Acontece, contudo, por vezes, na altura da revisão, o entrevistado introduzir alterações importantes às suas declarações iniciais. Nesse caso, o jornalista pode adoptar uma de duas atitudes: ou não publica a entrevista ou publica-a com as alterações introduzidas, explicando ao público o contexto em que a entrevista foi obtida, analisando o significado das declarações feitas e confrontando-as com posições anteriores do entrevistado.

Não se afigura, porém, eticamente aceitável, em caso de acordo prévio sobre revisão de respostas, que o jornalista publique a entrevista se o entrevistado considera que ela não corresponde ao seu pensamento. Num trabalho em que intervêm duas ou mais pessoas, como é o caso de uma entrevista, são necessárias regras que definam o que compete a cada parte. Algumas vezes, o desacordo sobre as regras inviabiliza a entrevista, mas a não existência de tais regras provoca, geralmente, grande desconforto e polémica entre as partes, para além de lançar confusão no público sobre o valor da entrevista.

De facto, a publicação de uma entrevista, declaração ou texto, atribuídos a um autor que não se reconhece neles possui um valor informativo diminuto.

Contudo, perante uma declaração importante proferida durante uma entrevista mas depois corrigida pelo seu autor, é natural que o jornalista se interrogue sobre qual das duas deve ser conhecida do público: a primeira, que o entrevistado proferiu mas considerou depois não corresponder ao seu pensamento, ou a segunda, dita como traduzindo o seu pensamento ?real?.

A questão não é de fácil resposta e possui analogia, por exemplo, com discursos escritos e publicados antecipadamente mas cuja versão escrita é alterada no momento de serem lidos. Nesses casos, restará a dúvida sobre qual deles é o discurso ?real? – o que foi escrito ou o que foi dito. No caso da entrevista, persistirá a interrogação sobre qual das respostas é ?verdadeira?.

As regras que orientam a preparação de uma entrevista são, aliás, semelhantes às que organizam outro tipo de contactos entre fontes e jornalistas. Grande parte da informação política é baseada em acordos tácitos mediante os quais fontes, sob anonimato, ?oferecem? aos jornalistas ?paternidade? não assumem publicamente. A discussão sobre revisão de entrevistas necessita, pois, de ser enquadrada numa discussão mais alargada sobre as relações entre jornalistas e fontes.

Bloco-Notas

ECOS DO ?CASO ALEMÃO? Os jornalistas não gostam, em geral, de discutir em público as suas práticas profissionais e os políticos não apreciam, igualmente, tornar conhecidas as suas formas de relacionamento com os jornalistas. Talvez por isso a discussão despoletada pelos jornalistas alemães tenha sido citada com alguma discrição pelos seus pares de outros países. Em Portugal não teve praticamente eco, a não ser na Internet, nomeadamente em weblogs onde os media e o jornalismo são discutidos. Em França e em Espanha, leitores do jornal Le Monde e do La Vanguardia questionaram os provedores sobre o assunto, tendo surgido alguns (poucos) artigos em que o caso era analisado. Tudo leva a crer, pois, que apenas quando um conflito entre políticos e jornalistas atinge proporções graves, como aconteceu na Alemanha, se tornam públicas algumas práticas entre ambos.

ALGUNS PRINCÍPIOS As posições dos provedores dos dois jornais citados possuem enfoques diferentes: No caso do Le Monde, o provedor reconhece a dificuldade de os jornalistas conciliarem três exigências: defenderem a sua liberdade, respeitarem as declarações do entrevistado e não enganarem os leitores. Recomenda-lhes, por isso, alguns princípios: as falsas entrevistas (perguntas e respostas por escrito) devem ser evitadas e quando existam, assinaladas como tal; um bom jornalista transcreve convenientemente o que lhe é dito, não tendo necessidade de ser relido por aquele a quem interrogou; uma entrevista supõe um mínimo de confiança, embora nada impeça o entrevistado e o jornalista de gravarem e guardarem o registo da conversa; a entrevista, ou parte dela, só deve ser relida pelo entrevistado quando for absolutamente necessário, podendo o jornalista pedir ao entrevistado, pelo telefone, que confirme ou precise alguma declaração.

NADA ACRESCENTAR O provedor do La Vanguardia considera não ser estranho que uma pessoa possa ler as respostas dadas a um jornalista durante uma entrevista, sendo muitas vezes os jornalistas a propor isso ao seu entrevistado. Cita o caso de um célebre entrevistador espanhol que pedia aos seus entrevistados que assinassem, em sinal de aceitação, a transcrição das respostas. Segundo o provedor do La Vanguardia, essa prática destinava-se a evitar reclamações após a publicação do texto. O provedor considera que a revisão do entrevistado apenas pode incidir sobre as suas respostas, não podendo interferir nas perguntas ou nos títulos que o jornalista dá à entrevista. Contudo, em seu entender, a revisão não deve acrescentar declarações não formuladas durante a entrevista nem modificar o sentido do que foi dito. O provedor analisa, também, o papel dos assessores ou conselheiros dos políticos, cuja intervenção na revisão de entrevistas considera ?incómoda?, embora sublinhe a utilidade das funções que desempenham.”

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