Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > Bloco-Notas

Estrela Serrano

Por lgarcia em 07/10/2003 na edição 245

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"O DN, o juiz e o Super-Homem", copyright Diário de Notícias, 5/10/03

"O DN surpreendeu os seus leitores no passado dia 30 com uma manchete que mostrava o rosto do juiz de instrução do processo Casa Pia, Rui Teixeira, ?trajado? de Super-Homem. Nessa manchete, o juiz ?voava? ao lado de um título em letras gordas que dizia: Super juiz. Um pouco abaixo, o DN afirmava que o ?Supremo mantém Rui Teixeira no processo? e, logo a seguir, que a ?decisão sobre o recurso apresentado pelos advogados de defesa de seis dos arguidos deve ser rápida?. A enquadrar o conjunto surgia a referência Rede de pedofilia da Casa Pia.

A um primeiro olhar, a imagem do juiz ?travestido? de Super-Homem mais parecia a promoção de um filme, enquanto o título Super juiz fazia lembrar as manchetes dos jornais desportivos no dia seguinte à vitória de um clube nacional numa importante competição, mas o ?vitorioso?, em vez de ser um jogador (ou um clube), era o juiz Rui Teixeira.

Vejamos: o título Super juiz e a sua representação gráfica não possuíam relação com os subtítulos nem com a notícia sobre o juiz. Título e ilustração colocam, além disso, algumas questões no plano ético, na medida em que os textos e as imagens destinadas a publicação devem ser controlados quanto à verdade do seu conteúdo, não devendo o seu sentido ser desviado nem falseado. Não se tratava, neste caso, de uma fotografia simbólica a ilustrar o assunto noticiado ou de uma imagem documental ? que estaria identificada como tal ? nem a ilustração surgia num espaço de humor. Tratava-se do ?rosto? do jornal, o lugar onde se anuncia o essencial da informação de cada dia.

Por outro lado, é no título que o acontecimento se expõe primeiro à compreensão dos leitores e é através dele que o jornal mostra o valor que atribui a uma informação. Acresce que o título Super juiz dificilmente se adequa a um jornal de referência ? categoria de que o DN se reclama. Vejamos porquê.

Não se trata de um título ?referencial?, isto é, de um título usado para designar uma rubrica ou um tema, servindo de referência a um número variado de artigos, como é o caso, por exemplo, de títulos como Processo Casa Pia ou Guerra no Iraque, que se repetem de edição para edição enquanto durar o assunto. São títulos indicativos, que não contêm qualquer informação concreta, surgindo quase sempre ao alto da página, em letras pequenas. O título Super juiz não se inclui nesta categoria.

Não estamos, por outro lado, perante um título ?informacional?, uma vez que não há nele nenhuma informação. Atentando nas frases que o acompanham, verifica-se, até, que existe contradição entre a afirmação de que o Supremo ?mantém o juiz no processo? e a de que a decisão ?vai ser rápida? (o que significa que ainda não existe). Verifica-se, aliás, reincidência do DN numa falta semelhante à praticada na edição do passado dia 10, também num título de capa sobre o juiz Rui Teixeira, que dizia Juiz fica e sobre o qual o director do DN reconheceu, na altura, que ?talvez (…) pudesse ter sido elaborado com maior prudência?.

O título Super juiz não é, por outro lado, um título ?explicativo?, porque não esclarece o que é um ?super juiz?, nem as razões pelas quais Rui Teixeira é assim chamado. Presume-se que expresse uma opinião do DN ? da sua Direcção ? embora não seja habitual os títulos de capa reflectirem as opiniões do jornal, dado essas terem lugar no editorial.

Não se está, também, perante um título ?declarativo?, como seria o caso se o DN estivesse a reproduzir a opinião de alguém a quem fosse atribuída a expressão ?super juiz?, cuja relevância pública justificasse a citação.

O título Super juiz deverá, então, ser enquadrado no tipo de títulos explorados pelos jornais populares e tablóides. São títulos que jogam com a sensação e o espectáculo, construídos à base de trocadilhos, cuja função essencial é a procura de efeitos lúdicos ou chocantes.

