Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > Bloco-notas

Estrela Serrano

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Paixões", copyright Diário de Notícias, 10/2/03

"No dia 1 de Dezembro passado, o DN publicou um dossier sobre Portugal e Espanha, que incluía vários artigos sobre temas como a economia, a diplomacia, a cultura, o desporto, a ?união ibérica? e uma sondagem cujo resultado mais relevante era o facto de a maioria dos inquiridos prever o ?domínio espanhol na economia nacional?. Nenhum desses artigos provocou qualquer reparo de leitores, à excepção de um deles, da autoria do jornalista Fernando Pires, intitulado Para ir aos touros e à ópera, que levou Vasco Reis e José Rey a reagirem negativamente.

No citado artigo, o jornalista afirma que ?milhares de portugueses vão propositadamente a Espanha para assistir a corridas de touros, não a uma caricatura como a de Barrancos, mas a corridas sérias de morte dos touros?, onde existe ?verdadeiro perigo, tantas vezes mortal?, que exige ?uma coragem por vezes desmedida (…) a que (…) se associam uma presença, um estilo, uma arte que deixam lembranças, as mais delas imperecíveis?.

O jornalista evoca a ?suavidade com que se maneja e bordam desenhos com o capote?, a ?harmonia dos movimentos e a destreza para bandarilhar?, a ?quietude da muleta feita feitiço?, a ?certeira precisão da sorte suprema ? a da morte do touro?, afirmando que ?é para viver estas emoções que milhares de portugueses vão propositadamente a Espanha?.

Mais à frente, noutro registo, Fernando Pires reconhece que ?poderá julgar-se vir a despropósito, mas há outro espectáculo que leva a Espanha dezenas de patrícios, que é a ópera?, acrescentando que isso se deve, por um lado, ao facto de haver ?entre os apreciadores de ópera quem muito aprecie as corridas de touros? e, por outro, ?por algumas produções de excelência e grandes cantores?.

Vasco Reis ficou ?indignado e decepcionado?.

Em sua opinião, ?o artigo terá sido elaborado ao gosto e aos interesses de aficionados e comerciantes da tortura de animais, neste caso touros, que é o que, inegável e irrefutavelmente, se pratica na tauromaquia?.

Cita a Declaração da Unesco, de 1980: ?A tauromaquia é a terrível e venal arte de torturar e matar animais em público, segundo determinadas regras. Traumatiza as crianças e adultos sensíveis. A tourada agrava o estado dos neuróticos atraídos por estes espectáculos. Desnaturaliza a relação entre o homem e o animal, afronta a moral, a educação, a ciência e a cultura.?

Por seu turno, José António Rey afirma que é ?uma vergonha? e ?um absurdo? ?comparar uma ópera a uma tourada?. Considerando que a comparação se justificaria se ?na ópera se assassinassem as pessoas?, pergunta se ?o jornalista tem ideia do sofrimento do animal?.

Em resposta, o jornalista afirma que ?os sentimentos dos leitores e a declaração da Unesco? ? que respeita ? ?não impedem, nem as corridas de touros, nem que a elas se assista?. Afirma, também, que se limitou a dar conta do facto de ?milhares de portugueses? irem a Espanha ?para assistir a corridas de touros de morte e a descrever o que, nesses espectáculos, os entusiasma e emociona?.

Vejamos: o artigo de Fernando Pires está escrito num registo de crónica, à semelhança de outros incluídos nas oito páginas que constituem o dossier. A sua identificação, como um texto de opinião, resulta, porém, da sua leitura e não de qualquer marca formal indicadora dessa qualidade. A par de um registo informativo ? com dados concretos sobre alguns portugueses que se distinguem em Espanha, na tourada e na ópera ? o texto possui um estilo literário, quase poético, impregnado de emoções que o seu autor atribui aos portugueses que vão à tourada.

Trata-se, obviamente, da expressão da sua visão pessoal sobre os touros de morte, natural numa crónica (o género jornalístico que mais se aproxima da literatura) mas não num texto noticioso ? que, aliás, não pretende ser ? onde, por definição, se encontrariam elementos susceptíveis de fundamentar as opiniões expressas e onde as emoções surgiriam pelas vozes dos tais portugueses que vão à tourada e à ópera.

