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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > Bloco-notas

Estrela Serrano

Por lgarcia em 22/07/2003 na edição 234

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Afirmar e demonstrar", copyright Diário de Notícias, 20/7/03

"A União dos Editores Portugueses (UEP) protestou contra a manchete do DN, de 8 de Junho ? Manuais escolares sobem 15 a 20%. Pergunta a UEP: ?Afinal em que ficamos: sobem 15, ou (…) 20, ou 16 (…), ou 19,5%, ou outro número qualquer?? e acrescenta que ?a definição do preço dos livros não se move por estados de humor ou de espírito, mas antes pela relação entre o preço actual e o preço passado, que (…) tem que ser traduzido num número (num só número) e nunca num intervalo de variação, seja ele qual for?.
Diz a UEP que ?a adenda à Convenção de Preços entre a APEL e o Estado?, mencionada pelo DN, ?fixa o preço máximo dos livros para o 1?. ano de escolaridade em 6,3 euros (para 3 disciplinas) e 5,8 euros? (para uma), ?que são os mesmos que os editores escolares associados da UEP irão praticar no próximo ano lectivo?.

Por outro lado, a UEP afirma que também constam da notícia factos extraídos de um estudo da Direcção-Geral do Comércio e Concorrência (DGCC) que ?não deixam ninguém mentir?. Nesse estudo, ?foi apurado, quanto aos preços do conjunto dos manuais relativamente ao ano em curso, que o preço médio dos manuais do 1.? ano era de 22,8 euros?. ?Feitas as contas? aos valores dos manuais para o próximo ano lectivo, a UEP conclui que ?a quantia a pagar pelas famílias traduz um aumento de 11,4 % (?) bem longe dos 15 a 20% noticiados pelo DN?. Segundo a UEP, ?na própria notícia a jornalista consegue desdizer-se quanto ao material que recolheu?.

A UEP afirma, ainda, que este é o terceiro trabalho jornalístico do DN ?com direito a título de primeira página desde que os manuais escolares entraram em fase de adopção nas escolas (…), o primeiro sobre a actividade de divulgação dos manuais escolares, o segundo sobre erros detectados num livro do 4.? ano de escolaridade, que de novo nada tinha?. Em sua opinião, ?tais trabalhos configuram um carácter sensacionalista?, sendo que a notícia do dia 8 ?tem mais de mentira do que de sensacionalismo?.

A autora da notícia, jornalista Elsa Costa e Silva, responde que ?o que o DN escreve é que a generalidade dos livros (e não a sua média) vai aumentar entre 15 a 20%?. Segundo a jornalista, ?analisando os dados da DGCC, vemos que a maioria dos livros se situa perto dos 5,50 euros?, pelo que ?entre esse valor e 6,30 o aumento é de cerca de 15%?. A jornalista remete para a sua notícia de 9/6, no DN, onde refere que ?o próprio ministério admite que o aumento, em relação aos cinco manuais mais adoptados em 2002, é de 14%?. Segundo os seus cálculos, assumindo que todos os livros terão o valor de 6,30 euros (e não os 5,50 da maioria dos livros adoptados em 2002) ?o patamar mínimo que os pais poderão pagar vai crescer 20% face a 2002?. Reconhece, contudo, que ?quanto ao aumento médio (que contabiliza todos os manuais) (…) é efectivamente de 11,4%?. Acrescenta que ?o que o DN faz é tentar mostrar que realidades se escondem por detrás de uma média?.

Os leitores estarão certamente confundidos com a exuberância de números e percentagens apresentados por ambas as partes. Mas o que é mais grave é que poderão não ter chegado a nenhuma conclusão sobre qual é, afinal, o aumento dos manuais escolares do 1.? ano de escolaridade no próximo ano lectivo. Porque era esse o tema da manchete do DN do dia 8 de Junho ? Manuais escolares sobem 15 a 20%, cujo antetítulo ? ?Primeiro ano de escolaridade? ? não deixava dúvidas de que era aos manuais do 1.? ano que a manchete se referia. Trata-se, pois, de saber se no desenvolvimento da notícia fica provado que o preço vai aumentar ?15 a 20%?, como referia o título.

