Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > DIÁRIO DE NOTÍCIAS

Estrela Serrano

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"O desvio", copyright Diário de Notícias, 20/10/02

"No dia 13 de Setembro passado, o DN publicou uma segunda edição cuja manchete anunciava ?Avião da TAP desviado nos EUA?. A manchete era enquadrada com o antetítulo ?Terrorismo? (escrito em caracteres pequenos).

Dois leitores ? Manuel Silva e Rui Manuel Barata Dias ? manifestaram à provedora, a ?tristeza? e o ?desagrado? que esse título lhes provocou, considerando Manuel Silva que ele é ?exemplo do sensacionalismo em que o jornalismo aposta cada vez mais?. Segundo este leitor, ?é cada vez mais raro encontrar um jornalismo que não procure explorar o sensacionalismo?.

Também Rui Dias considera que se trata de ?um título deliberadamente escolhido para criar impacto?, o qual, a seu ver, ?não corresponde (?) à verdade?. O leitor interroga-se sobre ?o que pensará um cidadão acerca do que realmente aconteceu ao ler tal título?, lamentando que ?um jornal com o peso social do DN recorra a tais expedientes (?) tanto mais (?) que sentimentos (?) como medo, morte são imediatamente associados, (sobretudo nessa altura do ano), a qualquer tipo de ocorrência que envolva transportes aéreos?. O leitor acrescenta que ?depois, está tudo explicado em letras pequenas (?) mas isso já é irrelevante para o caso?.

O director do DN, Mário Resendes, responde à interpelação destes leitores, afirmando que ?o avião da TAP foi desviado do seu destino ? Nova Iorque ? por dois caças militares da Força Aérea norte-americana?.

Pergunta o director: ?De que se queixam os leitores? Não é uma acção suficientemente insólita e grave? Não é o título correcto??

Vejamos: a crítica dos leitores incide, essencialmente, sobre o uso da palavra ?desviado? na capa do jornal, a qual, na opinião de ambos, surge conotada com os acontecimentos de 11 de Setembro nos EUA, isto é, trata-se de uma palavra implicitamente associada a sentimentos de tragédia, medo e terror.

Acresce que se tratava de um avião da TAP (o que significa que cidadãos portugueses estariam a bordo). Além disso, o caso ocorre dois dias após o primeiro aniversário do 11 de Setembro, o que aumenta a sua carga emotiva. Era preciso ler o texto da notícia para se saber que o desvio se deveu ao encerramento do Aeroporto JFK quando ?um indivíduo fez disparar os detectores de metais (?) e conseguiu escapar às autoridades?. De facto, como refere o leitor Rui Dias, na última página o DN ?explica tudo? ao dizer que ?outros aparelhos foram igualmente impedidos de aterrar? e que ?o avião português aterrou em segurança? noutro aeroporto.

Relativamente ao verbo ?desviar?, ele significa mudar o rumo ou a posição de algo que se encontra em posição estática ou em movimento, pelo que, em rigor, não existiu uso incorrecto da palavra. Aliás, ela surgiu em, praticamente, todos os jornais, rádios e televisões, apesar de, desde o início, as autoridades norte-americanas e portuguesas terem afirmado que o incidente fora provocado por um ?erro?.

Ao retomar o tema no dia seguinte, em página interior, o DN foi muito mais rigoroso na escolha do título: ?Erro força desvio de voo da TAP.? Trata-se, neste caso, de um título mais completo, quase exemplar no que respeita a rigor, concisão e clareza. De facto, esse título, além de indicar o facto em si ? o desvio do avião ? aponta a sua causa: um erro. Admitindo que, no momento de elaboração da sua segunda edição do dia 13, o DN não dispunha ainda de todos os pormenores sobre as causas do desvio do avião, sabia, pelo menos, que não se tratava de um acto de terrorismo, ao contrário do que o antetítulo podia fazer crer.

A procura de ?sensacionalismo? por parte do jornal constitui a explicação apontada pelos leitores. Trata-se, contudo, de uma acusação grave ? para mais, aplicada a um jornal ?de referência? ? que a provedora não gostaria de perfilhar, não obstante compreender o desespero que o anúncio do desvio de um avião da TAP, nos EUA, ocorrido no rescaldo da evocação da tragédia de há um ano, pode ter causado a pessoas com familiares, ou amigos, viajando, nesse dia, de Lisboa para Nova Iorque.

A primeira página de um jornal possui sempre uma função apelativa e estimuladora criada através de palavras, frases e imagens escolhidas para causar impacto. Contudo, a conciliação entre o desejo legítimo de atrair leitores e o rigor exigido à informação constitui um exercício difícil que não deve ser conseguido sacrificando o segundo em função do primeiro.

A emoção provocada pelo anúncio do desvio do avião seria quebrada, ou atenuada, se o título sublinhasse que se tratava de um desvio forçado (controlado) pelas autoridades americanas, afastando, assim, a possibilidade de os leitores serem levados a pensar que ele fora realizado por um pirata do ar, como o título e o antetítulo pareciam querer sugerir.

Não pondo em causa a pertinência de o acontecimento justificar uma segunda edição do jornal, uma vez que, como refere o director, se tratou de uma ?acção suficientemente insólita e grave?, nem o desejo de lhe encontrar um título apelativo, o DN poderia ter, no entanto, conciliado a apresentação do facto ? o desvio do avião ? com a sua explicação. Tal como foi apresentado, e apesar de não ser incorrecto, o título era, todavia, incompleto (à luz das informações relatadas na própria notícia), fazendo mais apelo à emoção do que à explicação.

O verbo ?desviar? significa mudar o rumo ou a posição de algo que se encontra em posição estática ou em movimento, pelo que, em rigor, não existiu uso incorrecto da palavra."

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