Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > TV CULTURA EM CRISE

Ethevaldo Siqueira

Por lgarcia em 14/05/2003 na edição 224

TV CULTURA EM CRISE

“Receita para salvar a TV Cultura”, copyright O Estado de S. Paulo, 11/05/03

“Considero a TV Cultura um dos patrimônios da comunicação brasileira. E nesse ponto, creio que poucos leitores discordam dessa afirmativa. Se assim fôr, estará justificado, a meu ver, todo esforço que possamos fazer para preservá-la. E já tenho uma fórmula para garantir a sobrevivência da emissora: libertar-se do governo. Para isso, ela terá que ganhar autonomia econômica, aprender a caminhar sobre as próprias pernas e não mais depender do apoio financeiro do governo estadual.

Além de razões gerais para lutar pela sobrevivência das emissoras da Fundação Padre Anchieta, tenho minhas razões pessoais, sentimentais. Ainda como jovem repórter, cobri a inauguração da TV Cultura, em 15 de junho de 1969. Poucas semanas depois, fiz uma reportagem de página inteira neste jornal, mostrando seu projeto de televisão pública, ouvindo o então governador Roberto de Abreu Sodré e o professor Antonio Soares Amora, idealizadores deste sonho. A emissora prometia ?um jeito diferente de fazer TV?.

Imaginem minha tristeza, agora, com a crise da TV Cultura. E nisso não estou sozinho. Raras vezes recebi tantas manifestações de apoio e tantas mensagens de leitores, como depois do artigo da semana passada. Solidários com minha indignação, ao prever que a TV Cultura poderia sair do ar, esses leitores me deram força para continuar a luta.

Para minha surpresa, apenas um leitor disse que o povo paulista não deve pagar para que uma minoria possa ver a programação de uma televisão pública do melhor nível cultural. Mesmo considerando que a contribuição total do governo do Estado é bastante modesta, algo equivalente a R$ 2,70 por habitante/ano, concordei com aquele leitor: a Fundação Padre Anchieta precisa libertar-se do governo. Aliás, no Brasil e no mundo, depender do governo é sempre um risco de degradação e sobrevivência. A educação pública e a previdência social brasileira que o digam.

Novo modelo – Mudemos, portanto, o modelo de financiamento da TV Cultura. Antes de apresentar uma idéia para esse modelo, uma boa notícia: a TV Cultura já é capaz de gerar receitas equivalentes a 40% de seu orçamento, com a produção e a comercialização de seus melhores programas. Além disso, já sabe como buscar patrocinadores institucionais para custear seu dia-a-dia. Sua dependência de verbas estaduais, portanto, já caiu de 100% para 60% de seu orçamento nos últimos anos.

Uma das melhores sugestões para o novo modelo veio por intermédio das mensagens recebidas após a publicação de minha coluna de domingo passado.

Era a opinião abalizada de um dos grandes profissionais que ajudaram a implantar a TV Cultura há mais de 30 anos: Mario Fanucchi. Para ele, ?a TV Cultura deve ser um showroom permanente, um centro de excelência para mostrar produtos, demonstrar o método pelo qual os obtém, e dar um exemplo de como aplicar os mais avançados meios de realização?.

E como financiar tudo isso? O próprio Mario Fanucchi sugere o caminho que me parece mais oportuno e viável, qual seja, buscar recursos permanentes por intermédio de ?convênios com fabricantes de equipamentos, com as universidades e instituições empresariais, com a criação de um fundo único para custos de produção, com doações sem visar determinados programas, evitando-se o risco de entrar no jogo das emissoras comerciais, em que as maiores verbas são destinadas aos programas com maior retorno. E, claro, a contribuição do governo estadual na proporção de sua responsabilidade pela educação e cultura?.

Diferentemente de Fanucchi, neste último ponto, acho até que, com a implantação desse modelo, poderemos e deveremos, a médio prazo, dispensar a contribuição do Estado.

