Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Estrela Serrano

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Forma e conteúdo", copyright Diário de Notícias, 2/12/02

"Nem sempre é fácil a um leitor identificar o género em que se enquadra um texto surgido no jornal. Parecendo uma questão menor, não o é. De facto, a expectativa do leitor é diferente, perante uma notícia ou um texto de opinião. No primeiro caso, espera ser informado, com rigor, sobre acontecimentos de interesse geral. No segundo, sabe estar perante a expressão da opinião de alguém a quem o jornal concede credibilidade e competência para escrever sobre temas que é suposto interessarem aos leitores. Os jornais de qualidade dedicam páginas próprias aos textos de opinião, ou assinalam-nos através de títulos referenciais ou de um grafismo diferente.

Alguns especialistas estabelecem uma distinção entre duas classes de texto jornalístico: textos narrativos e textos argumentativos. Nos primeiros, caberia o relato da actualidade, nos segundos o comentário e a análise. Contudo, qualquer destes dois géneros tem evoluído para novos subgéneros, fundamentalmente, através do recurso a formas gráficas e artísticas.

Inúmeros factores, entre os quais a evolução do discurso jornalístico para formas mais atractivas e criativas tornam cada vez mais frequente a ?contaminação? dos géneros jornalísticos. Essa contaminação provoca, frequentemente, perplexidades e protestos de leitores, por exemplo, quando, em textos noticiosos, a opinião e a argumentação se sobrepõem ao relato e à interpretação.

Os leitores do DN gostam de comentar os textos de opinião publicados no jornal, apesar de saberem que eles são, apenas, da responsabilidade dos seus autores. Embora a motivação principal desses comentários seja a substância das opiniões expressas, muitos leitores criticam aspectos ?formais?, tais como opiniões não sustentadas, afirmações entendidas como relevando de algum sectarismo, ou, noutro sentido, elogiam a ética, a serenidade e o estilo de determinado autor. Significa isso que os leitores estão conscientes de que também os textos de opinião estão sujeitos a regras que pretendem ver respeitadas, independentemente de concordarem, ou não, com as opiniões expressas. De facto, um texto de opinião não se distingue, apenas, por surgir numa página ou espaço próprios. É preciso que possua outras ?marcas? identificadoras da sua natureza, qualquer que seja o formato em que se apresente _ editorial, comentário, crónica, coluna. Essas ?marcas? decorrem de regras de natureza ética, técnica e estilística.

Em primeiro lugar, um texto de opinião está vinculado aos princípios definidos pelo estatuto editorial do órgão de informação em que se insere. Em segundo lugar, pressupõe a exposição de um argumento e, a partir dele, a formulação de uma opinião. Em terceiro lugar, a argumentação deve possuir uma dimensão ética _ que lhe fixa os limites e impede a manipulação do pensamento a que o uso (e o poder) da linguagem podem conduzir.

Existem diferenças formais entre os diversos formatos do género Opinião. Um comentário distingue-se, por exemplo, de uma crónica, de uma coluna e de um editorial. Os leitores apreendem essas diferenças de uma maneira natural. Existem, contudo, textos cuja natureza algo ambígua confunde os leitores, como aconteceu com Luís Vasco Jorge, perante um texto assinado pela jornalista Elsa Costa e Silva, intitulado Excesso de carros, excesso de zelo?, publicado no DN, em 23 de Setembro passado.

Vejamos porquê: o texto começa com o relato de uma cena passada no dia anterior, numa cidade que aderiu à iniciativa Dia Europeu Sem Carros. Nele se conta o caso de um pai, identificado como ?Paulo S.? (nome supostamente fictício), que tentou levar a filha a um ?local onde se fazem atendimentos?, sendo impedido por um ?agente de autoridade?. A criança ?precisava de cuidados especiais?, mas, devido ao ?excesso de zelo? do agente, a criança teve de ser transportada, a pé, ?ao colo da mãe?. Na segunda parte do texto, a jornalista elogia a iniciativa, mas lamenta ?a distracção? das autoridades de ?fechar a rua de acesso ao serviço de saúde?.

O leitor entendeu o relato como uma ?notícia? e, nessa perspectiva, pretendia saber de que ?local? se tratava, quem era o agente de autoridade, e em que cidade ocorreu o caso. Afirma que ficou ?sem saber o que se passou? e que nesse texto ?nada se diz? e ?tudo se afirma?.

