Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > Bloco-Notas

Estrela Serrano

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"O escrutínio dos media", copyright Diário de Notícias, 12/10/03

"A sucessão vertiginosa de acontecimentos ocorridos na última semana, nomeadamente a crise governamental e a libertação do deputado Paulo Pedroso, tornam pertinente uma reflexão sobre a centralidade dos media nas sociedades contemporâneas.

O leitor Barata Lima, numa mensagem enviada no início da crise governamental, sugeria ?uma redobrada atenção (…) para que a degradação havida no tratamento da pedofilia? não se repetisse neste caso. Essa chamada de atenção viria a revelar-se pertinente.

Vejamos: após a dramática demiss&atildatilde;o dos dois ministros, a actividade governativa voltou, aparentemente, à normalidade. Os media cumpriram o seu papel de ?vigilantes? do funcionamento da democracia, afirmando-se como actores essenciais do processo político. Os jornalistas da SIC que divulgaram o caso recuperaram a mitologia de um jornalismo ?à descoberta da verdade?, na velha tradição do Watergate (salvaguardadas, naturalmente, as devidas proporções).

Mas os acontecimentos que levaram à demissão dos ministros vieram chamar a atenção para uma situação recorrente em momentos de crise, que é a dificuldade dos governantes e dos políticos em geral lidarem com o escrutínio dos media. A crise mostra, também, como já sucedera no processo Casa Pia, o poder do jornalismo. Trata-se de dois casos paradigmáticos de como os jornalistas deixaram de apenas ?reportar? os acontecimentos, para passarem a ?formatá-los?. Essa mudança não é de hoje, embora se torne mais visível em momentos como o actual.

A crise governamental e a libertação do deputado mostram, por outro lado, que o processo mediático é marcado por ciclos ou ?ondas? caracterizados por uma focalização intensa em determinados assuntos, durante um período limitado. O início desses ciclos é assinalado por um aumento dramático da cobertura jornalística, seguida de reacções de políticos, de comentadores e da generalização da discussão no seio do público. Depois de atingir um certo ?pico?, a ?onda? morre por si mesma ou é substituída por outras. A ?onda? que abalou o Governo seguiu-se a outras ? os incêndios, as demissões relacionadas com o caso do helicóptero dos bombeiros ?, algumas delas com ?picos? intermitentes, como o processo Casa Pia.

A crise ministerial começou com a notícia da SIC e, como era inevitável, arrastou toda a comunicação social, tornando imperativa e natural a demissão dos ministros. As provas viriam depois, mas isso não impediu que a certeza sobre a culpabilidade dos ministros se consolidasse na ?opinião pública?, a mostrar que quando estão em causa valores consensuais e amplamente partilhados pelos cidadãos ? como é o caso do direito à igualdade de oportunidades no acesso à universidade ? se estabelece uma sintonia espontânea entre jornalistas e cidadãos sobre a defesa desses valores, relegando para segundo plano a procura dos ?dois lados? da questão.

A crise conheceu dois ?picos?, que coincidiram com a demissão de cada ministro, tendo marcado a agenda informativa até ao dia da libertação do deputado, altura em que se iniciou um novo ?ciclo?. A nomeação da nova ministra dos Negócios Estrangeiros, ocorrida nesse mesmo dia, mereceria pouco mais que uma nota de rodapé.

O actual sistema dos media, ao concentrar as elites políticas e mediáticas num espaço restrito, que repete e sublinha incansavelmente os mesmos temas (como faz a SIC Notícias), facilita o enquadramento dos acontecimentos num sentido que depois se espalha e faz caminho entre os comentadores e na denominada ?opinião pública?. A demissão dos ministros ? justificada pelos jornalistas e pelos próprios como devendo-se a não existirem ?condições? para continuarem em funções, apesar de ambos os ministros afirmarem não ter cometido qualquer ilegalidade ? constitui um exemplo desse processo de ?formatação? da opinião pública operada pelos media.
Idêntica orientação da discussão teve lugar na noite da libertação do deputado, com a focalização dos comentadores na inexistência de ?condições? para o seu regresso às funções de deputado, na crítica ao local escolhido para as primeiras declarações após a libertação (o Parlamento) e nos ?excessos? da recepção de que foi alvo por parte dos seus pares. No dia seguinte, a ?opinião pública? representada nos fóruns radiofónicos, reflectia já esse enquadramento, erigindo-o à categoria de consenso ?nacional?.

O poder dos media foi sempre objecto de versões contraditórias, visto ora como desmesurado, ora encarado com cepticismo. A sua influência é, contudo, mais complexa, na medida em que eles fornecem não só informação, mas, sobretudo, ?quadros? que organizam a nossa visão do mundo.

Também a velha questão de saber se são os jornalistas que manipulam os políticos ou se são estes que manipulam aqueles, está hoje ultrapassada pela questão de saber como é que políticos e jornalistas se manipulam entre si. A cobertura do processo Casa Pia permite estender este pensamento à relação entre os jornalistas e o poder judicial.

Bloco-Notas

Media e democracia ? O criticismo relativamente aos media, nomeadamente aos jornalistas, oscila, hoje, entre uma atitude de receio face ao seu poder e outra de crítica à sua impotência. Qualquer que seja, porém, a posição adoptada é um dado incontornável que os media, sobretudo na sua componente noticiosa, constituem um elemento essencial das sociedades democráticas, pelo que importa adoptar em relação a eles uma atitude que vá além, quer de um criticismo sistemático, quer de uma subordinação às suas mensagens e aos seus formatos.

comunicação política ? No que respeita à comunicação política, a abordagem ideológica que tende a salientar a subordinação dos media relativamente à política, atribuindo-lhe um papel ao serviço de ideias e instituições dominantes, está hoje ultrapassada por uma abordagem que encara a comunicação política como uma instituição com os seus próprios direitos, interagindo com forças políticas e mediáticas e projectando as suas próprias influências, os seus constrangimentos e os seus problemas.

Crise de comunicação ? Jay Blumler e Michel Gurevitch, num livro publicado em 1995 ? The Crisis of Public Communication ? baseado num estudo comparativo entre países da Europa e os EUA, afirmam que a comunicação política está em crise e que essa crise tem origem sistémica. Em sua opinião, pelo menos dois processos, um deles social e o outro mais especificamente relacionado com os media, podem ser identificados como contribuindo para essa crise. O primeiro, reside nas transformações das relações sociais e demográficas e na emergência das ?democracias de massas?. O segundo, tem a ver com a evolução do sistema de comunicação política nessas sociedades. Para os autores, estes factores devem ser considerados não como processos separados, mas como uma das consequências, ao nível da comunicação, da emergência das democracias de massas.

Governar é difícil ? De entre os traços mais dominantes da crise da comunicação política, os autores identificam, como um dos mais importantes, a aparentemente irreversível dissolução dos laços tradicionais. Segundo afirmam, as instituições que antes organizavam o sentido, a identidade e a autoridade para muitas pessoas, que estruturavam as suas preferências políticas e simplificavam os processos de procura de poder ? em especial os partidos políticos, a família nuclear, os vizinhos e os grupos sociais de classe ? perderam relevância e influência. Em seu lugar, desenvolveu-se uma sociedade mais complexa e fragmentada, repleta de múltiplos grupos de interesse e de valores contraditórios. Estes modelos foram acompanhados por uma mobilidade acelerada, não apenas geográfica, ocupacional e social, mas também psíquica. Nestas condições, governar torna-se mais difícil, o apoio popular é mais contingente e uma efectiva comunicação torna-se mais vital."

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