Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Estrela Serrano

Por lgarcia em 08/01/2003 na edição 206

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Omissões" copyright Diário de Notícias, 30/12/02

"Dois leitores acusam o DN de ter praticado omissão relativamente a actividades levadas a cabo por duas organizações partidárias, uma das quais com representação parlamentar. Um terceiro leitor reporta-se a outro tipo de omissão, esta relativa às empresas que integram o consórcio Metropaço (encarregue da obra do Metropolitano de Lisboa, no Terreiro do Paço), cujos nomes, segundo afirma, ?os jornalistas do DN nunca identificam?.

Vejamos em pormenor: José Maria Gomes lamenta que o DN não tenha coberto a convenção do Movimento Partido da Terra (MPT) realizada no mês passado, na qual ?um grupo de profissionais, da área económica mais importante dos nossos dias e do nosso futuro? (o ambiente), reuniu ?para definir linhas de actuação e de envolvimento político?.

Por seu turno, Nuno Alves estranha que o DN não tenha noticiado o encontro nacional do PCP sobre a acção e intervenção do partido nas empresas e locais de trabalho, realizado em Novembro, e pergunta à provedora se não acha que ?numa altura em que se discutem as alterações ao código do trabalho (…) não era importante, para o DN, relatar alguma coisa discutida no encontro nacional do quarto maior partido com representação parlamentar?.

Relativamente ao MPT, o director do jornal, Mário Resendes responde que ?a sobreprodução de actualidade face à escassez de espaço disponível, exige, cada vez mais, selectividade?, acrescentando que ?não se pretende excluir ninguém, mas há que fazer escolhas com base em critérios de representatividade social/política?.

Noutro âmbito, o leitor João Santos reflecte sobre as razões que levarão ?os jornalistas do DN, quando se referem ao consórcio Metropaço (…), a nunca identificarem as empresas que o constituem?. Em sua opinião, ?enquanto cidadãos, que com os seus impostos financiam as empreitadas públicas, os leitores do DN têm direito a saber quais as organizações que realmente estão em campo neste consórcio?. Acrescenta João Santos, que quando ?está em causa uma eventual responsabilidade deste consórcio?, parece-lhe ?da máxima importância que se explicite quais as empresas que o integram?. O leitor pergunta se ?não será uma forma de as construtoras/empreiteiros protegerem a sua imagem, ?atirando? para um consórcio (…) o ónus das responsabilidades que elas deveriam assumir, mas que assim se dilui e acaba por nunca as comprometer ou atingir?. João Santos interroga-se sobre ?se assim for, qual deverá ser o papel do jornalismo e dos jornalistas?, considerando que ?importa compreender a que se deve a omissão em causa?, que diz não ser, apenas, do DN. Apesar disso, o leitor não duvida de que este jornal pratica ?um jornalismo sério, responsável e profissional?.

A esta questão o director do DN responde: ?Sou capaz de assegurar que o DN terá esclarecido quais são as empresas que formam o consórcio em causa aquando da sua formação. De resto, esta informação só é relevante quando esse elemento acrescenta alguma coisa à matéria noticiosa em causa, o que, manifestamente, não acontece na maioria das vezes?.

Relativamente aos dois primeiros casos, o critério da ?representatividade social/política? ? que o director invoca relativamente ao MPT ? não pode aplicar-se ao PCP, uma vez que, como refere o leitor, trata-se do ?quarto maior partido com representação parlamentar?.

Acresce que, independentemente da validade desse critério, a selecção dos assuntos a noticiar deve assentar, antes de mais, no seu interesse público, o que significa que não é, ou não deve ser, apenas, o facto de uma organização dispor de maior ou menor representatividade, que justifica a divulgação das suas actividades. É o interesse público que deve orientar a selecção de um acontecimento como susceptível de ser noticiado e não o interesse das fontes (neste caso, dos partidos).

A provedora não dispõe de informação que lhe permita ajuizar sobre a importância das questões tratadas em ambas as reuniões. Contudo, recorda que no caso da reunião do MPT, o canal 2 da RTP debateu o seu conteúdo no Jornal das 9. Quanto ao encontro do PCP, pelo menos o Público e o Jornal de Notícias fizeram uma peça sobre o assunto. É, pois, levada a concluir que o conteúdo dessas reuniões possuia alguma relevância, pelo que seria de esperar que o DN lhes tivesse dedicado alguma atenção.