Uma primeira conclusão impõe-se desde logo: invocando os mesmos dados (da DGCC), a UEP, a jornalista e o ministério chegam a conclusões diferentes: a primeira diz que o aumento se situa em 11,4%, a jornalista mantém os 15 a 20% e o ministério considera que ?dificilmente poderão existir acréscimos médios superiores a 14%? (conforme notícia do dia seguinte ? 9/6).

Vejamos, contudo, o essencial da questão: o preço dos manuais escolares é um assunto de indiscutível interesse público, abrangendo grande número de cidadãos, não apenas pais de crianças em idade escolar mas também professores, editores, autores, enfim, trata-se de um tema que cruza ?faixas? diversas da sociedade. O DN assim o entendeu também, ao puxar para manchete o trabalho da sua jornalista. Os primeiros destinatários da notícia ? os pais das crianças que vão entrar no 1.? ano ? reagiram ao aumento de 15 a 20% anunciado na manchete do dia 8 com ?grande preocupação? (como refere a própria notícia). Contudo, os dados mencionados na notícia não são suficientes para extrair a conclusão expressa na manchete.

Por outro lado, a intenção declarada pela jornalista de ?tentar mostrar que realidades se escondem por detrás de uma média? necessitaria de uma exposição mais clara e de uma interpretação menos sofisticada dos dados que disponibiliza aos leitores.

Pode ser que o aumento dos manuais seja o que o DN anuncia. Porém, a sua notícia não o prova. Ora, os leitores esperam, pelo menos, que os títulos não afirmem o que não é demonstrado no texto.

Bloco-notas

Tem a palavra o leitor

A secção ?Meu caro DN? é uma das que mais prendem a atenção dos leitores que gostam de interagir com o jornal. Muitos dos que escrevem não ficam, todavia, totalmente satisfeitos com os excertos escolhidos pelo DN para publicação, embora as regras sejam anunciadas diariamente na respectiva página e não seja possível publicar todas as cartas com a brevidade que os leitores desejam. Contudo, deve assinalar-se que o DN faz um esforço para que a publicação seja o mais rápida possível. Vejamos um caso de um leitor que ficou descontente.

Mudança do título

O leitor José Noribal Cota Vieira enviou à provedora o texto integral da carta que dirigiu ao ?Meu caro DN?, sobre a transmissão directa da conferência de imprensa de Fátima Felgueiras ?nos três principais canais de televisão?, a qual foi publicada quase na íntegra, na referida secção, no passado dia 17. Contudo, o DN atribuiu-lhe o título ?A corrida da TV às audiências por Felgueiras?, em vez do título ?O crime compensa? que o leitor lhe dera. O último parágrafo foi igualmente omitido. O leitor afirma que não consegue ?descortinar os motivos que terão levado à mudança do título? (que ficou incompreensível), perguntando se foram ?razões de espaço ou de clareza?.

O leitor condena

Eis o parágrafo não publicado que o leitor considera importante para se compreender o seu pensamento: ?Será que a moda vai pegar e que todo e qualquer cidadão que tenha um problema com a justiça e consiga sair do País vai ter a mesma cobertura mediática que teve a senhora ex-presidente? Condeno o procedimento da foragida à justiça que pretende o estatuto de refugiada política. Mas condeno muito mais o procedimento de caça às audiências a todo o custo, desempenhado pelos três canais de televisão, procedimento levado a um extremo perverso e doentio por parte do canal 1 da RTP?.

Dia da Criança

Mário Serra Pereira, ?leitor diário do DN? escreveu à provedora a propósito do suplemento ?Terra do Nunca? publicado aos domingos na revista Notícias Magazine. O leitor estranhou a mensagem que o n.? 327 desse suplemento fez passar para as crianças, ao escrever: ?Esquece os TPC (trabalhos para casa) porque hoje é Dia da Criança.? Diz o leitor: ?Como pai e educador não posso deixar de sentir que esta mensagem está profundamente errada? pelas seguintes razões: 1) Não é por ser Dia da Criança que se devem esquecer os deveres; 2) Sendo o suplemento publicado ao domingo, se a criança deixou os deveres para esse dia poderá revelar já algum menosprezo pelos ditos deveres. O leitor acrescenta que com alguma criatividade haveria muitas ?frases? que poderiam ter sido escolhidas.

Considera ?irónico? que, por um lado ?se veicule este tipo de mensagens? e, por outro, ?os jornalistas constatem o insucesso escolar e o abandono precoce da escola?."

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