Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > Bloco-notas

Estrela Serrano

Por lgarcia em 31/07/2002 na edição 183

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"A manifestação" copyright Diário de Notícias, 22/7/02.

"Uma notícia sobre a manifestação antiglobalização, realizada em Sevilha, em 22 de Junho passado, intitulada Manifestação pacífica junta cem mil pessoas, publicada no DN, no dia seguinte, foi acusada de conter ?incorrecções? pelos leitores João Carrilho e Diana Lopes, por afirmar que ?(…) ao longo do percurso de três quilómetros, não foi possível avistar um único agente fardado, a não ser os que acompanhavam a cabeça e o fim da manifestação e que ao todo não chegariam a 20 elementos? e que ?grande parte do contingente especial encontrava-se, ainda assim, nas ruas laterais do trajecto. Longe dos olhares mais susceptiveis (…)?.

João Carrilho e Diana Lopes contrapõem que ?ao longo do percurso de três quilómetros, a presença em massa da polícia era uma constante (…), não estando?, ao contrário do que afirma a notícia, ?de todo ?longe dos olhares mais susceptíveis?. Acrescentam, ainda, que ?inúmeras carrinhas encontravam-se em todos os becos perpendiculares à rua onde circulava a manifestação?, sendo possível ?observar muitos polícias fardados?, além de, ?na rua principal?, se encontrarem ?estacionadas carrinhas da polícia, assim como vários agentes a pé, fardados?, todos ?muito visíveis?. Afirmando que ?mesmo sendo, talvez, verdade que (como refere a notícia) o número de polícias que acompanhavam a cabeça e o fim da manifestação não chegasse a 20, qualquer fotografia/vídeo provará que no final da manifestação (…) se encontravam, pelo menos, mais de 15 carrinhas da polícia?.

Além das ?incorrecções?, os leitores afirmam ainda que a notícia ?é tendenciosa?, na medida em que leva a pensar que ?o bom comportamento dos manifestantes se deveu exclusivamente a uma boa organização polícial?, o que, em sua opinião ?não é verdade?, uma vez que esse comportamento se deveu ao facto de serem ?pessoas (…) pacíficas e correctas (…) interessadas em manifestar-se de forma pacífica?, o que, a seu ver, deveria ter sido referido.

O autor da notícia, jornalista João Cepeda, recusa que tenha havido ?incorrecções? sobre o número de polícias que acompanharam a manifestação, ?reafirmando que ao longo do percurso, junto dos manifestantes, não se avistava um único agente fardado? e que ?por alguma razão a estratégia de segurança foi enaltecida pelos próprios organizadores da manifestação?. A notícia cita, aliás, um deles, que afirma ter a polícia cumprido ?o acordo de não se fazer notar nas redondezas?.

Sobre a localização das carrinhas da polícia, o jornalista não vê diferenças de maior entre os ?becos perpendiculares?, referidos pelos leitores, e as ?ruas laterais? ao trajecto da manifestação, a que se refere o seu texto. Quanto à acusação de que a notícia é ?tendenciosa? – por levar o leitor a pensar que ?o bom comportamento dos manifestantes se deveu a uma boa organização policial? – João Cepeda remete os leitores para o título da notícia: Manifestação pacífica junta cem mil pessoas. O jornalista afirma, ainda, que esteve lá, tendo relatado ?o que viu?, acrescentando que acompanha o movimento antiglobalização ?desde 1999?, sendo esta ?a quarta manifestação? (desse movimento) que cobre ?como repórter do DN?.

A provedora não tem elementos que lhe permitam aferir a conformidade dos dois relatos – o do jornalista e o dos leitores – com a ?verdade? sobre a manifestação, pelo simples facto de não a ter presenciado. Mas, ainda que isso tivesse acontecido, o seu ?olhar? sobre ela, não seria, forçosamente, o único fiel à ?realidade? dos acontecimentos.

Tão-pouco se afigura haver contradições gritantes entre o relato do jornalista e o dos leitores. Em ambos se encontram referências à presença discreta da polícia e se afirma que as carrinhas se posicionaram fora do trajecto principal da manifestação – quer lhes chamem ?ruas laterais? ou ?becos perpendiculares?. Ambos coincidem, também, na constatação do ?bom comportamento? dos manifestantes e no carácter ?pacífico? da manifestação. Dizem os leitores que esse ?bom comportamento? se deveu ao facto de serem ?pessoas (…) pacíficas e correctas (…) interessadas em manifestar-se de forma pacífica?, e que isso não foi referido pelo jornalista.

