Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > TVs PÚBLICAS

Eugênio Bucci

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

SAÚDE

"Pressão alta e câncer de pele", copyright Jornal do Brasil, 29/11/01

"Eu me lembro de um poema de Cecília Meireles sobre as escolhas. Chama-se Ou isto ou aquilo. São versos bem conhecidos, que aparecem nos livros escolares logo no ensino fundamental. Começa assim: ?Ou se tem chuva e não se tem sol/ ou se tem sol e não se tem chuva!?. Outra passagem: ?Ou guardo o dinheiro e não compro o doce/ ou compro o doce e gasto o dinheiro.? Cecília parece falar a uma criança, mas, todos sabemos, opções de crianças, que são duras, ficam piores ainda quando a gente cresce. Por exemplo: devo cometer o suicídio agora à tarde ou deixo para domingo à noite? Ou: beijo a boca que me sorri ou sorrio para a boca que me quer beijar? Finjo que não vejo o crime que vejo ou me convenço de que não há crime algum no que estou vendo? Isto ou aquilo?

Não é fácil. A própria Cecília termina sem saber o que é melhor, ?se isto ou aquilo?, e eu também não sei. Nem me preocupo muito. Não adianta. A pior escolha é a que a gente acaba fazendo: aquela de não escolher coisa nenhuma e ir andando na esteira rolante, no trânsito, no emprego, na escola, na igreja, ir andando por estes parágrafos estranhos e inexplicáveis.

Ou melhor: essas digressões, ainda que estranhas, não são de todo inexplicáveis. Elas vêm me puxar os pés durante a noite porque foram provocadas. A culpa é dessas campanhas de saúde, inventadas pelo governo e pelas entidades médicas, que ficam aí martelando nas emissoras de rádio, na televisão, nos outdoors. Esta semana mesmo, anúncios me mandam medir a pressão. Tenho mais medo de aparelho de pressão do que de dentista. Dizem as campanhas que não-sei-quantos-porcento das mortes são causadas por essa doença, a pressão alta. Meça sempre. Catorze por nove. Nunca acima de catorze por nove. Dois números contra as minhas palpitações. Os médicos falam sua fala. ?Pratique caminhadas?, recomendam, e eu me rendo a tal ?prática? enquanto penso no absurdo vocabular que aí se encerra. ?Pratico as caminhadas? e transpiro ao sol da manhã, o que seria apenas um tédio saudável se não fosse a outra campanha, aquela contra o câncer de pele. O sol faz mal. O sol mata. O que faço eu? Nada mais simples, argumenta o dermatologista, ?proteja-se com um bom filtro fator trinta?, e lá vou eu correndo para a farmácia, pela sombra, enquanto penso no atropelo de substantivos que há na locução ?filtro fator trinta?. A voz médica ameaça: o ideal, claro (ou escuro), é ?não abusar dos raios solares?. O que tira toda a graça da ?prática de caminhadas?. Ou bem paro de ?praticar as caminhadas? e não tomo mais sol cancerígeno, ou bem tomo sol e câncer. A ?proteção? me soa impraticável. O ?filtro fator trinta? deve ser besuntado sobre a face e também orelhas pelo menos (PELO MENOS!) quarenta minutos (QUARENTA!) antes (ANTES!) de ?a pele ser exposta aos raios etc etc?. Brincou. Nem a República brasileira foi planejada com quarenta minutos de antecedência. Parece uma inconseqüência da minha parte, mas não dá. Pra mim não dá. Concluo que há uma escolha grave a ser feita na idade adulta: ou se quer morrer do coração ou se quer morrer de câncer. A minha eleição continua sendo o suicídio embora, a essa altura, eu já tenha adiado o meu para o domingo à noite. Vejo o No limite antes e me animo.

