Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > VERA FISCHER

Eugênio Bucci

Por lgarcia em 12/12/2001 na edição 151

VERA FISCHER

"A função sexual do burro", copyright Folha de S. Paulo, 9/12/01

"Não parece impossível que, pelos próximos 20 anos, Vera Fischer continue em brasa no papel de deusa do sexo. Ela festejou meio século de vida no ?Fantástico? de domingo passado. Sorria e dançava ondulando o colo com o deslumbramento de uma debutante. Só não estava intacta porque estava melhor. As décadas lhe fizeram bem. É a mulher mais desejada da televisão. Em sua vitória sobre o tempo, tornou-se unânime, universal. Em seu pedestal de cetim, suprime os conflitos de gerações. Avós e netos têm nela a protagonista preferencial de seus melhores sonhos. Ela vai bem ao som de uma valsa de Carlos Galhardo. Ela vai bem num baile funk. Vera Fischer não é mais Vera Fischer. É o significante puro do desejo. Tudo o que é tocado por ela, ou pelo nome dela, vira instantaneamente um signo arfante e libidinoso.

Tudo. Nem que seja uma reles tintura capilar. Vera faz agora a propaganda de um desses tônicos que tingem de preto a cabeça de homens grisalhos. Ela olha para o seu pretendente, já tingido, e suspira: ?Ele está um gato?. Sua rouquidão é sôfrega. Ah, devaneia o telespectador, tivesse eu tantos fios no cocuruto e os pintaria um a um.

É incrível como a deusa da TV empresta sensualidade a qualquer coisa. A qualquer bicho. Num domingo desses, em sua coluna no caderno ?Mais!? desta Folha, José Simão contou uma piada bastante expressiva, ainda que desbocada. Era a seguinte: ?E um cara me disse que, se a Vera Fischer viesse pelada numa carroça, ele começava a chupar pelo burro. Rarará!?. Vem aí uma pornochanchada nacional: ?Uma Carroça Chamada Desejo?.

Pensemos por um momento na condição do burro. Ele puxa uma carroça em cima da qual repousa, nua, nossa ?pin-up? quinquagenária. O ?cara?, o tal conhecido de José Simão, fará então a corte à sua amada e, no instante do amor propriamente dito, dará início aos trabalhos ?pelo burro?. Interessante: o burro vira um bicho desejável. A anedota nos esclarece um pouco sobre o funcionamento do erotismo a partir da TV: há algo que escapa da tela, que se desprende do monitor como a folha de uma árvore, e vai pregar-se em algum utensílio ordinário do nosso cotidiano, transformando-o numa porta mágica, numa passagem para o gozo (por exemplo: converte um burro em objeto do desejo). É assim que a TV instrui as relações da vida íntima de seu imenso público. Ama-se o burro porque se ama o significante do desejo que ele carrega. Beija-se o burro em nome de Vera Fischer.

O mesmo esqueminha (anedótico, sempre anedótico) vale para quase tudo. A mulher abraça o marido pensando em sabe-se lá que imagem da TV, mais ou menos como quem mata o mendigo para eliminar o fantasma do próprio fracasso. Na fiação elétrica da nossa vidinha, pela qual correm os significantes do desejo, o papel de Vênus recostada na carroça, como a Maya espreguiçando no divã de Goya, pertence a Vera Fischer. Quanto ao papel do burro, este pertence… não a mim nem a você, estimado leitor, deixe-me refazer a frase. Digamos que aos mortais, como nós, cabe a função de burro de carga do desejo ou de amantes do burro. Somos um comboio de carroças apaixonadas. E perdidas.

O que a piada de José Simão não conta é que aquele mesmo sujeito que ?começava pelo burro? tem um final tragicômico: acorda no dia seguinte ao lado do burro. Desatrelado da carroça. E esta, esvaziada de Vera. Fora isso, como se sabe, burros e mulas são bichos estéreis no reino animal. Híbridos entre a égua e o jumento, não procriam jamais. Logo, dirá você, o burro não tem função sexual nenhuma.

Pois eis que tem. Vera Fischer cuida de erotizar o burro. Ela, aos 50, dá a aura sexual para o burro, assim como fazia no princípio, na flor dos 20 anos, e assim como fará, se não pela eternidade afora, pelo menos por mais duas décadas."

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