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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > CASSETA & PLANETA

Eugênio Bucci

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

CASSETA & PLANETA

“Um humor casseta, sem dúvida”, copyright Folha de S. Paulo, 29/09/02

“É possível dizer que, de algum modo, há sempre uma rima entre humor e dor. Nos filmes de Charles Chaplin ou nos filmes de Woody Allen, o espectador ri de alguém que sofre com o próprio fracasso amoroso ou com a derrota econômica, dois dragões que intimidam o cidadão médio a cada passo que ele dá. Ou que ele não dá. Protegido pelo escuro do cinema, o espectador ri de um personagem. Na verdade, ri de si mesmo, e aí é que está a graça. É possível que, rindo assim, ele reconheça em si, inconscientemente, um sofrimento que mal é capaz de admitir. É possível que, transformando seus dragões pessoais em piadas, se sinta mais leve e mais liberto. Rir não é se esconder dos dragões, é driblá-los. Por isso, creio, o melhor humor tende a rimar com a dor. Rima com ela para ultrapassá-la. Rindo do tipo ridículo que vê na tela, o sujeito entrevê a condição humana que nele existe, para além do ridículo, e então ri mais, talvez porque se perceba mais humano, exatamente por ser ridículo de vez em quando.

Feita essa introdução, talvez um tanto longa, um tanto melosa e um tanto ridícula, deixo de lado as comédias do cinema e volto os olhos para os programas humorísticos da TV brasileira. Também nela, humor rima com dor. Com uma diferença, no entanto: na TV, a função do humor parece ser não a de superar, mas a de aprofundar a dor. Vamos a isso.

Não existe, no Brasil, um programa que possa ser posto à altura do humor de Chaplin, de Woody Allen ou do grupo Monty Python. Talvez Denise Fraga no ?Fantástico? tenha alguma leveza, mas suas aparições são mínimas e acabam diluídas. ?Os Normais? é um programa que tem nos diálogos uma inteligência acima da média, mas é grosso, falta-lhe a delicadeza sem a qual a graça não flutua. Quanto aos programas humorísticos propriamente ditos, é impossível encontrar algum que não se baseie em escarnecer os pobres, os analfabetos, os negros, os homossexuais etc. O mecanismo parece ser o mesmo dos melhores filmes cômicos: o espectador é chamado a rir daquilo que o envergonha e que o machuca. A questão é que, nos programas da nossa TV, o espectador não ri para redimir o personagem que se debate em seu ridículo, mas para reiterar a opressão que pesa contra esse mesmo personagem. É uma diferença tênue, quase imperceptível, mas dolorosa.

Na TV, o humor rima com dor, aprofunda-a, e rima com preconceito. Rima com preconceito de cor. E com outros preconceitos. É por isso que, diante da TV, ri dos negros quem não é negro, ri dos gays quem não é gay, ri dos pobres quem não é pobre (ou pensa que não é). Ri deles quem quer proclamar, às gargalhadas, jamais será como eles. É o riso como recusa e chibatada. Esses quadros humorísticos não humanizam o que há de ridículo em todos nós, mas ridicularizam e espezinham o que há de humano naquele triste ?judas? que aparece ali.

Há quem diga que ?Casseta & Planeta? mudou esse cenário. Não mudou. ?Casseta & Planeta? é o melhor humorístico da TV brasileira, de longe, mas, como os outros, é preconceituoso e violento. Por ser mais irreverente que os demais, conseguiu se impor dentro da paisagem ressequida dos piadistas pré-históricos (de corpo, de espírito e de ideologia). Mas logo se especializou no ramo da sátira chapa-branca, dedicando-se a fazer propaganda engraçadinha das estréias da Globo. É por demais previsível. Estreou ?O Beijo do Vampiro?? Tome lá uma sátira oficial de seus personagens. Estreou outra novela? Lá vem o mesmo expediente. Fora isso, é irreverentemente bruto, embrutecido e brutal. A gente vê, a gente ri, mas a gente sabe: ?Casseta & Planeta? não é um programa politicamente incorreto, é só um programa reacionário.

?Casseta & Planeta?, ?A Praça é Nossa?, tanto faz. A qualidade do humor na TV segue baixa e estreita. E casseta.”