A jornalista responde que ?a peça jornalística em causa era uma crónica (…) publicada no formato adoptado pelo DN?, com a qual pretendeu ?fazer um comentário sobre as iniciativas que envolveram o Dia Europeu Sem Carros?. Atribui a ?confusão do leitor? ao facto de o seu texto ter sido publicado na página Regional, ao passo que a reportagem do Dia Europeu Sem Carros saiu na Ciência e Ambiente.

Trata-se, de facto, de um texto inserido num espaço de opinião, identificado com o título geral Desnortes, ilustrado pela fotografia da jornalista e graficamente separado do espaço noticioso da secção. Não há, nesse aspecto, nenhum equívoco. Contudo, a ambiguidade da sua estrutura _ numa primeira parte apresentando um caso dito real, (acontecido na véspera), mas envolto em mistério relativamente a pessoas e lugares, numa segunda parte, opinativo e doutrinário _ confundiu o leitor.

Trata-se de uma crónica, refere a jornalista. Mas, é difícil ver nela ?o olhar original, a tonalidade que rompe com o estilo habitual dos artigos do jornal, (…) o humor, a emoção, a indignação? (como a define o Livro de Estilo de Le Monde), ou ?o talento literário de observador atento e arguto do quotidiano, capaz de descobrir no detalhe de um rosto (…) a representação da realidade mais complexa, (…)? (segundo a definição proposta por Carlos Chaparro para o género Crónica, no jornalismo brasileiro).

O caso relatado por Elsa Costa e Silva teria justificado uma abordagem num registo noticioso, por se revestir de indiscutível interesse público. A insatisfação do leitor deriva, precisamente, da impossibilidade de conhecer pormenores sobre um caso a que atribuiu significado.

Bloco-notas

Frustração

São muitos os leitores que se dirigem à provedora a propósito da colecção DVD do DN, que, a avaliar pelo número de mensagens recebidas, despertou grande interesse. Entusiasmados, os cinéfilos dispuseram-se a obter a colecção, pensando que estaria acessível a quem comprasse o jornal. Contudo, no dia da distribuição do primeiro filme, o DN informava que a edição de DVD era ?inferior à tiragem do jornal?. A partir daí, numerosos leitores, de norte a sul do País e nas regiões autónomas, ficaram de fora, passando do entusiasmo à frustração. Queixam-se, entre outras coisas, de apesar de terem seguido o conselho do DN de reservar ?o seu exemplar?, não conseguirem obtê-lo, na medida em que os próprios distribuidores não têm quantidades suficientes para atender todos os pedidos. Alguns desses leitores reagem com tristeza. Outros indignam-se por se sentirem defraudados e culpam o DN de não ter acautelado a situação.

Sem resposta

A provedora não possui (nem tem de possuir) respostas para as questões colocadas. Contudo, dado as mensagens que recebe serem reenviadas aos serviços responsáveis, calcula que os leitores serão, ou virão a ser, informados directamente por esses serviços, uma vez que, quer na edição escrita, quer na edição electrónica, não surgiu, ainda, qualquer esclarecimento. Apesar de não competir à provedora pronunciar-se sobre questões que extravasam o conteúdo jornalístico do DN, compete-lhe a defesa dos interesses dos leitores e a crítica regular do jornal. Daí que considere não dever deixar sem referência aspectos que, embora não abrangendo o conteúdo noticioso do jornal, envolvem os leitores de uma maneira sensível. Acresce que os leitores não conseguem obter, por outra via, contacto/resposta do jornal. Esta é, efectivamente, uma questão recorrente para a qual a provedora tem, insistente e infrutiferamente, chamado a atenção.

Duas perspectivas

A Colecção de DVD é, no entender da provedora, uma iniciativa feliz do DN, que não desmerece o perfil de jornal de qualidade, tal como outras, nomeadamente, Ler o DN nas Escolas, do DN Educação. Embora sejam diferentes na substância, não deixa de ser curioso comparar a maneira como os leitores são chamados a colaborar numa e noutra. No primeiro caso, fica a ideia de que os leitores são encarados apenas como consumidores, a quem se promete um DVD com preço acessível na compra do jornal, sendo que apenas parte dos interessados consegue adquiri-lo, não sabendo os outros o que fazer para chegar ao tal exemplar. No segundo caso, os responsáveis do DN Educação dirigem-se diariamente, nas páginas do jornal, aos professores e alunos (a quem a iniciativa se destina), motivando-os a participar e explicando-lhe as ?regras?. São duas perspectivas opostas de encarar a função do jornal e de manifestar o respeito pelos leitores. Os especialistas de marketing sabem que pior que nada fazer, é fazer mal. Frustrar expectativas é sempre contraproducente."

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