Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES 2002

Eugênio Bucci

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181


ELEIÇÕES 2002


"A promessa da Globo", copyright Folha de S. Paulo, 147/02

"Ao longo da semana passada, o ?Jornal Nacional? dedicou dez minutos de suas edições diárias aos principais candidatos à Presidência da República. Ciro Gomes falou na segunda-feira. Ao vivo. Na terça, foi a vez de Garotinho. Serra compareceu à emissora na quarta, e Lula daria entrevista na quinta, após o fechamento desta edição. Esse novo espaço representa um progresso. Alguns críticos lamentam, com razão, o tom um tanto gélido das arguições, dando na gente uma impressão de que aquilo é um exercício escolar, um treinamento de estagiários. Reclamam, também, que os apresentadores, por despreparo ou cortesia, deixam os políticos à vontade demais. É verdade. Mesmo assim, temos aí uma possível melhora na cobertura que a Globo faz das eleições.

Falar em melhora não é exagero. Volte-se no tempo e se terá uma noção do contraste. Em 1989, principalmente depois do primeiro turno, um dos candidatos, Fernando Collor, gozava do mais descarado favorecimento em todos os programas globais. O outro, Luiz Inácio Lula da Silva, foi alvo de asperezas e, às vezes, de maldades. Naquele ano, a rede de Roberto Marinho fez as vezes de cabo eleitoral de Collor, para quem os minutos eram mais longos, os enquadramentos eram mais limpos, as edições eram mais simpáticas. Assim foi e ninguém mais discute nem nega. É um fato.

Há vários outros exemplos de desvios do mesmo tipo, e isso até recentemente. Em março deste ano, a Globo aceitou veicular merchandising do governo do Maranhão na novela ?O Clone? na mesma semana em que a governadora daquele Estado, Roseana Sarney, era a grande estrela das propagandas políticas de seu partido, o PFL, e isso nos intervalos comerciais da novela. Era adulação de Roseana no meio da trama ficcional de ?O Clone? e promoção de Roseana nos intervalos comerciais, num dueto que nunca esteve a serviço de um outro candidato. Foi um favorecimento escandaloso, que só não teve maiores consequências porque Roseana Sarney foi soterrada, como se sabe, por uma pilha de dinheiro.

Agora, no início da campanha de 2002, os sinais são menos degradantes. O ?Jornal Nacional? está prometendo que será apartidário. Tomara que consiga. Na verdade, não importa muito se o clima das entrevistas do ?Jornal Nacional? não foi, ao menos na maior parte delas (escrevo sem ter visto a que foi ao ar na quinta-feira), contagiante, empolgante ou incisivo. Importa que, em igualdade de condições, os principais candidatos tiveram os microfones abertos no ?Jornal Nacional?, ao vivo. Isso é um dado novo e animador.

Para o debate político, é mais espaço que se abre. Para a Globo, é uma transição estratégica. Trata-se de uma reorientação de fundo para proteger e valorizar sua credibilidade jornalística. O ?Jornal Nacional? precisa se livrar da pecha de governista (segundo alguns) ou de manipulador (segundo outros) e precisa se oferecer ao eleitor como um palco privilegiado do diálogo democrático. Faz isso tardiamente, de um modo bastante desengonçado, com hesitações típicas de neófito, mas faz. Tem que fazer. Não por acaso, uma outra rodada de entrevistas está agendada para o ?Jornal da Globo?, nos primeiros dias de agosto. O mérito, se é que se pode falar em mérito, não é propriamente da Globo: é antes da pressão do público e das emissoras concorrentes. A Globo apenas acordou para a urgência do desafio.

Fora isso, não deveria ser surpresa que as entrevistas tenham sido previsíveis,
formais, frígidas. O ?Jornal Nacional? não tinha o hábito
das contendas acaloradas, próprias da democracia. Terá de adquiri-lo.
Confiante, promete ao público uma cobertura mais equilibrada e mais quente,
capaz de extrair dos políticos revelações relevantes. Resta
saber se honrará o compromisso. Ou se tudo não passa de promessa
de campanha."

 


"Fotograma", copyright Folha de S. Paulo, 9/7/02

"A rodada de pesquisas nacionais divulgadas nesse final de semana marca o encerramento da primeira fase do processo eleitoral, iniciada precocemente no final do ano passado, e o início de uma segunda etapa que irá durar até 20 de agosto, quando estréia o horário eleitoral gratuito reservado aos partidos no rádio e televisão.

Os últimos resultados ilustram o que ocorreu de forma frequente e padronizada nesse primeiro momento da eleição: mudanças bruscas no cenário logo após a superexposição de cada candidato na TV. Esse fenômeno, inédito em eleições presidenciais no Brasil, é consequência direta da profissionalização do marketing político e do desinteresse do eleitorado, que ainda está longe de ter o voto decidido.

O lançamento e a posterior queda da candidatura Roseana, com ampla utilização do espaço televisivo, foram emblemáticos como exemplo desse processo. Alavancada pela superexposição na mídia, incluindo o uso indevido de pesquisas programadas em datas estratégicas, seguidas de extensa divulgação, terminou sofrendo a derrocada em consequência da superexposição negativa e da imagem mais marcante da eleição até aqui: o dinheiro da Lunus exibido na mesa da Polícia Federal.

Os candidatos que permaneceram apresentaram movimentos de ascensão semelhantes após as aparições na TV e não sofreram ataques com contundência que os inviabilizassem.

Pode-se dizer que, até aqui, as candidaturas estavam assumindo suas posições para iniciar a disputa. A pesquisa do Datafolha mostra a colocação de cada um na última sexta-feira, quando foi realizada a maior parte do campo. Os resultados refletem o patrimônio acumulado até então pelos candidatos, que é formado, entre tantos fatores, pelo recall de campanhas anteriores, pelo posicionamento em relação aos problemas mais palpitantes do país -encabeçados pelo desemprego e pela segurança pública-, pela empatia com o eleitorado -graças ao apelo emocional a ele dirigido- e pela imagem pessoal derivada das aparições na mídia.

A partir de agora, candidaturas e eleitores em suas posições, começa a fase de apresentação dos personagens principais marcada pelas entrevistas no telejornal de maior audiência do país, atitude que será replicada em todas as emissoras em horário nobre. Estas constituirão outra importante novidade nesta eleição, pois, além do alcance significativo, mostrarão os candidatos despidos dos efeitos de marketing.

Com isso as taxas apresentadas nas últimas pesquisas começam a defasar-se e passa a crescer a expectativa em relação aos levantamentos a serem realizados nas próximas semanas. Os efeitos ilógicos provocados no mercado financeiro pelos resultados efêmeros das pesquisas deverão repetir-se até o final das eleições. Os especuladores, agora armados em larga escala com pesquisas próprias ou promovendo festivais de boatos logo após o registro obrigatório de levantamentos nacionais no TSE, continuarão provocando histeria ao se aproveitarem da fragilidade do mercado financeiro.

Isso aumenta a responsabilidade dos institutos que se propõem a divulgar pesquisas eleitorais. Mais do que nunca ficam obrigados os que as produzem, assim como os que divulgam os números, a tratá-las com responsabilidade social. Transparência e divulgação dos resultados com clareza e rapidez são armas importantes contra a especulação irresponsável e favorecem um processo eleitoral saudável.

Mauro Francisco Paulino é diretor-geral do Datafolha."

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