Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > PRESENÇA DE ANITA

Eugênio Bucci

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

PRESENÇA DE ANITA

"Presença de Anita, a minissérie da Globo que estreou na noite de terça-feira, não é recomendável para menores de 16 anos. É o que nos avisa o carimbo no canto inferior esquerdo da tela da TV, enquanto a trama avança. É uma trama veloz, agressiva, picante. Anita parece ter 16 anos. Talvez tenha um pouquinho mais. Ou seja: Anita não é recomendável para a sua própria faixa etária; é recomendável para homens de 50 anos. Ou um pouquinho menos. Ela vai seduzir um arquiteto-escritor 30 anos mais velho que ela. E tudo em volta promete pegar fogo. A começar pela audiência. ??Ela vai mexer com você??, aposta o slogan da Globo. O slogan é um tanto explícito demais, quase deseducado; esse verbo, ??mexer??, empregado num contexto assim libidinoso, parece quase genital. Não obstante, o slogan pode estar certo. A julgar pelo primeiro capítulo, Presença de Anita tem chance de ser, de fato, um sucesso incendiário.

Vai caindo, assim, mais um tabu da ficção de TV no Brasil: mostrar a adolescente na condição de usina sexual. Garotas sensuais sempre existiram em novelas, por certo, mas não com o atrevimento e a centralidade dessa tal Anita. A iniciativa erótica foi quase sempre um monopólio da mulher adulta. Um monopólio e um lugar-comum. O que quer uma mulher? Os psicanalistas não sabem responder direito essa pergunta mas, para as novelas, isso nunca foi um enigma. Ao contrário, elas vivem de inventar e reinventar soluções para essa mesma indagação. Há as respostas cor-de-rosa: uma mulher quer se casar com o mocinho (Regina Duarte, primeira fase). Há as versões venenosas: uma mulher quer se vingar dos homens que a desprezaram – nada mais poderoso e avassalador que o ressentimento feminino (Cássia Kiss em Porto dos Milagres). Há as leituras realistas: uma mulher quer um papel na novela das oito (nada mais fácil do que decifrar os desejos de Vera Fischer). As trágicas: uma mulher quer morrer para nos intrigar (quem matou Odete Roitman?). As cômicas: uma mulher quer fazer pirraça aos que com ela tenham a ousadia de contracenar (Regina Duarte, segunda fase). Uma mulher quer qualquer coisa nos melodramas da TV brasileira. Isso jamais foi problema. O problema era responder outra pergunta: o que quer uma adolescente, além de aporrinhar o pai? Presença de Anita parece ter vindo para anunciar que uma adolescente quer tudo o que quer uma balzaquiana, mas quer mais: quer tudo sem medidas, sem limites, sem princípios.

A queda desse pequeno tabu pode ser um sinal de modernização da ficção de TV no Brasil. Modernização não é um bom termo. Melhor talvez seja dizer atualização. Explico-me: com essa protagonista que é ao mesmo tempo teen, fatal e vampira, coisa impensável há poucos anos, a teleficção brasileira incorpora uma tendência cada vez mais forte na indústria internacional do entretenimento, que é a do culto das teens fatais. A propósito, a balzaquiana entrou em declínio. Caiu em desprestígio no mundo todo. Senhoras de 60 anos querem ter rosto de 25, e a cabeça de 15. Ou melhor: só querem ter um rosto de 25 porque já têm a cabeça de 15. A balzaquiana ficou por demais complexa para uma civilização que anda obcecada por fórmulas simplificadoras. A balzaquiana tem consciência moral, prima pela ambigüidade, tem maturidade e, ainda por cima, uma certa educação dos sentidos. Entre o desejo e o ato, tece teias labirínticas – e justamente aí repousa o seu encanto, seu mistério e seus prazeres personalíssimos. Definitivamente, a balzaquiana virou uma chata para o público esfomeado e pouco sutil. Já uma adolescente é outra constelação, quer dizer, é uma outra constelação segundo os filmes de Hollywood e as musas teen do show business. Desenha-se uma adolescente nos nossos dias como no século 16 se desenhavam os homens primitivos do Eldorado: seres que ainda não foram tocados pelas inibições da cultura, seres puros, libertos e vigorosos. O que pode haver de mais melodramático?

Por baixo dessa representação toda, desse romantismo carnal tardio, há um sentido ideológico que merece ser registrado. A adolescente fêmea é uma figura imprescindível no entretenimento contemporâneo. É como a heroína carregando a bandeira num quadro de Delacroix – mas a bandeira, agora, já não simboliza a revolução, e sim o próprio espírito do capitalismo selvagem high-tech. A adolescente fêmea, no cio, é a anima do capital. Por isso ela tende a aparecer, e muito. Dizem que o cinema americano é muito adolescente. Mas como não seria? Feito para platéias adolescentes, com atrizes adolescentes e tramas adolescentes, como é que o cinema americano poderia ser mais… adulto? É justamente por ser adolescente que ele consegue se manter uma síntese do nosso tempo, ao lado dos videogames e os grupos de ?rockn ruim?. A pubescência priápica e sem freio é o estado de alma da economia globalizada. É o estado de alma de muitas das atitudes de George W. Bush, que, por sinal, é a versão adolescente daquilo que foi o pai (e este, por sua vez, nem era tão maduro assim, por mais senil que fosse). É como se o mundo, a História, as massas tivessem entrado numa puberdade sem saída. As mães reclamam que suas filhas entram na adolescência cada vez mais cedo. As filhas reclamam que suas avós saem da adolescência cada vez mais tarde. Somos uma civilização que adolesce vertiginosamente. Não reconhecemos, mas somos. Como a Anita da Rede Globo, temos uma certa dificuldade com limites, com medidas e com princípios. Não gostamos de mediações. Gostamos é de ninfetas.