Outros modelos – Ao longo de 34 anos, a TV Cultura tem conseguido realizar um trabalho inovador e independente, semelhante aos melhores serviços europeus, japoneses ou norte-americanos.

Entre seus programas de melhor padrão, estão os infantis, que começaram com o Sítio do Picapau Amarelo (de Monteiro Lobato) e a versão brasileira de Vila Sésamo, para chegar ao sucesso internacional do Castelo Rá-Tim-Bum.

Nos Estados Unidos, vigora um dos modelos mais bem sucedidos de televisão pública: o Sistema de Radiodifusão Pública, em inglês, Public Broadcasting System (PBS), inteiramente mantido por cidadãos e por empresas privadas. Em outros países, governos e universidades mantêm outros modelos de TV pública ou cultural com objetivos semelhantes, qual seja, o de oferecer uma opção às emissoras comerciais, cuja tendência mundial tem sido de rebaixar progressivamente o nível de qualidade da programação.

A folha de serviços prestados até aqui pela TV Cultura nos convence de que ela vale uma boa luta e, em especial, a contribuição coletiva em favor de sua sobrevivência.”

 

“Em tempo de dificuldades, reprises imperam”, copyright Folha de S. Paulo, 12/5/03

“Imagine se a moda pega e, em vez de fatos do dia, tivermos emissoras comentando notícias antigas! O ?Vitrine? (Cultura) que foi ao ar na última quinta-feira anunciava a Mostra Internacional de Cinema do ano passado. No calor da hora, o apresentador Marcelo Tas comentava as eleições presidenciais que se avizinhavam.

O confronto entre o governo do Estado e a direção da TV Cultura acentua a paralisia que se abateu sobre o que deveria ser a razão de existir de uma emissora: a programação.

Nada contra ?Viola, Minha Viola? ou contra Inezita Barroso, mas é sintomático que novas edições do programa sejam das poucas coisas inéditas exibidas pela emissora.

Programas sobre natureza são bons de ver. Mas a exibição de um enlatado como ?Planeta Terra?, com paisagens australianas, na faixa das 20h, duas vezes por semana, é patética.

Em meio à crise, marcas de empresas ganham espaço. Projetos especiais ligados ao marketing cultural privado, financiados provavelmente via renúncia fiscal, interrompem a programação normal, transmitindo uma sensação de espaço público alugado.

Restam os programas mais simples, de entrevista, baseados na legitimidade de profissionais consagrados fora da TV. Até o telejornalismo, uma das marcas da emissora, está prejudicado pela falta de fitas, outro descalabro.

Sucessos da fase áurea como ?No Mundo da Lua?, ou ?Castelo Rá-Tim-Bum?, continuam em exibição, chamando a atenção para o padrão um dia alcançado.

A TV Cultura de São Paulo realizou feitos raros no panorama mundial. No início dos anos 90, quando a audiência das TVs públicas caía em muitos países recém-convertidos ao sistema de TV competitiva, a emissora paulista elevava seus índices, durante o horário nobre, no mercado mais disputado do país.

A começar pelo primeiro ?Rá-Tim-Bum?, dirigido por Fernando Meirelles no final dos anos 80, ou pelo ?Matéria Prima?, de Sérgio Groissman, havia uma preocupação com a inovação de linguagem que se perdeu no caminho.

Televisão é hábito. A consolidação de programas e horários exige tempo. O sucesso de audiência conquistado no início dos anos 90 coroou anos de investimento em uma programação de qualidade, que interveio no panorama televisivo, estimulando novos talentos e sugerindo patamares de qualidade.

A falta de dinheiro não justifica a programação atual. Seria bom que o debate instalado tivesse como referência o espectador. Seja qual for a solução para o atual impasse em que se encontra a TV Cultura, é bom que se atente para a importância estratégica de uma televisão pública que já demonstrou que é possível conciliar conteúdo de qualidade com bons índices de audiência.”

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