Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > O CLONE

Etienne Jacintho

Por lgarcia em 05/06/2002 na edição 175

TV PAGA

"A TV que pesa no bolso", copyright O Estado de S. Paulo, 2/6/02

"A TV por assinatura é opção para quem não se contenta com a programação dos canais abertos. Mas o custo-benefício do serviço ainda é discutível: a maior reclamação em relação ao serviço é o preço. Segundo uma enquete realizada no portal do Estadão (veja na página ao lado), 97,78% das pessoas consideram o produto muito caro. Por isso, 45,45% desistiram da assinatura ou trocaram de operadora.

Ainda assim, a maioria aprova a programação dos canais pagos: 66,68% acham que as atrações são boas, muito boas ou ótimas. O melhor da programação, para os participantes da enquete, são os filmes, com 32% da preferência. Os canais de seriados e os de jornalismo ficam em segundo e terceiro lugar, com 18,7% e 16%, respectivamente. Já a tevê aberta está mal, na opinião dos internautas. Para 63,34%, a programação é péssima ou ruim.

Para quem não é viciado em televisão, a TV paga é um luxo descartável. A socióloga e publicitária Sônia Maria de Matos, de 54 anos, chegou à conclusão de que pagava muito pelo pacote completo da TVA e decidiu optar pelo básico, mais barato. ?Sempre que eu procurava algo para assistir, não encontrava nada que me agradasse?, diz Sônia. ?Eu gostava do canal Mundo e da HBO, que passou a perder a graça por não ter novidades.? A publicitária substituiu o cabo pela locadora. ?Alugo os filmes que quero e gasto menos?, afirma Sônia que trocou os canais de notícias pela internet. Ela também reclama do atendimento do Departamento Financeiro da operadora. ?Foi um sufoco cancelar a assinatura. Eles computaram o cancelamento, desligaram o sinal, mas as faturas não pararam de chegar.?

O Procon recebeu, no ano passado, 2.728 consultas e 752 reclamações de consumidores de TV por assinatura. A maioria desse total foi sobre cobrança, valor, reajuste, contrato ou orçamento: 780 consultas e 171 reclamações.

Mercado – Segundo a Associação Brasileira de Telecomunicações por Assinatura (ABTA), o Brasil fechou o ano de 2001 com 3,5 milhões de assinantes de TV paga. Em relação a 2000, esse número cresceu 3,3%. Pode parecer muito pouco, mas na opinião do assessor de imprensa da Net/Sky, Ricardo Braga, o crescimento foi bom. ?A economia cresceu 1,5% e a TV aberta teve um decréscimo de cerca de 2%?, comenta. Em dez anos, a TV paga conseguiu 3 milhões de assinantes no País. Já a Argentina demorou 50 anos para conquistar 5 milhões de pagantes – mas como a população lá é bem menor que aqui, isso representa muito: a penetração de TV paga já chegou a alcançar 60% dos lares lá.

Em crise há pelo menos dois anos, o setor perdeu mais fôlego neste início de 2002: a líder Globocabo, maior investidora em cabeamento, não conseguiu alcançar o número de assinantes previsto. Braga faz uma comparação com um avião de 100 lugares que decola com apenas 25 ocupados. ?Isso significa que ele tem 25% de penetração.? A Globocabo opera com aproximadamente 26% de penetração. Ela teria de vender mais ?poltronas? para se estabilizar. Além disso, o assessor cita outro problema: as dívidas em dólar. ?Na época em que as operadoras emprestaram dinheiro para cabeamento, o real acompanhava o dólar. Hoje, há a desvalorização.?

Para compensar, as operadoras passaram a oferecer diferentes serviços para aumentar o caixa. A idéia é fazer com que os assinantes gastem mais dinheiro com opções de pay-per-view, interatividade e canais à la carte. Mas, para o presidente da ABTA, José Augusto Miranda, o mercado deve crescer. ?Há a possibilidade de ampliação do MMDS (de transmissão aérea e investimentos mais baratos que o cabeamento), além da expectativa de aumento do número de assinantes do sistema via satélite?.

