Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Estrela Serrano

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Jornalismo e futebol"copyright Diário de Notícias, 17/6/02

"Apenas dois leitores se queixaram à provedora sobre questões relativas à cobertura da selecção portuguesa no Mundial 2002. O leitor Vítor César considera demasiado que o DN, na sua edição do dia 16, inclua ?16 páginas de bola?. Por seu turno, Luís Nogueira protesta com indignação contra as crónicas de ?José Estebes?, nomeadamente a frase ?Olá cambada? que considera ?um insulto?, incitando o jornal a apresentar ?as devidas desculpas aos leitores?.

O director do DN considera, contudo, que o leitor Vítor César ?tem o direito de não gostar de futebol? mas, em sua opinião, ?o DN fez bem ? pelo menos enquanto a selecção portuguesa esteve no Mundial ? em dar o devido destaque a esse facto?. Após a derrota e o regresso da selecção, ?o destaque do futebol regressou a tempos normais?, apesar de ?continuar a ser dada importância a um tema que apaixona milhares de portugueses de todas as classes sociais?, acrescenta o director. Quanto ao protesto de Luís Nogueira, o director do DN recusou comentá-lo, dados os termos usados pelo leitor.

A cobertura do Mundial 2002 merece, contudo, uma abordagem mais detalhada. Vejamos: as pessoas menos informadas sobre os meandros do futebol interrogar-se-ão sobre as razões pelas quais os media portugueses não deram a conhecer aos seus leitores as graves e importantes questões que, ao que agora dizem, envolveram, desde início, a delegação portuguesa. Na verdade, não é compreensível que os enviados especiais, em geral jornalistas especializados, no acompanhamento do fenómeno futebolístico, não se tivessem apercebido dos problemas que trouxeram a público após a eliminação da selecção nacional. Aliás, lendo as notícias publicadas nos dias seguintes à eliminação, verifica-se que a situação não era desconhecida dos jornalistas. Com efeito, pelos menos os enviados do DN e do Público dão conta, nas edições do dia 16, de que a situação ?se percebia aqui e além, neste ou naquele desabafo codificado, passados poucos dias da comitiva chegar a Macau? (DN) e que se sabia que ?as relações entre António Oliveira e dois elementos do seu staff técnico (…) não eram as melhores (…), desde os primeiros dias do estagio em Macau? (Público).

Como entender, então, que ao longo das semanas em que a selecção permaneceu no Oriente nada tivesse sido escrito sobre esses problemas? E por que só após a eliminação se consideraram relevantes informações sobre o vencimento do seleccionador, a sua tentativa de o negociar antes da partida para a Coreia, a proibição de divulgação aos jogadores do desenrolar do Polónia-EUA e o alegado desejo destes de ?fugir aos impostos??

No que respeita ao DN, relendo as páginas dedicadas ao Mundial, verifica-se que existe variada informação e opinião sobre o acontecimento, na sequência, aliás, do que o director prometera no seu editorial de 22 de Maio, em que anunciava ?um conjunto de abordagens imaginativas da informação relacionada com o Mundial (…), desde reportagens e opinião, até evocações históricas e outras boas surpresas (…)?. Ora, apesar da abundância e variedade dos textos publicados, os leitores não tiveram informação sobre questões que agora surgem como uma das causas da eliminação da selecção portuguesa. Importa, pois, tentar identificar as razões da omissão.

Partindo do princípio de que não se trata de ?invenções? ? uma vez que os próprios jornalistas afirmam ter notado, desde início, um ?clima? negativo no seio da delegação portuguesa ? pode colocar-se a hipótese de os jornalistas terem considerado esses ?sinais? pouco consistentes e sem significado e por isso os terem omitido. Esta hipótese não deixa, contudo, de ser estranha, dada a inclinação dos jornalistas para privilegiarem o lado negativo dos acontecimentos e a atenção que costumam dar à interpretação dos sinais que indiciam polémicas e disputas. Mas, ainda o mais estranho é a unanimidade em torno do silenciamento desse ?clima?.

