Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Estrela Serrano

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"A notícia do rumor", copyright Diário de Notícias, 3/2/02

"A notícia saiu no dia 3 de Janeiro. O título, na primeira página, era peremptório: Luanda prende número dois de Savimbi. Ao alto da página, em letras garrafais, sobre um mapa de Angola, a palavra UNITA subjugava pela cor e dimensão dos caracteres. Ao lado, a fotografia de Savimbi completava a informação num tom menos afirmativo: Captura de Paulo Lucumba Gato, secretário-geral do Galo Negro, terá sido efectuada na madrugada de domingo na província do Moxico. Mais abaixo, podia, ainda, ler-se: Na coluna militar surpreendida pelas Forças Armadas angolanas iria também Savimbi. Na secção Internacional, a notícia era ilustrada por uma enorme fotografia e possuía como título Luanda captura Lucumba Gato e antetítulo Sucesso. O subtítulo e o corpo da notícia não veiculam o mesmo grau de certeza, sendo as informações apresentadas como rumores de uma eventual captura em combate do secretário-geral da UNITA, Paulo Lucamba Gato. Quanto a Savimbi, estaria também na coluna militar. No dia seguinte, a notícia mantinha-se na 1.? pág., embora com muito menor destaque. O título era Savimbi perseguido no Moxico. O correspondente do DN, Paulo Julião, continuava a fazer-se eco dos rumores e das dúvidas em torno da captura dos dirigentes da UNITA, referindo suspeitas da existência de algum facto (…) deliberadamente escondido da comunicação social. Não existe, em qualquer das notícias, menção de fontes, como é, aliás, natural, tratando-se de rumores. Ao terceiro dia, a notícia desapareceu do DN. O leitor interessado no assunto terá, certamente, consultado, pelo menos, mais um jornal, tentando confirmar, ou acompanhar, o relato do correspondente do DN. Uma consulta ao Público do dia seguinte ao da publicação da primeira notícia no DN, diz-nos que Luanda desmente captura do número dois de Savimbi, considerando essas notícias mera especulação. A fonte é a agência Lusa, que cita, por seu turno, fontes das forças governamentais não identificadas. A notícia do Público refere, também, que os rumores (…) foram postos a circular, pela primeira vez, pela emissora privada Luanda Antena Comercial, com base no despacho de um correspondente de guerra angolano, destacado no posto de comando do Estado-Maior das Forças Armadas Angolanas, no Moxico. Segundo o Público, apesar de nenhuma fonte ter confirmado a captura de Gato, a história foi divulgada pela rádio. Perplexo com a origem das notícias sobre os rumores, o leitor Carlos Veiga seguiu o seu percurso em edições on-line e chegou às seguintes conclusões: a notícia do DN serviu de fonte à tsf.pt e ao publico.pt. Por seu turno, a edição electrónica do Jornal de Notícias – jn.pt – dá como fonte da mesma notícia a SIC-Notícias. Contudo, em Macau, onde este leitor reside, a RTP África identificou o jornalista angolano Jaime Azulay como fonte da notícia. O director do DN afirma: A fonte foi o nosso correspondente em Luanda, cujo trabalho merece a confiança da direcção do jornal. O trabalho de um correspondente num país em situação de guerra é sempre difícil. Quando a guerra se torna uma forma permanente de vida, o trabalho do correspondente apresenta dificuldades acrescidas. Não é, apenas, a sobrevivência física a constituir, então, um desafio constante. É, também, a dificuldade de distinguir e ultrapassar limitações decorrentes dessa situação de guerra – por vezes, justificadas – de imposições arbitrárias de cerceamento da liberdade de imprensa e do direito á informação. A situação complica-se, quando os valores da liberdade e da democracia são frágeis, ou não existem, e a censura e a manipulação se transformam em prática corrente. Nestas situações, o rumor constitui uma forma insidiosa de manipular a informação, constituindo-se como uma eficaz arma de desinformação. Um jornalista deslocado da sua redacção, cortado do convívio diário com colegas e editores do seu jornal, dependente das informações veículadas por fontes interessadas, pressionado pela concorrência de colegas colocados em circunstâncias idênticas, como é o caso de muitos correspondentes, torna-se mais permeável à veiculação de informações de duvidosa credibilidade e à tentação de publicar, só porque outros publicam. Compete à hierarquia do jornal efectuar um acompanhamento atento do trabalho dos correspondentes, sobretudo dos que se encontram em locais e situações difíceis e, também, daqueles que são recrutados localmente, os quais não possuem, em muitos casos, enquadramento profissional, nem espaço de reflexão para enfrentar situações problemáticas. Um jornalista profissional não alimenta rumores e evita repetir e amplificar informações não confirmadas, ainda que outros órgãos de comunicação social se façam eco delas. Como aconteceu no presente caso, o rumor minou a credibilidade do seu autor e dos jornais, rádios e televisões que o veicularam. A afirmação de confiança da direcção do DN no seu correspondente em Luanda é uma atitude louvável, sobretudo quando, como é o caso, o trabalho jornalístico se exerce em condições de extrema dificuldade. Mas a confiança da direcção não garante, por si só, a confiança dos leitores, que tem de ser conquistada no dia-a-dia, através de um trabalho informativo que não dê guarida a rumores, seja em que situação for.

