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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Estrela Serrano

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Sobre o jornalismo" copyright Diário de Notícias, 23/9/02.

"Escreve o leitor Mário Orlando Moura Pinto: ?Um dos temas que mais dúvidas me suscitam tem a ver com a ética jornalística. Destrinçar o que é notícia do que não o é. Saber que, ao ler uma notícia, estamos a ler o que realmente se passou e não a opinião do jornalista. Saber o que é uma notícia de interesse público e se o interesse individual se deve sobrepor ao interesse colectivo (…). Dou–lhe um exemplo: foi noticiado que os jornalistas que acompanharam a selecção nacional de futebol à Coreia teriam conhecimento dos problemas que depois se vieram a tornar públicos. É certo que tal notícia foi desmentida pelos jornalistas. Mas, se fosse verdade que teriam conhecimento, acha que o deveriam ter noticiado ainda que pudessem desestabilizar os jogadores e assim prejudicar o seu desempenho??. Mário Pinto já em anteriores ocasiões questionou a provedora sobre temas de fundo relacionados com o jornalismo. Volta, agora, a colocar questões de indiscutível interesse, mas cuja complexidade extravasa o espaço desta coluna.

O jornalismo não é uma ciência exacta, sendo mesmo tema de discussão saber se podemos incluí-lo no campo das ciências. Alguns teóricos encaram o jornalismo como uma ?ciência-mal-feita?. Outros vêem no jornalista ?o historiador da actualidade?. A vasta produção teórica sobre o ?campo? reforçou o entendimento do jornalismo como construção social da realidade.

O jornalismo procura a singularidade e não a universalidade, nisso se distinguindo da ciência. Interessa-lhe o que é actual ? e nisso se afasta da história ?, o que é novo e diferente. Exige-se-lhe não apenas que relate os acontecimentos mas que os autentifique e os explique. É, por natureza, crítico ? mesmo quando não persegue a crítica ? e por isso procura o que é negativo. É condicionado pela sua forma de organização (pode ser encarado como um ?serviço ou como ma ?mercadoria?), pelos valores culturais e ideológicos dos seus produtores, pelas suas práticas rotineiras e ?escravizantes? (o tempo, o espaço, as tecnologias), pelas relações que estabelece com os seus públicos. A proximidade com os factos, com as fontes e com os seus públicos coloca-lhe um problema (irresolúvel) de subjectividade. Estas reflexões, embora longe de resolverem as questões colocadas pelo leitor, poderão, talvez, enquadrar hipóteses de respostas. Mas o leitor dirige, também, à provedora, uma pergunta mais concreta: ?se fosse verdade? que os jornalistas que acompanharam a selecção nacional de futebol à Coreia ?tinham conhecimento dos problemas que depois vieram a público, deveriam tê-los noticiado, ?ainda que pudessem desestabilizar os jogadores e assim prejudicar o seu desempenho??.

Vejamos: as mitologias do jornalismo apresentam o jornalista como alguém à procura de notícias para as levar ao conhecimento do público. A figura incansável do repórter à procura dos ?factos? povoa o imaginário de todos os que abraçam a profissão.

Obter notícias e não as divulgar é um contra-senso que nenhum jornalista aceita, a não ser em circunstâncias especiais. É claro que os jornalistas sabem muitas coisas que não publicam. Existem limitações à publicação, entre elas, o interesse público (apesar da ambiguidade do conceito).

Em situações especiais, os jornalistas (incluindo os de media concorrentes), estabelecem, entre si, e com as fontes, consensos sobre atitudes a tomar face a informações que conhecem. Isso acontece, sobretudo, quando se encontram, em grupo, a cobrir determinados acontecimentos como, por exemplo, o Mundial de Futebol.

Acontece, também, noutras situações, como a cobertura de conflitos armados ou em acontecimentos relacionados com a vida privada de figuras públicas. Nesses casos, a decisão de não publicar é assumida em nome de princípios que os jornalistas aceitam como válidos. A história mostra, contudo, que, algumas vezes, os jornalistas aceitaram omitir informação em nome de um suposto interesse público, que depois veio a revelar-se ser, apenas, um interesse particular.

Relativamente ao caso do Mundial, a provedora só pode apreciá-lo em abstracto, uma vez que desconhece os seus detalhes. Contudo, caso os jornalistas tivessem tido conhecimento dos problemas que depois vieram a público, o que seria natural era que os tivessem divulgado, precisamente pelas consequências que deles podiam advir (como veio a verificar-se). De facto, face ao ?investimento? emocional do País na selecção, o desconhecimento desses problemas tornou ainda mais incompreensível e inaceitável o desfecho da prestação portuguesa, acabando por provocar uma desilusão geral e levar a reacções muito pouco desportivas. Por outro lado, não é de crer que, na Coreia, onde se encontravam, os jornalistas dispusessem de elementos que lhes permitissem concluir que o interesse público estaria, antes, na ocultação dessa informação.

Acresce que, a haver ?desestabilização dos jogadores?, ela só podia ser provocada pelos problemas em si e não pela sua divulgação. Além de que a preocupação com o desempenho dos jogadores pertence aos dirigentes desportivos e não aos jornalistas. Caso contrário, seria sempre possível, às fontes, invocar argumentos semelhantes para convencer os jornalistas a abdicarem da primeira das suas funções: dar notícias (após a sua confirmação por fontes independentes)."

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