Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > BLOCO-NOTAS

Estrela Serrano

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

DIÁRIO DE NOTÍCIASZ

"A Justiça e os media", copyright Diário de Notícias, 25/11/01

"Os jornais portugueses ?de referência? deram algum relevo ao VI Congresso dos Juízes Portugueses realizado, recentemente, em Lisboa. A crer nas notícias, os congressistas teceram críticas à cobertura jornalística de casos judiciais, defendendo a criação de gabinetes de imprensa junto dos tribunais e a acreditação de jornalistas especializados em assuntos jurídicos.

As relações entre a Justiça e os media não são fáceis nem pacíficas, nos países onde existe liberdade de imprensa. De facto, as duas instituições possuem lógicas de funcionamento diferentes e opostas. Enquanto o jornalismo actua em ciclos temporais cada vez mais curtos, a Justiça necessita de tempo para desenvolver a sua acção. Os media precisam de ultrapassar restrições no acesso à informação, enquanto a Justiça pratica o secretismo e tenta proteger-se da intrusão dos jornalistas. O jornalismo cultiva a generalização, a simplicidade e a síntese na apresentação dos acontecimentos, enquanto a Justiça não prescinde de uma linguagem especializada e, quase sempre, hermética.

No entanto, os assuntos relacionados com a Justiça são, por natureza, interessantes para os jornalistas. De facto, as matérias oriundas dos tribunais possuem, em geral, ?valor notícia? e proporcionam boas ?estórias?, sobretudo se as pessoas envolvidas são figuras públicas ou instituições com poder e notoriedade. Em Portugal, não se encontra institucionalizada a figura do jornalista acreditado junto dos tribunais e dos órgãos superiores da hierarquia judicial, para acompanhamento permanente da actividade dessas instituições, ao contrário do que acontece, por exemplo, com a Assembleia da República, porventura a única instituição portuguesa junto da qual existe um ?corpo? de jornalistas acreditados que ali permanece durante o seu funcionamento e onde existem instalações próprias e estruturas de apoio. É certo que os media portugueses não deixam de acompanhar os casos judiciais mais mediáticos, mas fazem-no de uma maneira casuística e nem sempre um repórter designado para efectuar a cobertura de um caso possui suficiente conhecimento, quer do caso em si e da legislação que o enquadra, quer dos meandros do funcionamento da Justiça, embora existam algumas excepções.

Esta realidade vivida pelo lado dos media possui o seu correlativo no lado da Justiça. Não possuindo uma cultura de comunicação, nem percebendo, na generalidade dos casos, os mecanismos e a lógica de funcionamento dos media, os juízes e os funcionários da Justiça, cultivam a ideia de que apenas o que é revelado no tribunal deve ser do conhecimento dos jornalistas. Essa ideia leva-os a encobrir informação e a considerar superficial, distorcida ou descontextualizada a cobertura dos assuntos da Justiça, esquecendo que é, precisamente, a sua cultura do secretismo que impede os jornalistas de efectuarem um tratamento mais aprofundado desses temas. Mas, como acontece em todas as instituições, mesmo as mais ciosas da sua privacidade, há sempre alguns dos seus membros que actuam à margem da cultura dominante. Daí que se assista, frequentemente, a fugas de informação descontroladas e a intervenções públicas de responsáveis por casos judiciais mediáticos, reveladoras de uma enorme falta de preparação para lidar com os media.