Esses títulos não pretendem informar, mas surpreender. Muitas vezes, estão comprometidos com causas relativas a pessoas, grupos ou acontecimentos. São geralmente ambíguos, provocando no leitor uma confusão deliberada.

O título Super juiz inscreve-se nesta categoria. Funciona como uma avaliação, por parte do jornal, da pessoa do juiz. Alguns verão nele um elogio. Outros, considerá-lo-ão irónico ou depreciativo. A sua ambiguidade é geradora de todos os equívocos.

Importa dizer que um jornal não está impedido de tomar posição relativamente a pessoas ou instituições, cujas funções, por serem de natureza pública, o justifiquem. É, aliás, normal e desejável que o faça, mas no local próprio ? o editorial ou outros espaços de opinião. Já se afigura, contudo, reprovável que num processo em fase de instrução e de contornos tão sensíveis e polémicos como o da Casa Pia, o DN recorra a formulações equívocas para se referir ao responsável pela instrução desse processo.

Seria lamentável que apesar de pertencer a jornalistas o mérito de terem tornado público o escândalo Casa Pia, a sua cobertura jornalística viesse a transformar-se num capítulo negro na história do jornalismo português.

Bloco-Notas

Mensagens ? Todos os dias chegam à provedora pequenas notas contendo reparos ou sugestões de natureza prática para solução de problemas que os leitores detectam, muitos deles não relacionados com o conteúdo noticioso do jornal. Alguns têm sido resolvidos pelo jornal, por exemplo, os relativos aos ?brindes? (DVD, enciclopédias, etc.). Diminuíram, por isso, as queixas sobre essa matéria. Mas existem outras. Eis algumas.

Cinema ? José Carlos Abrantes: ?Numa notícia datada de 24/9, o DN (a partir da Folha de São Paulo) dava a conhecer que a família de Vinicius de Moraes teria disponibilizado a obra daquele artista e poeta para consulta na Internet, cedendo os direitos de autor. Uma boa iniciativa para os cinéfilos, pois podem agora ler as críticas de cinema de Vinicius. E como as imagens (sobretudo as de cinema) se ligam à música e a música (e o cinema) à poesia, eis um site interessante para consulta, para passar das imagens às palavras e destas aos sons? ou pela ordem que o cibernauta melhor entender? Infelizmente a notícia do DN não se refere ao site. Felizmente uma pesquisa avançada no Google dá sempre resultados seguros. Mas este jornalista (não identificado) que fez a peça não saberá que esta é uma informação necessária para o leitor de hoje que também pode ser utilizador da web??

?Dossier Blair? ? João da Costa: ?Acabo de ler a nota Blair sob nova avalanche, na qual se refere a existência de um site onde estaria toda a informação sobre o dossier deste caso. Não é, contudo, fornecida a sua identificação. Sugeriria que nestes casos, fosse indicado o respectivo endereço.?

Comentários ? Luís Oliveira: ?Creio que seria interessante que o DN, à semelhança do que acontece com outros jornais, tivesse um espaço para inserção de comentários dos leitores junto das crónicas e notícias que publica na net. Seria agradável e estimulante para quem escreve ver as opiniões publicadas na hora.?

Dicas ? Francisco Peneda: ?Já tenho escrito algumas dicas e sugestões para o jornal, sem nunca ter alguma resposta! (…) Para além de variadíssimas vezes as notícias terem os títulos e fotos desadequados, desactualizados e até trocados, qual não é o meu espanto quando abro o vosso site e reparo que é do jornal do dia anterior.?

Navegando no DN ? Andressa Alves: ?Estava eu navegando pelo site do Diário de Noticias da Madeira e achei ali interessante que eles tenham disponibilizado a história do jornal na sua página. O mesmo não acontece com o DN de Lisboa. Por que razão??

?DN Emprego? ? Rita Diogo: ?Acabei de ler o artigo publicado hoje (27/9) no Caderno DN Emprego sobre o ISQ ? Instituto de Soldadura e Qualidade (…) e constato com surpresa que, no último parágrafo em que descrevem a instituição, em vez de colocar ISQ, colocaram ICQ. Como é que isto pode acontecer num pequeno texto??"

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