Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > DIÁRIO DE NOTÍCIAS

Estrela Serrano

Por lgarcia em 09/10/2002 na edição 193

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Linguagens", copyright Diário de Notícias, 30/9/02

"No passado dia 20 de Agosto, o DN publicou um texto, na secção Ciência e Ambiente, com o título Certas drogas atacam nervos. O leitor Nelson Henriques critica alguns aspectos desse texto, nomeadamente a conformidade do título com o conteúdo, o ?rigor científico? e a ?linguagem jornalística?.

Relativamente à primeira questão, diz o leitor que a palavra ?drogas? tem um significado distinto para a maioria dos leitores?, pelo que qualquer pessoa ?menos familiarizada com este tema provavelmente não terá entendido esse título?. Por outro lado, afirma que são utilizadas várias expressões para designar medicamentos ou produtos farmacêuticos, tais como ?remédios? e ?drogas químicas?. Em sua opinião, o que se extrai do texto é que ?alguns produtos farmacêuticos destinados a baixar o colesterol, nomeadamente as estatinas, podem provocar efeitos secundários?.

No entanto, continua o leitor, ?como o próprio texto diz, os benefícios das estatinas ultrapassam as potenciais reacções adversas?, pelo que ?o título devia estar mais de acordo com o conteúdo do artigo?. Por outro lado, afirma Nelson Henriques, ?tendo em conta que ainda recentemente a Fundação Portuguesa de Cardiologia publicou trabalhos que mostram que ?cerca de 70% dos portugueses têm o colesterol elevado", o título do artigo é ?alarmante", dado poder levar muitos doentes a terem receio de iniciar, ou continuar, os tratamentos recomendados, o que pode ser considerado grave (…) num País onde a principal causa de mortes são as doenças cardiovasculares?. Relativamente ao ?rigor científico e linguagem jornalística?, o leitor afirma não fazer sentido ?que os nomes comerciais sejam adulterados, ou citados outros que não se usam em Portugal?.

Acrescenta o leitor que ?um jornal como o DN ? com uma página específica sobre ciência? ? não pode tratar estes assuntos ?com tanta superficialidade e tanta falta de rigor?, perguntando, a propósito de frases contidas no artigo, o que significa ?sofrer estragos no sistema nervoso? e se ?as companhias de químicos especializadas? são ?companhias farmacêuticas que produzem estatinas?.

Sobre a frase ?fármacos com base nas estatinas?, afirma que ?as estatinas são um grupo específico de fármacos? e, relativamente às expressões ?ataques de coração e enfartes?, refere que os enfartes do miocárdio são popularmente chamados ataques de coração?. Nelson Henriques afirma, ainda, que ?o DN não pode, nem deve, assumir que os leitores são todos desinformados, ou pouco rigorosos e, muito menos, ignorantes?.

Reconhecendo que o leitor está ?muito bem informado sobre a matéria do artigo?, o autor da notícia, jornalista Humberto Vasconcelos, considera, contudo, ?preocupante a ligeireza com que lança críticas e comentários sobre a forma como o artigo foi construído e as fontes que foram utilizadas?.

O jornalista refere que ?o artigo foi feito com base em informação distribuída pela agência noticiosa científica Alphagalileo, que difunde matérias publicadas nas revistas Science e Nature e no jornal Neurology, referenciado no trabalho?.

Diz, ainda, que ?as informações dadas aos leitores têm a anuência da American Heart Association, como se refere no texto?, e também que obteve ?a opinião de um técnico farmacêutico? do Infarmed sobre o conteúdo do despacho da agência difusora da notícia.

Aquestão suscitada pelo leitor Nelson Henriques ilustra a difícil compatibilidade entre o discurso jornalístico e o discurso científico. O primeiro, orientado para a simplificação, concisão, clareza e brevidade, colide frequentemente com a sistematização, aprofundamento e erudição do discurso científico.

Acontece, mesmo, que o termo ?jornalístico? aplicado à escrita se tornou, para muitos académicos, sinónimo de superficial.

Por outro lado, a linguagem científica aparece aos jornalistas como verbosa, incapaz de ir brevemente ao essencial e de expor conclusões claras.

As palavras severas do leitor Nelson Henriques e a resposta do jornalista às suas críticas revelam um jogo de estigmatizações cruzadas entre o discurso jornalístico e o discurso científico que, em última análise, mostra que qualquer deles não pode ser, apenas, redutível ao talento e competência do seu produtor, exprimindo, antes, os constrangimentos do espaço em que cada um opera e dos recursos de que dispõe.

A notícia em questão, embora situada numa página vocacionada para o tratamento dos temas de ciência, dirige-se, essencialmente, ao ?grande público?.

Daí a utilização de uma linguagem sujeita a princípios de simplificação, de explicação e de adaptação às presumíveis capacidades de compreensão desse público, linguagem que, sem dúvida, se afasta da profundidade e rigor que o tema mereceria numa publicação especializada. Todavia, como reconhecem muitos cientistas, a divulgação de informações sobre ciência em jornais generalistas, ainda que, na maioria dos casos, tratadas sem o desejável rigor, possui a vantagem de levar os especialistas a procurá-las noutros fóruns.

Espera-se, porém, neste caso, que eventuais efeitos negativos, tais como os que são apontados pelo leitor, sejam minorados por uma acção esclarecedora das entidades competentes."

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