Bloco-Notas

Correspondentes O 3.? Congresso dos Jornalistas Portugueses, realizado em 1998, dedicou um painel ao tema Correspondentes e imprensa portuguesa no mundo. As suas intervenções encontram-se publicadas nos Documentos, teses e conclusões do congresso. Os leitores gostarão de conhecer algumas das questões abordadas, nesse congresso, por jornalistas com larga experiência como correspondentes:

Constrangimentos (…) Um dos maiores problemas do correspondente com o jornal é, sem dúvida, a concorrência de outros jornais. É o caso, por exemplo, do El Mundo espanhol, que publicou no ano passado uma história pouco credível sobre o bispo de Barcelona e o branqueamento de dinheiro ilícito. Nenhum dos jornais espanhóis em Roma acreditava nisso, mas todos foram pressionados e escreveram, sabendo que não era verdade (…). Outro problema difícil para nós, são as repercussões do que escrevemos, tanto em casa como no país que habitamos. Desde que há três ou quatro anos escrevi um artigo sobre a Opus Dei, tenho sentido imensa pressão (…). Manuela Paixão, correspondente do DN em Itália

Televisão A aura que um posto no estrangeiro – com as suas repetidas deslocações e o frequentar de alguns grandes, famosos ou exóticos cenários -, à primeira vista confere, esconde, na realidade um trabalho, em geral, bastante duro (…). Mesmo nos casos em que se apoia numa delegação ou qualquer outra infra-estrutura, o correspondente tem que executar, regularmente, tarefas como: condução de viaturas de serviço (…); carga e descarga de material pesado; organização de meios para assegurar o envio das crónicas. Tudo isto em complemento ao estudo e pesquisa permanentes, leitura de jornais e revistas, contactos com fontes para investigação (…). E ainda a escrita propriamente dita, a que acresce, na TV, a tortura das montagens hora e meia antes de cada ligação-satélite que nunca pode falhar… Carlos Fino, então correspondente da RTP em Bruxelas

Actualidade (…) Dou uma notícia na rádio. Duas semanas depois, um semanário dá a mesma notícia. Da minha rádio pedem para a repetir. E quando argumento que para mim o assunto está esgotado, ouço, do outro lado, que convém fazer de novo porque um jornal se refere ao assunto. José Rui Cunha, então correspondente da TSF em Bruxelas

País pequeno (…) Talvez esteja a ser lírico, ou talvez tenha uma posição de um jornalista que há muito vive a leste de Portugal, tanto no sentido real, como figurado (…). Portugal é um país pequeno, com recursos limitados, com um número cada vez mais pequeno de leitores (…), mas deve fazer-se um esforço para que os correspondentes façam parte integrante dos media portugueses (…). Uma das saídas poderá passar pela cooperação entre media não concorrentes, como acontece comigo em relação à TSF e ao Público. José Milhazes, correspondente da TSF e do Público em Moscovo."

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