“Esses eu agarântio”, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 28/09/02

“Tati, a adolescente irada, encontra Seu Creysson:

?Cara, chocante, aí, minha mãe comprou o Quiti di Prástica Populá das Organizações Capivara e, tipo assim, sabe como?, as gordubanhas da véia desapareceram. Fala sério!. Mandou bem, seu Creysson.?

Seu Creysson, o industrial de dente podre, agradece:

?Issio mesmio, mandia essia muié sem gordubinha pras minhas boquias qui eu sô muichio espádia e, se o açuntio é séxio, minha famósia frasia arrebentchia: eu agarântio!?

A galeria de tipos engraçados na televisão, uma fila que começa no Zé Bonitinho, do Jorge Loredo, passa pelo Coronel Limoeiro, do Chico Anysio, ô Crideee, do Ronald Golias, o Capitão Gay, do Jô, e chega ao Zé Canabrava, do Tom Cavalcanti, tem dois novos companheiros da pesada: Tati, a personagem de Heloísa Perisé, no Fantástico, e Seu Creysson, de Claudio Manoel, no Casseta e Planeta. Não é a primeira vez que os programas de humor recorrem à adolescente espevitada e ao sujeito horrorível que fala tudo errádchio. Mas nunca esses personagens, que já estavam de alguma forma sentados no banco da Praça da Alegria, estreado por Manoel da Nóbrega na Record em 1957, foram feitos com tamanha originalidade e inteligência.

Tati e Seu Creysson são duas boas exceções num momento sem grandes novidades no humor televisivo. Hermes e Renato, a única aposta no gênero feita pela moderninha MTV, é um fiasco absoluto na tentativa de fazer rir com escatologia, grosseria e nonsense adolescente. A fórmula é radical e atraente. Mas falta talento. Não acertam em nenhum dos três quesitos. Zorra Total e A Praça é Nossa continuam abrindo os velhos almanaques e reciclando piadas que Haroldo Barbosa, segundo críticas de Antônio Maria, já reescrevia dos livros ingleses nos humorísticos da Mayrink Veiga. Vige ainda a fórmula de sempre: gays tremelicam, gostosonas arrebitam – e a miséria cultural brasileira ri amarelo em casa. O futuro é de risco. Pode ser que um governo petista iniba o riso sobre os fracassados sociais e atravanque ainda mais o processo criativo. O Lulinha paz e amor promete emprego e justiça social. Mas ninguém sabe até onde o barbudo enfezado da porta dos sindicatos vai inspirar o riso do politicamente incorreto.

Há dez anos na Rede Globo, a turma do Casseta e Planeta vem enfileirando um trenzinho – uêpa! – de personagens de sucesso. Debocha-se, avacalha-se. Zombam da fé, os insensatos. Com paciência, inteligência e uma média de riso espetacular, os sete humoristas da trupê vão arreganhando com muito duplo sentido os limites do permitido numa grande rede. Graças a eles hoje é permitido gozar na cara – uêpa! – até dos programas globais. No caso das Organizações Capivara do ?seu? Creysson a paródia é com o próprio Casseta. Elas surgiram para rivalizar com as Organizações Tabajara, empresa fictícia de televendas que anuncia (?Seus problemas acabaram!?) produtos como o Gay Dissimulator Tabajara, um revolucionário aparelho que conserta munhecas para você não dar bandeira. Os produtos de seu Creysson, que vem acompanhado do plus a mais de se expressar num português todo seu, não são muito diferentes, mas são mais baratos (?Eu garântio!?). O Quiti di Prástica Populá, adquirido pela mãe de Tati, é um aspirador de pó que chupa as banhas da véia e joga num rolo de filme de prástico, daqueles que embrulham alimentios.

O quadro de Heloísa Perissé ocupa cinco minutos do Fantástico e está no ar há três anos, desde que estreou na Escolinha do Professor Raimundo. Passou pelo teatro também e é um dos responsáveis pelo arrasa quarteirão da peça Cócegas. Tati só pode ser feita por Heloísa. A atriz captou todos os tiques da adolescente moderna, um ser que coloca na expressão facial todo o vocabulário que lhe falta. Assim como o seu Creysson, ela também vai tentando adaptar a língua portuguesa ao seu jeito de viver. As vírgulas, por exemplo, foram todas substituídas pela expressão ?tipo assim?. No resto do texto, que na televisão é escrito por Bruno Mazzeo, Taty vai encaixando ?caraca?, ?maneiro?, ?sabe como?. ?Cara, eu amo muito o Lovely Beautiful?, disse no programa de domingo, ?é uma coisa tipo assim, sabe como?, de vidas passadas.?

