Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Estrela Serrano

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"A desconhecida Europa", copyright Diário de Notícias, 1/10/01

"Partindo de uma notícia publicada no DN no dia 21 de Julho, com o título ?Falta muita informação sobre o futuro alargamento da UE?, o leitor Filipe Ribeiro considera que os media noticiosos, e entre eles o DN, são os principais responsáveis por essa falta de informação. F. Ribeiro indica algumas razões que, a seu ver, contribuem para isso. A primeira é ?a crónica falta de interesse da população portuguesa por informação?. O leitor afirma que ele próprio não sabe ?o nome da totalidade dos países que vão aderir à União Europeia? e interroga-se sobre ?onde poderia encontrar tal informação?. Conclui que ?na Internet seria talvez fácil, mas nem todos têm acesso?. Na televisão ou no jornal, não se lembra ?da última vez que leu uma notícia onde todos os países fossem listados?, o que o leva a afirmar que ?tal informação não está facilmente acessível ao comum dos portugueses?. ?De quem é a responsabilidade?? ?Quem não está a cumprir a sua função de órgão informativo?? pergunta. ?Ao ler este artigo fiquei a saber que sou um ignorante (…). Mas não fui informado?, acrescenta. O leitor esperava encontrar ?no mesmo artigo que atesta a ignorância dos portugueses a correcção dessa ignorância?, por exemplo ?a lista de todos os países da União, dos países da zona euro, dos que são candidatos à integração, das datas de lançamento do euro?.

O director do DN, Mário B. Resendes, contrapõe que o jornal ?tem publicado, de há muitos anos a esta parte e com regularidade apreciável, vasta informação sobre o assunto?.

A notícia a que o leitor se refere baseia-se numa sondagem encomendada pela Comissão Europeia, cujos resultados o próprio DN considerou ?surpreendentes?. Segundo a notícia, ?os inquiridos portugueses são avessos a discussões públicas sobre temas europeus? e ?dois terços desconhecem quais os países que vão aderir à União?. A notícia considera, ainda, ?preocupante (…) os portugueses serem os europeus que mais vezes dizem ?não sei? às perguntas sobre o euro?.
A existência de um défice de informação sobre a União Europeia em vários países da UE, nomeadamente em Portugal, não representa, propriamente, uma novidade, a avaliar pelas sondagens periodicamente divulgadas. Contudo, a questão da responsabilidade desse défice, que o leitor atribui aos media noticiosos, merece atenção.

A integração na UE constitui um dado estruturante da nossa vida económica, política, social e cultural, pelo que seria normal que suscitasse interesse por parte do público. Nos media noticiosos, especialmente nos de referência, esse interesse manifesta-se, por exemplo, através da existência de correspondentes permanentes junto das principais instituições europeias. Acontece, mesmo, que os principais acontecimentos ocorridos no seio da EU, entre os quais as cimeiras de chefes de Estado e de Governo possuem, por vezes, maior destaque nos media portugueses do que nos seus congéneres de outros países membros. No caso concreto do euro, o DN tem vindo a dedicar-lhe páginas especiais com informações úteis, enquanto instituições públicas organizam cursos e promovem campanhas de esclarecimento.

Teoricamente, não existem, pois, razões, pelo menos no que respeita à moeda única, para que os portugueses se sintam mal ou pouco informados, nem é justo responsabilizar os media por essa falta de informação. É certo que o leitor reclama não apenas uma informação de natureza conjuntural, mas informação para ser ?lida e relida? sobre as questões de fundo que se prendem com a União. O problema é que as notícias orientam-se, sobretudo, para acontecimentos e não para problemáticas. A próxima entrada em vigor do euro constitui um acontecimento concreto e actual, sendo precisamente essa característica ?factual? e essa actualidade que o tornam notícia. As questões estruturais da UE, tal como outras sem uma relação directa com o presente, não possuem, na lógica jornalística, suficiente valor de noticialidade.

