Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > Bloco-notas

Estrela Serrano

Por lgarcia em 26/02/2003 na edição 213

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"O lugar da catarse", copyright Diário de Notícias, 17/2/03

"País viveu nas últimas semanas imerso num turbilhão noticioso devido ao ?escândalo Casa Pia?, que fez esgotar jornais e subir audiências televisivas. O espaço público mediatizado encheu-se de novos ?actores?.

Advogados, ex-alunos da Casa Pia, familiares e amigos das pessoas detidas tiveram nos media um palco de eleição.

Figuras ligadas à justiça _ campo até agora refractário à discussão pública dos ?seus? temas _ aceitaram debater, na televisão, princípios e fundamentos do acto de julgar, submetendo-se às regras do ?jogo? mediático. Os media foram, pois, nesses dias, o lugar da catarse nacional.

A detenção de uma figura que mobilizou, durante anos, o afecto e admiração dos portugueses colocou os jornalistas _ como muitos outros cidadãos _ perante a dificuldade de compreender como é que um dos ícones da televisão portuguesa pode ser acusado de violência sexual contra o bem mais caro a uma sociedade _ as suas crianças. Essa contradição baralhou os papéis e os dados de análise. Excitados com o caudal e a natureza das revelações, inebriados pela subida das audiências, muitos jornalistas esqueceram que jornalismo é selecção, investigação, enquadramento e que nem tudo o que pode ser publicado, deve sê-lo.

Tal como noutros momentos de intensa dramatização mediática, as primeiras críticas, porventura as mais duras, vieram do próprio meio jornalístico. Ficou a saber-se, pela voz da jornalista que primeiro divulgou o escândalo, que existiram notícias com fontes inventadas, que agentes policiais forneceram informações falsas e que houve ciladas armadas aos jornalistas (SIC, 9/2).

Ouviram-se, também, argumentos desculpabilizantes de erros cometidos e comparações entre a ínfima ?margem de erro? dos jornalistas e as omissões e erros praticados pela Justiça desde os anos em que nasceu e cresceu ?o caso casa Pia?. Aqui mesmo, no DN, surgiram editoriais em que se bramava contra tentativas de ?culpabilizar os jornalistas? pela forma como estavam a tratar uma matéria delicada (3/2), a par de outros em que se reconhecia que os jornalistas ?são, muitas vezes, utilizados por protagonistas que se especializaram em manipular, a partir de bastidores, a agenda mediática? (8/2).

Contudo, foi a notícia de capa do passado dia 4 Imagens incriminam Carlos Cruz que provocou as maiores reacções. Filipe Pimenta refere-se a essa notícia como ?baixo jornalismo (_) sem fontes?.

Afirma que nunca pensou ?ver o DN em guerras de informação onde vale tudo, ao melhor estilo dos jornais ditos sensacionalistas?. Manuel Moreira vai no mesmo sentido, afirmando que ?advogados, fontes policiais e fontes ligadas ao processo desmentiram oficialmente? essa notícia. Carlos Ávila confessa-se ?profundamente chocado? e acha que o jornal só deveria publicar ?coisas que tivessem ?realmente? substância verídica?.

O director do DN afirma, contudo, que na cobertura deste caso, ?houve sempre a preocupação de só avançar com informações provenientes de fontes credíveis e mesmo assim procurando sempre que possível fazer uma dupla ou tripla confirmação ou então divulgar factos que eram já do domínio público?. No que se refere aos acontecimentos mais recentes, o director afirma que ?apenas numa circunstância o DN errou. Trata-se da notícia que dava o embaixador Jorge Ritto como estando alojado na residência do actual embaixador de Portugal em Moscovo, Nunes Barata?, tendo publicado ?a carta do visado acompanhada de respectivo pedido de desculpas?. Sobre o comunicado da Procuradoria-Geral da República (PGR) afirma que ?apelava à serenidade por parte dos meios de comunicação social, mas não desmentia em concreto nenhuma informação publicada?.