Uma segunda hipótese aponta para o estabelecimento de um ?acordo tácito? entre os responsáveis da selecção e os jornalistas. Os estudos sobre as relações entre os jornalistas e as fontes dizem que os repórteres que acompanham regularmente instituições ou figuras públicas estabelecem com elas, e entre si, laços de camaradagem e cumplicidade que os levam a quebrar o distanciamento face a essas figuras e instituições e a tornarem-se, frequentemente, porta-vozes dos seus interesses. A proximidade e o convívio diário com dirigentes e assessores e os laços de solidariedade e entreajuda estabelecidos com colegas de media concorrentes, proporcionam um terreno favorável à criação de um clima de cumplicidades.

Uma terceira hipótese reside no facto de, sendo o Mundial um tema de enorme repercussão nacional, os jornalistas terem encarado a sua função junto da selecção como uma ?causa? patriótica, um pouco à semelhança do que acontece em situações de conflito armado, em que aceitam omitir informação susceptível de prejudicar o ?moral das tropas?, em nome do ?interesse do Estado?. Isso explicaria as omissões e o tom épico de certos títulos de jornais e aberturas de telejornais, no período anterior à primeira derrota da selecção.

Em qualquer dos casos, a cobertura do Mundial 2002 deixa sem explicação algumas dúvidas e perplexidades sobre as relações entre o jornalismo e o futebol.

Bloco-notas

O ?jornalismo desportivo? possuiu sempre, entre nós, um estatuto especial. De facto, raramente se encontram nos jornais discussões sobre as práticas dos jornalistas ligados a essa especialidade, ao contrário do que acontece com outras áreas do jornalismo. Contudo, existem nos media portugueses profissionais de grande prestígio ligados à cobertura do desporto, cujo profissionalismo é indiscutível. Mas existem casos que marcaram para sempre o ?jornalismo desportivo? em Portugal. Vem a propósito recordar um dos mais negativos, que provocou uma larga discussão pública acerca das relações entre o jornalismo e o futebol.

O caso

Foi em 1996. Uma conversa privada do então treinador do FC Porto, António Oliveira, com oito jornalistas na base do off-the-record realizada no dia 9 de Outubro, surgiu publicada duas semanas depois (a partir da transcrição de uma cassete gravada sem autorização) nas páginas de um jornal desportivo. O caso provocou intenso debate na comunicação social, com depoimentos de jornalistas, editoriais e artigos de opinião, inquéritos, etc. Mais que recordar, agora, o conteúdo da conversa entre o treinador e os oito jornalistas, e a discussão então havida em torno da violação do off-the-record, tem interesse recuperar algumas notas surgidas, nessa altura, sobre certas práticas do ?jornalismo desportivo?.

Amigos

Os jornalistas dignos e os outros era o título de um comentário assinado por António Matos, no DN (24/10/96), onde o jornalista escrevia ?(…) É inacreditável que jornalistas tenham assistido impávidos a um discurso dessa natureza. E isso só é possível, porque os clubes (…) dividem os jornalistas em amigos e inimigos. E alguns que se apresentam como jornalistas mais não são ? e os clubes sabem-no ? do que pseudo-jornalistas e embarcam nisso.? No Expresso (26/10/96), escreveu Fernando Madrinha: ?Os termos da referida conversa, tal como veio reproduzida (…), presumem um grau de cumplicidade que não é suposto existir entre qualquer fonte e um grupo tão numeroso de jornalistas (…).? No Público (24/10/96), José Manuel Fernandes escreveu: ?(…) Uma conversa daquele teor só foi possível, porque existe um clima de concubinato entre alguns jornalistas e alguns meios desportivos (…). Trata-se, frequentemente, de um ambiente de ?amigalhaços?, onde tudo é possível (…). Neste ambiente viciado ? e minado de fervores clubísticos ?, começa também a ser difícil distinguir onde termina o direito à informação, à reportagem, à investigação e à crítica e começam as campanhas.?

Reflexão

As questões suscitadas pela cobertura jornalística do Mundial 2002 não são, obviamente, semelhantes às vividas em 1996. Mas estamos, também neste caso, perante práticas jornalísticas que merecem reflexão, em primeiro lugar, por parte dos jornalistas que trabalham nessa área."

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