Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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Estrela Serrano

Por lgarcia em 25/09/2002 na edição 191

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Os ?dossiers? do DN", copyright Diário de Notícias, 16/9/02

"O dossiê sobre transgénicos – organismos genéticamente modificados (OGM) – publicado, no DN, em 7 de Julho, levou o leitor Fausto Simões a acusar a jornalista Helena Mendonça, autora do trabalho, de ?ilimitada fé na ciência? e de fazer ?correr a ideia? de que ?ambientalistas e outros turbulentos actores estão a perturbar, em prejuízo de todos nós, o denodado trabalho dos cientistas inteligentes e idealistas, na busca da verdade sobre os OGM?. O leitor contesta a afirmação da jornalista de que os OGM ?são aceites pacificamente nos Estados Unidos?, chamando a atenção para o facto de, nesse país, ?a rotulagem continuar a não ser obrigatória?, facto que relaciona com ?o papel dominante e perigoso de empresas de desmesurada dimensão transnacional que, no caso dos OGM em questão, dominam cada vez mais as indústrias agrícola e alimentar, com capacidade para controlar Estados muito debilitados e mesmo instâncias internacionais, através de poderosíssimos grupos de pressão?. Fausto Simões cita três exemplos: a Aventis, a Monsanto e a Novartis, perguntando se ?os interesses dominantes destas corporations são a saúde e felicidade de todos nós, a ?mais-valia dos agricultores? ou o interesse dos seus accionistas?. Estranha, pois, ?que estes actores maiores, decisivos no campo dos OGM, estejam ausentes do dossiê de Helena Mendonça, com a excepção de uma referência curta e benévola que lhes faz o biológo José Feijó? na entrevista incluída no citado dossiê.

A autora do trabalho não se reconhece ?nas acusações de manequeísmo? feitas pelo leitor, afirmando que ?a polémica que envolve os OGM? a fez ?ter cuidados redobrados na abordagem deste assunto, (…) procurando um rigoroso equilíbrio entre aqueles que são contra e os que são a favor da engenharia genética?. A jornalista acrescenta que teve, ainda, a preocupação de descrever aspectos que estavam ?escondidos?. Helena Mendonça explica que, ?após mais de um mês de leituras sistemáticas?, chegou à conclusão de que ?as notícias publicadas na imprensa têm privilegiado os estudos e as ideias negativas sobre os OGM?. Tentou, assim, ?quebrar o ciclo de que só é notícia aquilo que é negativo e dar a conhecer um outro lado da controvérsia, sem nunca (…) esquecer as duas posições em confronto?. Reconhecendo que a questão das multinacionais seria tema que daria ?outro dossiê?, a jornalista acrescenta, contudo, que o seu trabalho deixou claro que ?essa concentração de poderes tem sido negativa para o esclarecimento da questão?. Como jornalista, Helena Mendonça considera que ?a sua obrigação, neste tema tão polémico e tão politizado, era (…) dar conta da discussão internacional e da situação portuguesa neste cenário?.

A detalhada argumentação do leitor e da jornalista dispensam a provedora de recordar aos leitores o conteúdo do dossiê sobre os alimentos transgénicos, já que seria difícil fazê-lo, não apenas pela extensão do trabalho (seis páginas) mas, sobretudo, pela complexidade das questões expostas.

O tratamento jornalístico de temas científicos provoca, frequentemente, reparos de leitores com formação especializada nos temas tratados, que acusam os jornalistas de superficialidade ou de conluio com interesses comerciais envolvidos na promoção de ?descobertas científicas?. Não são, contudo, desse teor as críticas do leitor Fausto Simões. O seu protesto incide, por um lado, sobre um alegado desequilíbrio em termos das ?vozes? ouvidas pela jornalista – em sua opinião, o ?lado? favorável aos transgénicos está mais presente que o contrário – e, por outro, sobre o enfoque do tema – a questão dos interesses económicos não teve, a seu ver, a abordagem necessária. Por isso, afirma que foi posta em causa a ?imparcialidade? do trabalho, o que a jornalista recusa, exemplificando com ?a opção gráfica de dividir ao meio a página dedicada às ?Razões a favor? e às ?Razões contra??, como meio de ?dar espaço e destaque rigorosamente iguais? a ambas as partes.