Os dois personagens não usam piadas velhas, inclusive porque não usam piada alguma. Taty joga parte do seu charme na observação do comportamento dos adolescentes, no ridículo que é ter a mãe ao lado, pagando mico, aos gritos, tiete alucinada, no mesmo show do Lovely Beautiful em que ela está com as amigas. São personagens que exigem informação anterior, sabe como? para se tornarem mais engraçados. Seu Creysson também é cheio de referências. Só é aconselhado para quem já perdeu horas observando os anúncios de tele-vendas e, ao final, ao invés de pegar o telefone e ligar para o 0300 anunciado, pega um copo d?água para aliviar o frouxo de riso. Eu ?agarântio?.”

“Fenômeno Casseta ultrapassa a tela”, copyright O Estado de S. Paulo, 29/09/02

“Não existe na história da TV um programa que tenha influenciado tanto a cena brasileira quanto o Casseta & Planeta Urgente! neste momento.

No futebol, torcedores do Palmeiras – último no campeonato brasileiro – ?xingam? o time de ?Tabajara? ao final de cada derrota comparando-o ao desastrado time do Casseta, cujo centroavante é uma vaca.

Na TV, uma operadora de telefonia imita os comerciais da marca Tabajara – aqueles que sempre terminam com o bordão: ?Seus problemas acabaram!? – para vender o seu serviço.

Nas ruas, o assunto preferido de nove entre dez engraçadinhos é o candidato Seu Creysson, personagem do casseta Cláudio Manuel. Cara de pobre (barrigudo, com dentes escurecidos como noivos de festa junina), o candidato faz campanha tropeçando na língua portuguesa, tanto no discurso quanto nos slogans. ?Agória ficou fássiu falar que nem que eu fálio!!!?, diz a propaganda do candidato no site da Globo: ?Chegou o çençacionau Tradutôrio do Seu Creysson!!!? O site também vende (de verdade) camisetas do candidato à Presidência pelo Partido Çossial do Seu Cleysson.

Dessa maneira, o Casseta & Planeta é o único programa a colher dividendos nessa época – atípica – de horário político obrigatório. Para aproveitar a sensação do momento, os cassetas propuseram e a Globo topou levar o personagem para a vida real. Sexta-feira, o Seu Creysson estrelou um showmício e uma carreata no centro de São Paulo, para o qual a Central Globo de Comunicação abriu um serviço de credenciamento de jornalistas e fotógrafos.

Esse prestígio a turma do Casseta só conseguiu mostrando serviço. Há mais de um ano ela combate com sucesso o Show do Milhão, de Silvio Santos, à custa de um público fiel. Mantém uma média entre 28 e 30 pontos no Ibope (na Grande São Paulo) contra 22 e 24, do SBT. Até Chico Anysio, enciumadíssimo e beligerante quando Bussunda e seus amigos eram citados como a ?nova vertente do humor?, rendeu-se ao programa e aceitou integrar a trupe por uma edição.

A crítica política sempre fez parte do repertório do programa. Às vezes, eram meio sem graça. As piadas sobre o ex-presidente Itamar Franco valiam mais pela caracterização do Reynaldo do que pelo texto. Mas, nestas eleições gerais, a campanha tornou-se o grande diferencial. E o Seu Creysson é o emblema dessa nova popularidade. Mas a idéia de bancar um candidato fictício não é nova.

Em 1959, o jornalista Itaboraí Martins – desencantado com os políticos – lançou o rinoceronte Cacareco, hóspede do Jardim Zoológico de São Paulo, candidato a uma vaga na Câmara Municipal. Naquela São Paulo antiga, o animal recebeu mais de 100 mil votos. Façanha essa que Seu Creysson está impedido de repetir, visto que o advento da urna eletrônica veta ao eleitor o direito de manuscrever o voto.

Um problema para o Seu Creysson tratar em sua ?platafórmia?.”

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