Por outro lado, a informação oriunda da União possui, em geral, um carácter muito técnico e especializado, cujo domínio pressupõe investimento por parte das empresas de comunicação, o que aliás, acontece em Portugal, entre outros, com o DN. Esse investimento é de médio e longo prazo e não produz efeitos rápidos e espectaculares. Um jornalista que domine os dossiers europeus – e eles existem no DN e noutros jornais – raramente dispõe de oportunidade de os aprofundar. Pelo contrário, é, muitas vezes, levado a privilegiar aspectos pontuais, como os grandes eventos da UE, entre os quais as citadas cimeiras, que proporcionam boas imagens e, por isso, possuem espaço garantido. A informação sobre a UE rege-se, pois, pela lógica da informação produzida por empresas que vivem do mercado, que é a da satisfação imediata dos gostos das audiências. Ora, quando os directores e editores estão na posse de sondagens que, repetidamente, lhes dizem que os portugueses ?são avessos a discussões públicas sobre temas europeus?, vêem aí um argumento de peso para não se empenharem na divulgação dos assuntos da União. Essa constatação não os iliba, contudo, sobretudo os media de referência, da responsabilidade de contrariarem esse alheamento, produzindo informação aprofundada sobre um tema relevante para a vida dos portugueses e dos europeus em geral.

Bloco-Notas

Um novo espaço

O défice de informação pública sobre a UE tem sido objecto de investigação. P. Schlesinger, da Universidade de Stirling, publicou, em 1999, na revista Political Communication, um estudo sobre a mudança dos espaços de comunicação política na União Europeia, no qual analisa o surgimento de uma nova esfera pública transnacional, diferente da esfera pública baseada no estado-nação – que o autor considera em desintegração face às pressões da economia global e ao multiculturalismo.

Essa nova esfera pública constitui, segundo Schlesinger, um novo espaço comunicativo, cujas fronteiras são traçadas pelos nexos entre as instituições políticas que constituem a União e que atravessam, horizontalmente, os estados membros, num movimento de ?complementaridade comunicativa?.

Elites

Debruçando-se sobre a ?mediação supranacional?, Schlesinger afirma que, apesar do desenvolvimento dos mercados europeus dos media, a imprensa permanece quase exclusivamente como media nacional, não obstante existirem jornais e magazines dirigidos para uma audiência europeia e mundial constituída por uma elite de decisores políticos e económicos, com o inglês como língua.

Schlesinger considera que essa elite político-económica constitui o terreno-chave da imprensa e aponta o caso do Finantial Times (FT) que se apresenta a si próprio como ?o jornal de negócios mundiais?, ?a melhor fonte para os negócios em todo o mundo? e se define como ?internacional?.

De acordo com Schlesinger, o FT é, usualmente, considerado como sendo favorecido pelas fontes oficiais devido à sua expansão, contribuindo para a agenda comum de uma parte da elite europeia.

O autor considera elucidativo que, em 1998, 155 economistas alemães tenham escrito apenas ao FT e ao alemão Frankfurter Allgemeiner Zeitung – um dos seus concorrentes no espaço europeu – defendendo um atraso na implementação da União Monetária Europeia.

Também The Economist, um semanário que globalizou os seus mercados, se direcciona para uma elite pan-europeia ligada aos negócios e aos governos, sendo o mais lido da sua categoria em toda a Europa.

Euronews

Segundo Schlesinger, o Euronews resulta de desenvolvimentos semelhantes na televisão, reflectindo o desejo de criação de uma perspectiva europeia sobre os acontecimentos mundiais. Contudo, segundo o autor, está ainda por saber se é possível, através dos actuais nichos de audiência do Euronews, criar um público transnacional.

O autor considera que se esse canal for capaz de se tornar o maior criador de notícias do continente, suficientemente empreendedor em termos jornalísticos, de modo a atrair o interesse da classe política e levar outros media a segui-lo, poderá, então, tornar-se significante na formação de uma esfera pública europeia muitilinguística.

Schlesinger conclui que os esforços para a criação de um espaço mediático europeu comum, que envolva o público na informação sobre a UE, não têm tido sucesso."

    
    
                     

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