Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > Bloco-notas

Estrela Serrano

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"O actor ausente", copyright Diário de Notícias, 22/6/02

"Como leitor do DN, há anos, choca-me ver a maneira como, por vezes, o jornal trata as pessoas ou entidades que são alvo de artigos escritos pelos seus jornalistas. Essas peças (…) suscitam, em muitos casos, desmentidos, correcções e protestos das entidades visadas, às quais o autor da notícia se responde, é para voltar a insistir no que escreveu. Mas, a maior parte das vezes, a resposta é o silêncio.?

Estas palavras, cépticas, do leitor Francisco Santos, foram suscitadas por comentários de jornalistas, publicados sob a forma de ?nota da Redacção? (NR), a cartas de instituições visadas em notícias, as quais levam a provedora a debruçar-se, hoje, não sobre o conteúdo das notícias em causa, mas sobre algumas reacções de jornalistas a críticas e pedidos de rectificação.

Um responsável da empresa ANA escreveu ao DN uma carta onde expunha dados que contrariavam uma notícia em que se afirmava: Aeroporto de Lisboa é um dos mais caros do mundo. A carta foi publicada em 21/3, acompanhada de uma NR na qual, segundo aquele leitor, o jornalista ?nem reiterou o que antes escreveu, apresentando provas que contrariassem a ANA, nem reconheceu o erro?, pedindo ?desculpa?. Também uma carta da Clínica Senhora da Lapa (20/3), a contestar uma notícia sobre o referido estabelecimento, motivou uma NR na qual ?o jornalista voltou a insistir? em tudo o que escrevera antes, ?mas com um argumento (…) frouxo?. O leitor Francisco Santos conclui que ?pedidos de desculpa – é coisa que não abunda no DN?.

O director do DN, Mário Resendes, não está de acordo com a apreciação do leitor, afirmando que o jornal procura ?evitar a tentação habitual dos jornalistas de reservarem para si a última palavra. Um protesto de um leitor deve, em princípio, ser publicado sem comentários, a não ser quando se torna indispensável um esclarecimento adicional?, acrescenta Mário Resendes.

A provedora concorda com o princípio definido pelo director, mas constata que são raros os casos em que um protesto ou pedido de rectificação é acompanhado de uma NR a dar razão ao reparo apresentado. É claro que, em muitos casos, haverá lugar a um esclarecimento adicional por parte do jornal. Mas o que choca os leitores é o tom de algumas dessas notas da Redacção.

Vejamos alguns casos recentes. Uma notícia sobre os portais da Administração Pública (22/5) levou Luís Vidigal a dirigir-se à provedora, contestando o seu conteúdo. A mesma notícia provocou um pedido de rectificação de António Mendes dos Santos (do Ministério das Finanças), que foi publicado acompanhado por uma NR em que o autor da notícia contesta a interpelação e ?recomenda? ao queixoso que ?leia melhor os jornais e as notícias, antes de se abalançar a comentá-las? (11/6). Outra notícia, intitulada Renovação é vírus mortal (12/4), provocou um protesto de António Costa Moreira, que acusa o jornalista de ?deturpação? e ?falsidade?. A sua carta foi publicada com uma NR que começava assim: ?Este leitor ultrapassa em ortodoxia os mais ortodoxos (…).? Seguia-se a confirmação de tudo o que fora escrito na notícia (27/4).

O silêncio ou a recusa de atender um leitor também provocam reacções de desagrado. Afirma um responsável da Associação Nacional de Empresas de Bebidas Espirituosas (ANEBE) que, ao contactar a autora de duas notícias sobre consumo de álcool nas estradas portuguesas (14 e 21/5), ?com o único propósito de procurar clarificar a situação, a única resposta? que obteve foi a ?recusa pura e simples de discutir o assunto?. A autora das notícias confirma que ?recusou discutir o assunto, uma vez que têm sido várias as vezes em que fica a discutir argumentos, sem que disso resulte alguma evolução?. Acrescenta ter sugerido à ANEBE que ?usasse os mecanismos de resposta e de opinião que o DN coloca ao seu dispor?. Segundo a jornalista, a ANEBE exprimira, antes, por e-mail, ?o seu desagrado em termos pouco correctos?.