Gatos – Para piorar a situação, ainda há muitas ligações clandestinas, os chamados gatos, que configuram crime. E não é só nos bairros pobres e nas favelas que as pessoas preferem não pagar pelo serviço. A estudante A. M. S., de 20 anos, mora em um bairro de classe média-alta de São Paulo e não paga pelo serviço do ponto extra da tevê a cabo. ?Chamei um técnico da NET para retirar o ponto extra e ele acabou oferecendo uma ligação clandestina?, conta. ?Eu não sei o que ele fez com o decodificador que deveria ter sido devolvido na hora do cancelamento.?

A estudante acha boa a programação de alguns canais, como o People & Arts.

?Adoro os documentários?, conta A. M. S. que também elogia as co-produções do GNT, como o Superbonita e o GNT Fashion. Telecine, Sony e Fox também estão em sua lista de preferências.

Canais – Para satisfazer os telespectadores e fazer valer o preço das assinaturas, os canais pagos com conteúdo internacional vêm se esforçando para montar uma grade de programação que tenha a cara do Brasil – e as emissoras nacionais (como as da Globosat) se esforçam para produzir, comprar e co-produzir programas de qualidade ao gosto local.

Dos internacionais, a Fox e o National Geographic Channel (NGC) realizam pesquisas e consultam o Ibope para saber quais programas agradam ao público brasileiro. Há também a preocupação maior com legendagem e dublagem de atrações, o que não era o forte da maioria dos canais fechados, mas que pode melhorar muito a relação custo-benefício da tv fechada."

 

VIOLÊNCIA NA TV

"Europa estimula campanha contra violência na TV", copyright O Estado de S. Paulo, 31/5/02

"Iniciada na Alemanha, França e Grã-Bretanha, a campanha para a proteção das crianças e adolescentes contra a violência difundida pela TV está agora se estendendo por outros países da União Européia. Um dos principais objetivos do movimento, articulado por organismos oficiais, é obter apoio da sociedade para que sejam reforçados os mecanismos de controle dos filmes, programas de TV e videogames violentos que poderiam incitar a criminalidade.

Na Alemanha, o chefe do governo, Gerhard Schroeder, reuniu representantes dos canais de televisão e fabricantes de videogames com líderes políticos e educadores para discutirem a questão, à luz da chacina ocorrida na cidade de Erfurt, em abril, quando um jovem estudante matou 17 pessoas, entre colegas e professores, e suicidou-se logo depois. O rapaz era viciado em filmes e games violentos.

Ao abrir o debate, Schroeder pediu que os especialistas respondessem à pergunta que mais se ouve hoje na Alemanha: como um país tão ordeiro, dotado de um dos melhores sistemas de segurança do mundo, foi cenário de semelhante tragédia?

Em Londres, autoridades ficaram perplexas, diante de um relatório recente, preparado pela Comissão de Regulação do Audiovisual (BSC, sigla em inglês).

Segundo o documento, nas produções da TV britânica a exibição de atos de agressão, homicídio e outros crimes aumentaram em 22% nos últimos meses. O telespectador britânico passou a ver uma média de 5, 2 cenas de violência por hora.

O relatório foi baseado numa pesquisa de opinião pública com duas mil pessoas, que se disseram alarmadas com a banalização na TV das histórias de assassinatos, agressões sexuais, estupros incestuosos, droga e prostituição.

Tudo isso, com a agravante de que já não se respeita a barreira horária das 21 horas.

Idade – O Conselho Superior do Audiovisual (CSA) da França começou a exigir que as emissoras veiculem com antecedência vinhetas sobre filmes violentos, lembrando que são proibidos para certa faixa etária.

Dentro desse espírito, autoridades alemãs resolveram rever suas regras sobre programação de TV, devendo a produção nacional de videogames ser igualmente objeto de uma regulamentação específica. Será estabelecido um index dos filmes, publicações e jogos eletrônicos violentos e da faixa mínima do público que terá acessos a eles. Ao mesmo tempo, as administrações regionais do país deverão reforçar as normas sobre as condições para o porte de armas, a começar pelo aumento da idade para conseguir esse direito, que passará de 18 para 25 anos.