Ora, não é suposto um jornalista relatar intenções. E, ainda que tivesse obtido afirmações nesse sentido de alguns manifestantes, n&atildatilde;o poderia, em rigor, estender essas intenções à generalidade dos participantes na manifestação. Aliás, uma das acusações frequentemente feita, com alguma pertinência, aos jornalistas é a facilidade com que generalizam situações particulares e pontuais. Ora, João Cepeda não só não incorreu nesse erro, como não escamoteou, quer o carácter pacífico da manifestação, quer o ?impressionante aparato policial? montado ?pelas autoridades espanholas? para ?evitar actos de violência semelhantes aos das últimas cimeiras?.

Acresce que, ao contrário de outros jornais portugueses que, nesse dia, se centraram exclusivamente no incidente ocorrido na fronteira com os portugueses que se dirigiam à manifestação, o DN considerou relevante valorizar, também, o caracter pacífico da manifestação de Sevilha. E, a avaliar pelo comportamento das forças policiais espanholas na fronteira portuguesa, a atitude da polícia, em Sevilha, representava um contraste digno de ser noticiado. O que o DN fez.

Nota: Esta coluna regressa em 2 de Setembro.

Bloco-notas

Fenómeno social ? O estudo da cobertura jornalística de manifestações tem merecido atenção por parte de investigadores. Num texto publicado em 1984, Patrick Champagne analisa a manifestação de agricultores realizada em Paris, em 23 de Março de 1982. Champagne aborda as manifestações como fenómeno social, estabelecendo a distinção entre manifestações de ?primeiro grau?, que existem por si, isto é, possuem um valor próprio, independentemente do seu nível de espectacularidade e das estratégias de comunicação dos seus promotores, e manifestações de ?segundo grau?, que ele caracteriza como destinadas a influenciar e pressionar o poder político. Trata-se, para o autor, neste último caso, de manifestações que procuram afirmar a representatividade de um determinado grupo social que se destinam a agir sobre outros. A sua eficácia simbólica necessita da cumplicidade dos media e o seu sucesso depende da capacidade de os seus promotores conseguirem impor aos media o seu próprio ponto de vista. Champagne inclui neste tipo a manifestação dos agricultores de Paris.

O papel dos media ? Na sua análise, Patrick Champagne destaca o papel dos media na construção da imagem que o público retém de uma manifestação, afirmando que o que é dito e visto é o produto do encontro entre as características do grupo que se dá a ver – os manifestantes – e as categorias de percepção sociais e políticas dos jornalistas. O autor chama a atenção para as relações de cumplicidade objectiva que se estabeleceram entre os promotores da manifestação dos agricultores e os jornalistas, criticando o facto de os media serem, frequentemente, instrumento de estratégias de comunicação das fontes, que conseguem impor os seus pontos de vista devido à sua aparente credibilidade e à natureza do trabalho jornalístico (pressões do tempo, cobertura de assuntos pré-agendados, critérios de imparcialidade, equilíbrio e objectividade).

Estratégias ? O texto de Champagne analisa também os processos de produção de notícias, mostrando as estratégias utilizadas por instituições ou grupos sociais para terem acesso às primeiras páginas e à abertura dos telejornais e como, em determinados momentos e em circunstâncias específicas ligadas a actividades que desenvolvem ou causas que abraçam, determinadas instituições e grupos conseguem gerar acontecimentos que dão origem a notícias. Trata-se de uma abordagem extremamente interessante e útil para compreender, não apenas a emergência dos acontecimentos públicos, incluindo as manifestações de grupos sociais organizados, mas também as estratégias que influenciam a sua transformação em notícias, o que é essencial para perceber toda a problemática da criação e construção da realidade operada pelos media, isto é, a sua intervenção na produção do conhecimento dos públicos. O texto de Champagne constitui, pois, um excelente ?guião? para a análise e compreensão de fenómenos sociais e políticos do tipo das manifestações."

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