Independentemente de, em alguns destes casos, os leitores poderem não ter razão, os jornalistas parecem não encarar os leitores como parceiros do processo informativo, esquecendo que é a sua fidelização que garante o sucesso do jornal. Se se decide publicar um pedido de rectificação, mesmo quando o reclamante não invoca o ?direito de resposta?, como aconteceu nos casos focados, é porque se lhe reconhece alguma pertinência. Admitindo que um leitor não tem razão e que os termos que usa não são os mais indicados, não se afigura, mesmo assim, aceitável que o jornal responda com ironia ou superioridade. As respostas agressivas ou arrogantes e a recusa do reconhecimento de erros inibem o diálogo entre os leitores e o jornal. Quem arriscará dirigir-se ao jornal, sabendo que poderá ser tratado com displicência numa nota da Redacção?

Ao invés de serem tratadas com sobranceria, as queixas dos leitores deviam ser cientificamente analisadas, porque proporcionam um conhecimento que as sondagens não fornecem.

Se é certo que uma boa estratégia de marketing é essencial à conquista de novos leitores, não é menos certo que a sua fidelidade ao jornal depende, essencialmente, da prática quotidiana de um jornalismo rigoroso que respeite as suas opiniões e aceite as suas críticas. O leitor não pode ser um actor ausente do processo jornalístico.

Bloco-notas

Leitores ? Um dado interessante no contacto dos leitores com a provedora é o facto de a correspondência aumentar, sempre que aborda temas que se prendem com questões de fundo sobre o funcionamento do jornal, a sua orientação editorial, a sua relação com o público, o seu posicionamento face a problemas concretos do quotidiano dos cidadãos, ou quando discute, em termos abstractos, temáticas relacionadas com os media.

Dir-se-ia que os leitores, a não ser que se sintam visados nas notícias – o que acontece sobretudo com os ?leitores-fonte?, isto é, aqueles que, de algum modo, contribuem para a construção das notícias -, estão mais sensibilizados para a discussão das questões de princípio, sobre o jornal, do que para casos pontuais que a provedora procura arbitrar. De facto, alguns leitores sugerem que a provedora se pronuncie sobre temas como ?O poder do jornalismo?, ?Influência dos interesses económicos no jornal?, entre outros temas de ?grande fôlego?. Esse dado é sobretudo interessante por indiciar interesse e atenção por um campo tão relevante para as sociedades contemporâneas como é o dos media.

Mesmo a contundência e a irritação com que alguns leitores reagem ao tratamento de certos temas e a incorrecções mostram o reconhecimento e a importância que atribuem ao jornalismo e ao seu papel estruturante na configuração de comportamentos e atitudes. Outras cartas A provedora recebeu, esta semana, algumas cartas estimulantes. O leitor Francisco Cristóvão Ricardo encara esta função como uma ?procura de conciliação de conflitos de opinião entre leitores e jornalistas (…), papel difícil, porque é juiz em causa própria, mas, apesar de tudo (…), um papel pedagógico?. O mesmo leitor confessa ter ?a ideia de que o leitor é sempre pequeno, perante a infalibilidade do jornalista. Nunca um jornalista confessa que errou, jornalista tem sempre razão, só ele tem tribuna franca?, diz o leitor. Proposta Motivado pela coluna ?O correio dos leitores? (DN, 17/6), José de Sousa S. Cabral faz a seguinte proposta, para o tratamento das cartas dirigidas à rubrica Meu Caro DN: ?Os escritos recebidos e não publicados seriam devolvidos aos remetentes ou, pelo menos, estes seriam notificados do facto. Por outro lado, (as cartas) nunca seriam reduzidas, na sua publicação, sem a aprovação do autor. Se necessário, para evitar despesas, cada escrito dirigido ao Meu Caro DN seria acompanhado de estampilha, para resposta. Um questionário já impresso serviria para responder rapidamente.? Assim, ?o autor poderia procurar outra via, para se fazer ouvir?.

A provedora agradece o contributo do leitor e deixa ao cuidado da direcção do jornal a análise das virtualidades da sua proposta, dado essa matéria não ser da sua competência."

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