Como nós gostamos de ninfetas. Antes, pobrezinhas, elas eram objeto de olhares furtivos, clandestinos, proscritos. Agora, são a regra. Lewis Carroll disfarçava seu amor pelas ninfetas elaborando aventuras cifradas para sua Alice em países maravilhosos. Nabokov inventou Lolita, inocente e má. Ainda me lembro da expressão de pânico no semblante de James Mason no filme de Kubrick, de 1962. O amor por uma garota lhe desgraçou a existência. O mundo o puniu. Eu me lembro do sofrimento silencioso do fotógrafo de Pretty Baby, de 1978. Em todos esses instantes, com gradações variadas, a adolescência era um rito de passagem que não podia ser profanado sem punição. Hoje, houve um abrandamento das punições. A adolescência, agora, é o ideal de felicidade, é o estado da arte, é a idade penal. Adolescentes vão para a cadeia nos EUA. E vão para a cama pelo mundo afora.

Presença de Anita promete ser emocionante. Ao menos estão aí, postos, os ingredientes para que assim seja. Tabus em frangalhos, sexo insurreto e, acima de tudo, uma protagonista demolidoramente linda e paradoxal: Anita é desaconselhável aos telespectadores com menos de 16 anos, pois estes ainda são relativamente infantis, como ela também é, e irresistível a todos os outros, pois estes estão se tornando escravos da adolescência dos instintos, como ela também está."

"Existe um Olimpo na Globo freqüentado apenas por atores, diretores e novelistas eleitos e cobiçado pelos que ambicionam mostrar ao mundo que caíram nas graças dos deuses. Ele fica localizado na faixa das 10, mesmo que acabe sendo mostrado mais tarde, às vezes, bem mais tarde. É o reduto da produção artesanal das séries e minisséries, que sempre acaba contraposta à massacrante indústria das telenovelas.

Melhor elaborados e mais caros, esses produtos de ficção são poucos na programação, por isso acabam sendo supervalorizados pela emissora e pela imprensa. Há meses, a última minissérie do ano, Presença de Anita, de Manoel Carlos, vem sendo assunto de jornais e revistas. E tem de ser mesmo, porque as minisséries representam um esforço concentrado da nata da TV para levar ao público entretenimento um pouquinho mais sofisticado do que o das tramas de linha.

Presença de Anita chama a atenção pelo tom perverso. Inspirada ?livremente? (como os créditos fazem questão de deixar claro ao espectador) no romance de Mário Donato, a minissérie trata de tédio, paixão e crime. O motor desse turbilhão é Anita (Mel Lisboa), uma adolescente que leva os homens – jovens e madurões – à loucura. Nada que não tenha sido mostrado na Globo no horário.

A Engraçadinha, de Nélson Rodrigues, estrelada por Alessandra Negrini e Cláudia Raia e dirigida pela premiada Denise Saraceni, tinha um perfil muito pr&ooacute;ximo ao de Anita. A TV se dá bem com o universo rodriguiano, que também inspirou a série A Vida como Ela É. Isso talvez influencie os profissionais da TV quando ao assunto envolve sexo e morbidez. Sente-se claramente a presença de Nélson Rodrigues na narrativa. Especialmente nas cenas de impacto, como aquela em que ela dança seminua pelo quarto (para deleite do velho e do garoto que a espionam) ou em que abre a toalha para mostrar o corpo para o menino. A atração e repulsa que a personagem de Vera Holtz sente pelo empregado negro também remete a Rodrigues.

O problema é que a minissérie não é um Nélson Rodrigues legítimo. Os diálogos são meio capengas e artificiais, como a discussão de Nando com o sogro (Lineu Dias): o velho discorre sobre o papel feminino (?o avental é o traje ideal de uma mulher?) é chamado de ignorante pelo genro. A reação é quase didática: ?Nunca gostei desse sujeito?, diz o sogro depois de acusar Nando de viver à custa da mulher (Helena Ranaldi). Pode ser mal de começo (dela e da minissérie), mas a interpretação da protagonista é desastrosa:

diz suas falas como uma escolar declamando poesia.

O tormento existencial do personagem de José Mayer, como diria Nélson Rodrigues, tem ?a profundidade de um pires?, por isso precisa ser ilustrado continuamente por lufadas de fumaça do cigarro, por uma contemplação de clichê e uma grossura que nem o Pedro, seu personagem-gêmeo de Laços de Família, seria capaz."

 

    
    
                     

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