O poema de Cecília Meireles, em sua simplicidade, deixa ver que as escolhas, pobres escolhas, não são exatamente decisões autônomas de seres emancipados que, heroicamente, criam seus próprios destinos e escrevem seus futuros ao som das trombetas. Uma escolha é menos gloriosa. É somente uma adesão patética a um discurso pronto. Ou se calça a luva ou se põe o anel (lembrando outro verso de Ou isto ou aquilo). Escolher não é se libertar. É apenas subjugar-se a um ou outro estilo que já vem definido antes de você. Como a luva. Como o anel. Os médicos e suas falas peremptórias são assim. Os discursos que eles falam os precedem e também os ultrapassam. Às vezes vejo no médico não o portador da salvação mas o portador modesto do discurso que o comanda. Nessa perspectiva (e só nessa perspectiva), a medicina não é uma ferramenta para a cura, mas a cura é que serve de cimento para o edifício ideológico da medicina. Vem daí, talvez, o senso de disciplina, ou melhor, de obediência, que caracteriza todo tratamento. O discurso médico assume o poder sobre a rotina do paciente: nenhuma cura é democrática. O tratamento decreta o estado de sítio em nosso corpo. Assim, com a licença de toda a boa intenção de todos os médicos, boa intenção na qual eu acredito, de coração, de pele, e, às vezes, de joelhos, posso dizer que o objetivo do discurso médico, para além de salvar vidas, é instaurar sobre o mundo a ordem tirânica da medicina.

Trata-se de uma utopia totalitária, de monitoramento permanente. O problema é que eles, os discursos médicos, são com freqüência contraditórios. Ou sigo o oncologista e negligencio o cardiologista, ou obedeço o ortopedista e dou uma tapeada no meu psiquiatra. Como escolher? Os subdiscursos das especialidades médicas seguem em disputa para dentro do meu corpo. Marcapassos, próteses, psicotrópicos, sondas e implantes vão agir por minha carne adentro para adequar-me à sobrevida pela qual serei grato e servil até que os olhos da morte, como um castigo, venham me descobrir outra vez, em flagrante desobediência. Meu corpo é um pobre campo de batalha. Como escolher?

Cecília Meireles que me acuda. ?Quem sobe nos ares não fica no chão/ quem fica no chão não sobe nos ares.? Eu ouço as campanhas em prol da minha saúde, eu vejo nelas a felicidade medicinal e me sinto descarnar."

BEETHOVEN vs. GLOBO

"Juiz determina hipoteca da sede da Globo em SP", copyright Folha de S. Paulo, 28/11/01

"O juiz da 6? Vara Cível de Jundiaí (SP), Antônio Carlos Soares de Moura e Sedeh, determinou a hipoteca judiciária do prédio da sede da Rede Globo em São Paulo em decorrência de uma ação indenizatória movida pelo juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira. A Globo não havia sido informada até o fim da tarde de ontem.

A hipoteca se deve a ação por danos morais movida por Ferreira, deferida em primeira instância, em março, por Sedeh, contra a qual a emissora recorreu no Tribunal de Justiça do Estado. A ação tem como base reportagem veiculada pelo ‘Jornal Nacional’, em novembro de 99, citando suposta ligação do juiz, na época titular da Vara da Infância e da Juventude de Jundiaí, com a facilitação de adoções internacionais de crianças. O juiz condenou a Globo ao pagamento de indenização no valor total do arrecadado com a publicidade no ‘JN’ daquele dia.

A Central Globo de Comunicações, no Rio, informou que a hipoteca não alterará o funcionamento da emissora."

SBT vs. GLOBO

"Diretor do SBT faz críticas a Abert e à TV Globo", copyright O Estado de S. Paulo, 30/11/01

"O diretor-regional do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) em Brasília, Flávio Cavalcanti Júnior, criticou ontem a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert). Ele disse que a atuação da entidade é pautada pelos interesses da TV Globo e citou como exemplo a demora em lutar pela aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que permite a participação de capital estrangeiro na mídia.

‘Em termos de televisão, a Abert é hoje a Rede Globo’, afirmou Cavalcanti Júnior, durante audiência pública sobre programação de TV na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. O SBT não é ligado à entidade, da mesma forma que as Redes Record e Bandeirantes.

O diretor-regional do SBT acusou a Abert de ter agido timidamente em defesa da PEC do capital estrangeiro, na época em que a matéria foi aprovada numa comissão especial da Câmara, em 1999. Isso teria ocorrido porque a Globo, segundo ele, seria então contrária ao ingresso de capital estrangeiro em jornais, revistas e emissoras de rádio e TV.