A criação de estruturas de comunicação e a acreditação de jornalistas junto das instituições judiciais poderá ser um passo para melhorar a situação se, através de pessoal competente, for possível profissionalizar as relações entre ambos e adoptar uma atitude de transparência e confiança recíprocas. Excepto nos casos em que estão directamente envolvidos, os cidadãos não possuem contacto com a Justiça, a não ser através dos relatos jornalísticos. É, pois, natural que os jornalistas, agindo no interesse do público, pretendam levar ao seu conhecimento não apenas as decisões tomadas pelos tribunais, mas também os enquadramentos em que essas decisões surgem. Ora, isso só é possível se existir, do lado da Justiça, um entendimento correcto da função do jornalista na sociedade e, do lado do jornalista, o respeito pelas regras inerentes ao funcionamento da Justiça. Experiências praticadas nos países em que existem repórteres acreditados em permanência junto das instituições judiciais produziram resultados positivos no que se refere ao tratamento jornalístico de casos de Justiça. Contudo, uma grande proximidade entre jornalistas e fontes pode limitar a capacidade de análise independente, em relação às instituições e aos assuntos sobre as quais os jornalistas escrevem. Seria, contudo, demasiado simplista considerar que os jornalistas destacados para cobrir uma organização são meros observadores do que acontece nessa organização. Na realidade, o jornalista selecciona os assuntos que lhe interessa tratar, a atenção que lhes deve dedicar e a maneira de os reconstruir, influenciando, também, a própria organização que cobre, levando-a, muitas vezes, a aderir a formas e conteúdos jornalísticos. Os cidadãos não esperam que os jornalistas sejam especialistas em todos os assuntos que abordam como, por exemplo, em assuntos legais, mas exigem que eles saibam, não apenas converter a linguagem legal numa linguagem acessível, mas, também, proporcionar-lhes os enquadramentos necessários à compreensão dos casos.

BLOCO-NOTAS
Fontes organizadas

As relações entre os gabinetes e assessorias de comunicação das organizações e a imprensa foi o tema do 12.? Encontro da Associação Portuguesa de Ciências Empresariais (APCE), realizado, há cerca de duas semanas, em Lisboa. Carlos Chaparro, jornalista e professor na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, no Brasil, afirmou, nesse encontro, que ?a mais importante modificação ocorrida nos processos jornalísticos nos últimos 40 anos? foi ?a profissionalização das fontes?, considerando-a ?uma revolução?. Segundo Chaparro, os jornais ?trazem-nos todos os dias notícias de fontes organizadas que as planeiam segundo os seus interesses?.

Linguagem dos conflitos

No livro que lançou no citado Encontro da APCE, intitulado Linguagem dos conflitos, Carlos Chaparro fala de ?crise do jornalismo?, afirmando que essa crise reside no facto de ?o jornalismo ter deixado de produzir os conteúdos que divulga?. Diz o citado professor que ?o discurso jornalístico perdeu autonomia, porque em vez de agendar é agendado?, sendo ?seduzido por acontecimentos que já nascem elaborados para serem noticiados?. Por outro lado, Chaparro rejeita a dicotomia entre assessores de imprensa e jornalistas e, bem assim, a ideia de que do lado dos jornalistas se encontram os bons e do lado dos assessores se encontram os maus.

Experiências

A avaliar pelos relatos de algumas experiências, feitos no citado encontro, em Portugal as relações das organizações com os media não estão ainda suficientemente profissionalizadas. Na maioria dos casos, os quadros dirigentes não encaram a função ?comunicação? como uma componente da gestão, da qual podem tirar benefício. As relações com os media são, em muitos casos, improvisadas e temidas. A queixa mais frequente dos responsáveis, nessas organizações pelas relações com os jornalistas é a de que ?as organizações só são notícia quando nelas há algo que corre mal?. Ora, segundo Carlos Chaparro, só pelo conflito surgem as mudanças. O conflito faz parte das sociedades. Nas democracias, escreve o professor, ?o jornalismo(…)tornou-se o espaço público dos confrontos discursivos que interessam à cultura e aos processos sociais?.

Convergências

Muitas outras questões, de inegável interesse, relativas às relações entre a imprensa e as organizações preencheram o encontro da APCE. Entre elas, a constatação de que os jornalistas precisam de notícias, tanto quanto as organizações precisam de ser notícia. A dificuldade reside, para ambas as partes, em saber como articular essa convergência, mantendo as fronteiras éticas entre o jornalismo e a comunicação organizacional, e como controlar, por exemplo, os ?danos? causados à imagem de uma organização por uma má notícia. Questões complexas, a requererem atenção por parte dos profissionais de comunicação organizacional e também dos jornalistas."

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