Embora manifestem apoio irrestrito às medidas tomadas pelo governo de Schroeder, setores do partido conservador (CDU) temem que elas sejam ineficazes por causa da impossibilidade atual de regulamentar conteúdos e o acesso à internet. ?De que servirão as medidas restritivas, se nossos jovens podem se abastecer nos servidores japoneses ou americanos??, perguntava, sem obter resposta, o líder democrata-cristão Edmund Stoiber."

 

O CLONE

"As drogas roubaram a cena do clone", copyright O Estado de S. Paulo, 2/6/02

"É a maior performance da carreira de Glória Perez. A novela O Clone chega ao final com um ibope recorde para estes tempos, marcados de distribuição de audiência entre os canais abertos: quase 60 pontos de média no Ibope (na Grande São Paulo).

O desempenho abre caminho para Glória ganhar definitivamente uma vaga de titular na galeria dos autores ?das 8? no Olimpo da Globo. Isso porque O Clone vai passar para a história da TV como responsável pelo revigoramento da faixa nobre, combalida desde que dramalhões mexicanos e bate-bocas de auditório começaram a fazer concorrência.

A explicação para tal fenômeno não é fácil, porque, como já foi dito nesta mesma coluna, a novela da Globo não é muito diferente dos dramalhões importados. A pieguice e o apelo dramático ressoam no mesmo tom tocado no outro lado do muro. No quintal de Marisol, por exemplo, as emoções são over tanto no SBT como na Globo e há uma inegável estereotipagem das personagens que se enfrentam na arena do maniqueísmo.

Não é a modernidade do tema escolhido por Glória a responsável pela adesão do público. A clonagem passou a ser tão coadjuvante na história quanto a batucada enche-lingüiça no bar da dona Jura. O público não está nem aí para os conflitos existenciais de Lucas (o clonado), Albieri (o criador) e Léo (o clone). O embate entre pai e filho pela paternidade de Léo toca menos o telespectador do que o susto de Otavinho (Vitor Fasano) ao descobrir-se pai de uma criança sem ter consumado o ato com a mãe.

O romance da heroína Jade (Giovanna Antonelli) com quase todos os varões da novela já sofreu tantos vaivéns que já não faz tanta diferença saber com quem a odalisca vai terminar.

Eliminadas essas hipóteses, sobra o drama das drogas. Glória adora uma campanha, já fez várias (por transplante de órgãos, para ajudar mães a encontrar crianças desaparecidas, etc.), mas a do Clone encontrou respaldo nos dias em que vivemos e no noticiário atual.

A guerra entre traficantes de drogas nos morros cariocas, que vitima com balas perdidas trabalhadores honestos, reforça a gravidade do tema tratado na ficção. O envolvimento de astros populares com o tráfico – que gerou inflamados discursos moralistas (bem oportunistas) em programas dedicados à crônica policial – tornou o drama de Mel ainda mais convincente e valorizou a iniciativa de Glória Perez. Por essas vias transversas, há gente que começou a ver alguma utilidade nas telenovelas.

Tirando a chatice da discurseira de Lobato (Osmar Prado) para o psicanalista-poste sobre o poder das drogas sobre os seres humanos e a falta de compreensão da sociedade para com o viciado e dando o devido desconto para a avalanche de depoimentos de ex-viciados, O Clone tem retratado bem, ainda que com alguns excessos, o problema.

As cenas, contundentes, da internação ou da crise de abstinência da personagem de Débora Falabella (uma ótima atriz) ou as loucuras cometidas por Nando e Regininha para conseguir comprar drogas (e o sofrimento das famílias) tocaram fundo o público e provocaram discussões. Nos estúdios dos programas femininos e, é bem provável, na casa do espectador, o assunto rendeu. Essa repercussão pode ter se revertido em dividendos para a própria novela.

Isso vem provar que, quando bem inseridas na ficção diária, as ?mensagens? funcionam. E em duas frentes: a de provocar – mesmo que de maneira incipiente – uma certa conscientização social e a de engordar a audiência perseguida pela emissora."

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