Atualmente a emissora defende a aprovação da proposta no Congresso e a Abert tem-se empenhado diretamente para assegurar a votação da PEC, o que poderá ocorrer na semana que vem. ‘Agora que (a Globo) está precisando de dinheiro, (a Abert) quer’, disse Cavalcanti Júnior, após audiência pública, lembrando que o SBT defende a aprovação da PEC ‘há três anos’.

O diretor da Central Globo de Comunicação, Luis Erlanger, rebateu as declarações de Cavalcanti Júnior, negando que a emissora tenha mudado de opinião. ‘A TV Globo sempre foi favorável à abertura ao capital estrangeiro, desde que haja mecanismos que garantam a preservação e o estímulo à produção nacional. Aliás, este sempre foi o diferencial da Rede Globo em relação às demais emissoras’, disse Erlanger."

BANDEIRANTES

"Band prepara mais mudanças", copyright O Estado de S. Paulo, 30/11/01

"Novo logo e nova programação aos sábados e domingos são algumas das novidades da rede em 2002

As mudanças parecem não ter fim na Band. Após a saída de alguns profissionais da emissora, modificação geral na programação de segunda a sexta-feira e a chegada de gente nova à rede, mais novidades vêm por aí.

O canal está apostando numa linha de TV ‘mais popular’ e, por isso, a Band deve passar por uma reformulação em suas vinhetas, figurinos, iluminação e até logotipo.

As modificações entrarão no ar em 2002. Segundo o diretor de Criação da emissora, Rogério Gallo, as novas atrações já estão alinhadas com o novo conceito ‘popular’ da emissora . Para Gallo, as maiores modificações ocorrerão nos programas mais antigos da rede, que terão figurinos e até mesmo o conceito de iluminação revistos. ‘Os noticiários, por exemplo, e os programas esportivos, como o Show do Esporte, devem ganhar cara nova’, diz Gallo.

O logotipo da emissora, muito identificado a São Paulo por causa de suas cores, será modificado. No lugar do cinza, branco e vermelho entrarão cores mais brasileiras, como amarelo, verde e azul.

A reestruturação também deve atingir a programação dos sábados e domingos da emissora.

Sem abrir mão da cobertura esportiva, que, segundo Gallo, é muito importante para a Band, os fins de semana na emissora devem ganhar novas atrações. O diretor pensa em concentrar a programação infantil da rede nas manhãs de sábado e quer criar um programa de variedades para as tardes de domingo.

Gallo ainda não revela quem vai comandar a atração, mas avisa que será mais uma contratação de peso da casa."

TVs PÚBLICAS

"TVs públicas criam comissão para fazer lobby", copyright Folha de S. Paulo, 28/11/01

"Em reunião no dia 23 em Maceió, representantes de 21 TVs públicas do país decidiram criar uma comissão de profissionais de relações públicas para fazer lobby no Congresso Nacional, em assembléias e nos governos.

A ‘politização’ da Abepec (entidade que reúne as TVs públicas e educativas nacionais) é uma reação ao forte lobby exercido pelas TVs comerciais, por meio de parlamentares e da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV.

Dependentes principalmente de verbas estatais, as emissoras educativas até então assistiam passivas à pressão pelo fim de brechas legais que lhes permitem captar recursos de publicidade institucional, apoio cultural e patrocínio incentivado. Hoje, a captação de recursos privados corresponde a 30% da receita da TV Cultura.

Executivos das TVs comerciais reclamam que as educativas viraram concorrentes privilegiadas, por terem verbas públicas. Políticos donos de emissoras pressionam governadores a sucatearem as TVs públicas, que temem ficar sem dinheiro estatal para investir em digitalização.

No encontro de Maceió, a Abepec redigiu um manifesto a projeto de lei do deputado federal Luiz Moreira (PFL-BA), que revoga dispositivo legal que permite às TVs públicas a veiculação de publicidade institucional. O mesmo projeto obriga as emissoras a só transmitirem aulas e teleconferências, como no regime militar."

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