Importa recordar o título e a abertura do trabalho de Helena Mendonça, destacado na 1.? página do DN, no dia da publicação do dossiê: Consumo de alimentos transgénicos é opção política. A abertura dizia: ?Já os consumimos há mais de dois anos. Nos Estados Unidos são aceites pacificamente, mas na Europa as dúvidas ainda são muitas. Enquanto a ciência não der uma resposta clara, comer ou não transgénicos acaba por ser uma opção política.? Em artigo de opinião incluído no dossiê, a jornalista explica em que consiste a ?opção política? a que se refere o título: ?Os argumentos a favor e contra esgrimem-se mais pela forma como cada um se posiciona perante a vida e a natureza do que baseados em estudos científicos sobre os efeitos dos produtos ?trabalhados? pela biotecnologia.?

Ora, essa constatação, resultante dos argumentos dos defensores dos alimentos transgénicos e dos seus críticos, mostra que a jornalista e o leitor estão de acordo em que ?as coisas estão longe de ser simples?. O trabalho de Helena Mendonça mostra exactamente essa complexidade, confrontando opiniões e problematizando a questão. Não há, assim, contradição com a afirmação do leitor de que os estudos sobre os transgénicos têm levado cientistas (e outros) ?a perder essa fé na ciência ou, pelo menos, a não deixar de ter em conta o seu enquadramento na sociedade neoliberal que hoje se globaliza?.

Bloco-Notas

Outros dossiês ? Uma das marcas de um jornal ?de referência? é a sua atenção a temas de interesse político, económico, social, e cultural, cujo tratamento se distingue pela investigação, aprofundamento, distanciamento e qualidade narrativa.

O jornalismo de investigação é o género jornalístico por ?excelência?. Contudo, não basta dispor de um conjunto de dados oficiais e com eles construir uma série colorida de infografias, ou ter acesso a relatórios oficiais (ou oficiosos), ou a outro tipo de informações privilegiadas ou confidenciais (tais como escutas telefónicas), ou ainda reunir um conjunto de depoimentos sobre um determinado assunto, para se poder falar de um trabalho de investigação e, muito menos, de um trabalho ?de qualidade? (mesmo considerando a ambiguidade semântica da palavra ?qualidade?). Um bom trabalho jornalístico de investigação pressupõe muito estudo, tempo, meios, o que nem sempre depende da vontade do jornalista encarregado de o realizar. Vejamos alguns dos dossiês do DN.

Imigração ? ?Os novos imigrantes da Europa? era o título do dossiê publicado nos dias 3 a 7 de Junho pp. No primeiro dia, o trabalho centrava-se num conjunto de infografias que enchiam a página de números fornecidos pelos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), entidade a inspirar, aliás, todo o trabalho. Além do SEF, o DN ouviu o testemunho de um imigrante e um responsável sindical da construção civil – sector que emprega a maioria dos imigrantes. Faltou a contextualização do fenómeno da imigração, o tratamento dos dados apresentados, a referência a trabalhos académicos que focam o tema. No dia seguinte, o dossiê prosseguia com um conjunto de histórias de imigrantes em Portugal. Uma abordagem mais profunda seria, apenas, aflorada por um professor do ISPA ouvido pelo DN. Nos dias seguintes, o dossiê estendeu-se a Espanha, França, Alemanha, Itália. Tratou-se, contudo (à excepção do correspondente em Madrid, que ensaiou uma contextualização), de textos centrados essencialmente em torno das posições de entidades oficiais sobre a imigração. Não existem dados que, minimamente, aprofundem as diversas dimensões do problema da imigração.

Saúde ? ?As noites longas da saúde? foi o tema do dossiê que o DN publicou de 18 a 22 de Junho. São histórias sincopadas, escritas em forma de diário, passadas nas urgências de vários hospitais do País. Évora, Marinha Grande, Porto, Faro, Lisboa foram as cidades contempladas. Relatos interessantes, bem escritos, depoimentos impressivos, acompanhados de fotografias a condizer. O dossiê encerra com uma entrevista ao ministro da Saúde. As suas respostas às perguntas da repórter do DN fazem a manchete da edição desse dia. É nas palavras do ministro que encontramos a síntese das reportagens feitas nos dias anteriores pelos repórteres do jornal. O DN dispensou-se, pois, de uma reflexão conclusiva sobre o seu trabalho desses cinco dias."

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