Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > COPA 2002

Eugênio Bucci

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

COPA 2002

"I belong to… Pelo amor de Deus!", copyright Folha de S. Paulo, 7/7/02

"Credo em cruz! Ao final daquela partida lá, aquela tal de domingo passado em que o Brasil se sagrou campeão depois de ganhar da Alemanha, uns jogadores arrancaram a camiseta oficial da seleção brasileira e, por baixo, tinham outra. Sim, vestiam outra camisa por baixo da camisa que vestiam. E essa outra camisa era merchandising religioso. Uma delas trazia a seguinte mensagem: ?I belong to Jesus?. Oh, God. Eu me lembrei de Ella Fitzgerald cantando ?my heart belongs to daddy?, da música de Cole Porter, e senti que a voz da cantora era mais angelical. Um segundo futebolista, este mais alto, preferiu outros dizeres: ?Jesus (coraçãozinho) you?. Incredible! Qu?é qu?é isso, Cafuringa? Nos rescaldos da final de campeonato, a tela da Globo se converteu, de súbito, numa incomensurável tela da Rede Record. Aquilo virou um megaculto da Igreja Universal.

Há quem tenha visto espontaneidade na comemoração dos canarinhos. ?É o jeito brasileiro?, diziam os animadores esportivos de sempre. O que é exatamente o ?jeito brasileiro?? Dizem que é o ?improviso?, a ?descontração?, a ?alegria? que ?éééééé…. duBrasil!? Tocaram lá a musiquinha que fazia fundo para as vitórias de Ayrton Senna na Fórmula 1. Tentaram esconder a figura insistente de Ricardo Teixeira, o dono da taça, enquanto o pessoal chorava. Tentaram em vão. Teixeira acabou dando entrevista em destaque e tudo virou um grande carnaval sem culpados. Vai ver que isso tudo junto é o ?jeito brasileiro? de ser, mas há mais no meio da bagunça. Há algo que não tem nada de Brasil e que tem tudo de não-Brasil. Religiões eletrônicas, que se promovem pelos meios de comunicação de massa e que são fábricas do dinheiro de poucos e do gozo das multidões, são um fenômeno da indústria cultural em moldes americanos. São tão brasileiras quanto a Nike. O que aqueles atletas encenaram no meio do gramado não foi uma inocente expressão de fé (coisa que também não tem pátria, graças a Deus), mas uma descarada jogada de marketing. O que se manifestou no episódio não foi o Espírito Santo, mas uma propaganda diabólica.

Nós, brasileiros, já temos de suportar a marca de patrocinadores na camisa que deveria representar apenas uma nação. Já é um desaforo. Agora existe aí a modalidade da propaganda infiltrada. E parcial. Já que isso vale, por que propaganda só de Jesus? Por que não de Xangô? E por que não de Buda? Aqueles atletas que vestiram a camisa do Brasil tendo outra por baixo eram os homens-bomba do simbólico. Não levavam explosivos propriamente ditos, mas, disfarçados de futebolistas brasileiros, esconderam sua verdadeira camisa até o instante final, quando então ?explodiram?: eram propaganda contrabandeada. ?I belong to Jesus?, ora, por favor. E a gente aqui achando que o sujeito pertencesse ao time do Brasil, que ele representasse o país.

A fusão da religião com a TV é tão antidemocrática quanto a fusão entre Estado e Igreja. Transformado em espetáculo, o discurso religioso ensandece, invade as esferas individuais e ganha tons totalitários. É bem possível que os homens-bomba do simbólico pretendam que esse ?Jesus? de suas camisetas seja unânime, total, compacto e que, portanto, jamais possa ser visto como ?penetra? na festa de ninguém. Ai de quem for contra ?Jesus?, eles proclamam. E pronunciam o nome com força, com tanta força que a palavra soa estranha, soa ?Xessôs?, como se fosse nagô. Como se fosse a serenidade se transformando em fúria. O amor em ódio. A fé em fanatismo.

Enquanto isso, pobre de quem acreditava que o Estado fosse laico. Pobre de quem acreditava que a seleção brasileira representasse os brasileiros de todas as religiões. Pobre do torcedor. Esses propagandistas dissimulados. Na próxima Copa, que façam comercial do diabo de uma vez."

 

"Comercial que não tem preço", copyright O Estado de S. Paulo, 4/7/02

"A Central Globo de Comunicação (CGCom) garante que merchandising continua sendo item absolutamente vetado em seus telejornais. Melhor assim. Na edição do Jornal Nacional de segunda-feira, a Varig foi citada nominalmente pelos apresentadores. Até aí, a companhia era responsável pela informação em questão, sobre a chegada da seleção brasileira ao País. O que parecia desnecessário era uma estrela, como a do logotipo da companhia, estampada numa ilustração que simulava o trajeto do avião da seleção. ?Era uma arte, nada demais. Não tem nada a ver com merchandising?, atesta Luís Erlanger, diretor da CGCom."

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