Vejamos: o comunicado da PGR não desmente, de facto, nenhuma notícia em concreto do DN ou de outro media. Contudo, o facto de ter saído no próprio dia em que o DN afirmava que existem vídeos e fotografias que incriminam Carlos Cruz, e a afirmação da PGR de que há ?falta de fundamento de muito do que vem a lume na comunicação social?, permite estabelecer uma relação entre a notícia e o comunicado, tanto mais que, noutros media, ?fonte autorizada? da PJ negou a existência de imagens incriminatórias do apresentador.

Afirma, também, o director do DN que o jornal ?tem todos os motivos para manter a confiança nas fontes que tem utilizado?.

Infelizmente, o mesmo não poderão dizer os portugueses, face à profusão de informações contraditórias (em quase todos os media), oriundas, quase sempre, de fontes não identificadas. Não seria, aliás, a primeira vez, que são lançados, na imprensa, ?balões de ensaio? com objectivos inconfessados.

Os leitores só podem, contudo, regozijar-se por a notícia do DN não ter sido desmentida, porque seria lamentável que o jornal tivesse publicado uma informação de tão graves consequências sem verificar exaustivamente a credibilidade da sua fonte ou, caso tivesse sido induzido em erro, não o tivesse publicamente reconhecido e rectificado, identificando quem o levara a pôr em causa a confiança dos leitores.

Bloco-notas

Sobre assinaturas ? Houve leitores (e mesmo um analista de um canal de televisão que, a seguir, rectificou) que estranharam o facto de as notícias do DN, acima referidas, não serem assinadas. Contudo, embora algumas peças sobre o caso não surjam individualmente assinadas, o DN publicou uma ?assinatura? conjunta dos jornalistas que, nesses dias, trataram o tema. Trata-se, em princípio, de uma decisão destinada a proteger o autor de alguma peça mais sensível, sobretudo quando são usadas fontes não identificadas. Nestes casos, os jornalistas cujos nomes são mencionados ficam, perante os leitores, conjuntamente responsáveis pelo que é publicado, porque nenhum jornalista é obrigado a assinar, mesmo em conjunto, uma peça cuja veracidade não viu confirmada. Sem prejuízo da responsabilidade que sempre cabe à direcção.

Outros campos ? Há, também, leitores que louvam o debate em torno da justiça, afirmando que se ?viveram acontecimentos inéditos?.

António Lopes salienta o facto de ?questões até há pouco intocáveis, como o segredo de justiça e a prisão preventiva, terem sido postas em causa em debates televisivos, enquanto duas emblemáticas instituições ?decretavam o black-out informativo total??. Este leitor salienta que não é despiciendo que ?uma reputada magistrada reconheça publicamente o papel central dos media, em especial da televisão, na denúncia de casos como a pedofilia?, e afirme que ?os cidadãos possuem uma relação mais familiar com a televisão do que com os tribunais que estão distantes e que essa é uma situação que importa rever?.

Contra-informação ? Opinião diferente manifesta Luísa Dias, que reprova ?a mediatização excessiva da Justiça que este caso provocou? e considera que ?magistrados, jornalistas e agentes da Judiciária ultrapassaram a reserva e a discrição que um caso com estas dimensões exige?. Condena, também, as ?manobras de contra-informação? que a levam a ?não acreditar em nada nem em ninguém que escreve nos jornais?.

Ideia perigosa ? Por seu turno, Luís Seabra assinala, como prova de ?vitalidade da democracia?, que o poder político que, ?nesses anos negros, governou o País? (_) seja questionado e pressionado a explicar-se?. Considera, contudo, que a discussão da regulação dos media e dos limites da liberdade de imprensa, deixou no ar ?a ideia, perigosa, de que a alternativa pode ser mais leis e menos liberdade??. Lamenta, contudo, que o tema da pedofilia esteja ?a desviar os portugueses de outros problemas não menos importantes?.

Combater a hipocrisia ? Francisco Graça afirma que, ?apesar de muita da imoralidade que agora se vê estar apenas escondida e os media estarem a trazê-la a público?, não tem dúvidas de que ?estamos perante uma sociedade que piora em muitos aspectos?. Para ?combater a hipocrisia?, o leitor aponta ?o amor altruísta, a verdade, a honestidade?, afirmando que ?os jornais têm nisso um enorme papel?."

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