Sobre o Metropaço, a provedora recorda-se de ter visto, no Expresso (7/11), a menção de que o consórcio é ?liderado pela construtora Teixeira Duarte?. Em seu entender, a importância do empreendimento de que o consórcio é responsável, a polémica a que deu origem e a investigação de que foi alvo justificam, como refere o leitor, a divulgação dos nomes das empresas envolvidas. Mas a provedora acompanha, ainda, a convicção do leitor de que a omissão, no caso do DN, não se deve a participação consciente em qualquer estratégia de preservação da imagem das empresas que incluem o consórcio.

De qualquer modo, as observações do leitor têm o mérito de chamar a atenção para aspectos que, por vezes, escapam aos próprios jornalistas, cada vez mais ?cercados? por fontes organizadas e com capacidade para gerir, com êxito, os seus próprios interesses.

O que, não deixando de ser legítimo, pressupõe um jornalismo mais atento.

Há aspectos que escapam aos jornalistas, cada vez mais ?cercados? por fontes organizadas e com capacidade para gerir com êxito os próprios interesses. O que, não deixando de ser legítimo, pressupõe um jornalismo mais atento

Bloco-notas

Estudos

Existem numerosos trabalhos académicos sobre o conceito de ?valor-notícia?, terminologia utilizada para significar as características que um acontecimento ?deve? possuir para se transformar em notícia.

Estudo 1

Num estudo já clássico, realizado em 1965, Johan Galtung e Mari Ruge identificaram, pela primeira vez de uma forma sistemática e exaustiva, os critérios de noticiabilidade, isto é, os factores que influenciam a passagem de um acontecimento a notícia.

Centrado no noticiário internacional, o trabalho identifica, entre outros, factores culturais. Assim, as pessoas e as nações ?de elite? têm mais probabilidades de se tornar notícia; quanto mais ?personalizado? for um acontecimento mais provável será, também, a sua transformação em notícia; quanto mais negativo for o acontecimento nas suas consequências, maiores são, também, as suas possibilidades de se transformar em notícia.

Estudo 2

Anos depois, em 1979, Herbert Ganz, num estudo baseado na ?observação participante? realizada em dois magazines e dois canais de televisão americanos, confirmou alguns dos indicadores de Galtung e Ruge.

Assim, no que respeita às notícias nacionais (norte-americanas), Ganz aponta a importância atribuída aos actores e às actividades relacionadas com o Governo ? quanto mais alta for a hierarquia da pessoa envolvida, maior importância é atribuída às suas actividades.

Em segundo lugar, o interesse nacional, isto é, os acontecimentos susceptíveis de causar maior impacte no país têm mais probabilidades de serem noticiados (para resolverem a complexidade do ?interesse nacional?, os jornalistas encontram ?respostas simplificadas?).

Em terceiro lugar, uma notícia é tanto mais importante quanto maior número de pessoas afectar (na falta de dados sobre o impacte de um acontecimento, os jornalistas fazem ?julgamentos impressionistas?).

Em quarto lugar, o significado histórico de um acontecimento relacionado com o passado, ou com implicações previsíveis no futuro da nação constitui, também, um critério de noticiabilidade.

Exercício

Fazendo um exercício teórico de aplicação dos indicadores sistematizados pelos investigadores atrás citados, aos casos referidos na coluna de hoje, verifica-se que os critérios do DN não andaram longe dos apurados pelos dois investigadores. Assim, nas duas actividades (não noticiadas pelo jornal) não havia ?actores? pertencentes a ?elites? ? isto é, tratou-se de reuniões sem a presença de personalidades.

O impacte nacional que essas reuniões produziram terá sido avaliado pelo jornal como fraco, ou inexistente, e o número de pessoas abrangidas, ou afectadas, considerado irrelevante.

Também não terão sido encontradas eventuais implicações no passado, ou no futuro, do País.

Finalmente, a avaliação feita não terá apontado para consequências negativas."

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