O texto do jornalista não estabelece comparações entre a tourada e a ópera, referindo apenas que ambos atraem os portugueses que se deslocam a Espanha. Tão-pouco existe nele o elogio da violência, enquanto tal. Mas é certo que perpassa nele um sentimento de admiração pela arte do toureio, que abrange, aliás, o homem e o touro. Ora, foi, talvez, a capacidade do cronista de, através da escrita, recriar esteticamente a tourada, transformando-a em ?obra de arte? que chocou os leitores. O caso é paradigmático de um olhar apaixonado sobre a tourada, quer do cronista, quer dos dois leitores. A morte dos touros não é um tema pacífico.

Neste caso, o ?tom? poético que o cronista lhe emprestou tornou mais visível a dicotomia entre quem o vê como uma arte e quem o acusa de barbárie ou, como diz o leitor, como uma ?terrível e venal arte?.

Não sendo fácil encontrar respostas racionais para um tema onde intervêm, tão fortemente, as emoções e as paixões, resta à provedora dar voz a quem se indignou com as palavras do cronista.

Bloco-notas

Outras paixões ? Após a publicação da coluna Obrigados a saber (20/1), em que era analisada uma queixa de um leitor sobre uma notícia de desporto, a provedora recebeu muitas mensagens de adeptos de futebol ? não sobre o tema nela focado, nem especificamente sobre qualquer caso concreto relacionado com o DN ? mas sobre toda a comunicação social. São, em geral, mensagens electrónicas, cujo teor, tom e linguagem causam perplexidade.

A maioria não é, sequer, publicável, mas uma análise do seu conteúdo forneceria importantes contributos para uma sociologia do desporto, nomeadamente, do futebol. Algumas dessas mensagens traduzem paixões e emoções exaltadas, que se manifestam em palavras de grande agressividade contra jornalistas e agentes do futebol. Ora, a reacção natural e compreensível dos jornalistas, perante tais manifestações, é o silêncio.

Cordialidade e respeito ? A provedora não deve, contudo, ignorar que essas reacções existem, sobretudo porque ao longo do tempo que leva de funções tem, repetidas vezes, reprovado algumas respostas e reacções dos jornalistas face a reparos de leitores, por lhe parecer que as relações entre as partes que intervêm no processo informativo devem pautar-se pela cordialidade e pelo respeito mútuo.

Ora, se é certo que, algumas vezes, perante críticas de leitores os jornalistas reagem com a ?arma? da ?última palavra? ? que lhes advém do facto de deterem o poder de publicação ? também certo tipo de reacções de leitores, sobretudo quando são expressas em abstracto e abrangendo jornais, rádios e televisões no seu conjunto, se afiguram inaceitáveis.

De facto, o desporto em geral, e o futebol em particular, merecem dos seus adeptos uma abordagem menos temperamental e mais serena. Mas existem, também, leitores, adeptos de futebol, que fazem reparos mais construtivos.

Vejamos alguns:

Maltratam o futebol

Cristina Arsénio:

?É triste que alguns dirigentes desportivos e alguns treinadores não sejam suficientemente lúcidos para verem como maltratam o futebol, com declarações que geram ódio. Depois dizem que são as massas associativas. Não sabem o poder que detêm junto dos seus sócios? Era bom que esses “sujeitos” fossem penalizados, quer monetariamente quer desportivamente cada vez que abusam da sua linguagem.?

Péssimo estado

João Aleluia: ?O futebol português está um lixo e (…) uma das razões para isso é o péssimo estado em que se encontra toda a comunicação social (…) especialmente a desportiva.?

Mal-estar

João Inácio num ?protesto contra a comunicação social?: ?Contribui para o mal-estar no futebol; manipula notícias (…) não é isenta, imparcial, justa e criteriosa nas análises e não pratica, nem promove, um jornalismo de investigação. Há muitos portugueses descontentes por este país, que deixaram de comprar jornais, ver TV e ouvir rádio.?"

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