Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > IMPRENSA E GOVERNO

Evandro Éboli

Por lgarcia em 22/01/2003 na edição 208

IMPRENSA E GOVERNO

“PT faz manual para lidar com jornalistas”, copyright O Globo, 20/1/03

“O PT criou o ?Manual do deputado petista 2003” para orientar sua bancada, a maior na próxima legislatura, a lidar com a imprensa. São sugestões para facilitar o acesso aos meios de comunicação e conselhos para fugir de armadilhas que podem surgir na relação com jornalistas. As orientações são chamadas no texto, de 68 páginas, de arsenal petista.

O manual recomenda que um deputado evite circular sem necessidade no comitê de imprensa; que fale pouco com a imprensa; e que desista de aparecer na TV, que, segundo o texto, prefere os deputados mais conhecidos da opinião pública.

A cartilha ensina, por exemplo, o melhor momento para o deputado falar com o jornalista em on (informação que cita a fonte) ou em off (quando a fonte é preservada). ?Mesmo quando se trata de uma conversa descontraída e amistosa, o deputado nunca deve deixar de alertar sobre o off”, afirma o texto.

Segundo o texto, o deputado deve facilitar sua localização, fornecendo os números de seus telefones. ?Nunca deixe de retornar as ligações. Não é exagero dizer que em cinco minutos ele pode ser substituído por outro numa entrevista”, diz o texto.

O manual indica os melhores horários para entrevistas coletivas: entre 10h e 10h30m e entre 15h e 16h. E apresenta as colunas de jornais e revistas como o alvo número um a ser atingido pelos deputados. ?As notas têm elevado índice de leitura”, diz o texto. Explorar a ?Voz do Brasil” é outra sugestão. São 20 minutos diários de noticiário da Câmara. O PT estima que o programa tenha 20 milhões de ouvintes.

O texto explica que o parlamentar tem direito a passagens aéreas, auxílio-moradia, cota mensal de correio, telefone, fax e xerox. E recomenda que o parlamentar, assim que assumir, faça seu passaporte diplomático.

Produzido por jornalistas do PT, o manual também oferece sua avaliação da relação entre imprensa e parlamentar. ?Não existe informação neutra ou imparcial. É preciso cuidado para evitar que a declaração possa ser utilizada num contexto diferente. A regra é falar pouco?.

As sugestões do manual

DISQUE-DEPUTADO: O deputado não deve demorar mais que cinco minutos para retornar a ligação de um jornalista. Se demorar, o repórter liga para outro parlamentar.

COMITÊ DE IMPRENSA: O deputado deve evitar circular no comitê de imprensa da Câmara e deixar esse papel para seu assessor de imprensa.

HORÁRIO IDEAL: O manual informa horários de fechamento de jornais, rádios e emissoras de TV.

ENTREVISTA COLETIVA: O horário ideal é entre 10h e 10h30m ou entre 15h e 16h. O manual sugere que o parlamentar não marque coletiva se há um grande assunto em evidência.

NOTINHAS EM COLUNAS: Segundo o documento, as colunas de notas têm elevado índice de leitura em jornais e revistas e são produzidas a partir de conversas abertas ou em off com repórteres.

ON E OFF: No on, revela-se a fonte; no off, a fonte é preservada. Segundo o manual, a regra é evitar o off para mais de um repórter.

JORNALISTAS-DOUTORES: São os que já vêm com a tese pronta. O PT recomenda paciência e persistência para derrubar seus argumentos.

BOCA FECHADA: A recomendação é falar pouco.

ENFOQUE NEGATIVO: Para o PT a imprensa separa o trigo e publica o joio.”

“A moldura”, copyright Agência Carta Maior <www.agenciacartamaior.uol.com.br/>, 13/1/2003

“A mídia de oposição ao governo Lula está tendo que desenvolver uma nova linguagem. Antes era mais fácil: bastava desqualificar o PT como um todo. Agora a desqualificação precisa ser seletiva, numa espécie de tática do dividir para reinar. O fio condutor desta nova linguagem é fazer colar em parte da administração, sobretudo aquela afeita à área econômica, adjetivos como ?realista?, ?pragmático?, ?maduro?, e substantivos como ?reforma?, ?revisão?, além de uma interpretação particular do termo ?mudança?, proposto por Lula como palavra-chave em seu discurso de posse perante o Congresso. Trata-se no fundo de traduzir ?mudança? como ?continuidade?, construindo a retórica antecipada de que o que houver de acerto no governo Lula vem do aprofundamento de políticas iniciadas no governo anterior. O que houver de erro virá do ?petismo?, das crenças antigas do partido que a nova face pragmática não conseguir neutralizar. O ?petismo? ficará associado a ?trapalhadas?, a ?reinvenção da roda?, ?demagogia?, e assim por diante. Estamos assistindo, assim, a um primeiro embate de uma batalha ideológica cujo objetivo será o de transformar o governo Lula num episódio, não num patamar verdadeiramente reformador da sociedade. Tudo vai passar por esta ótica, de cultura e educação à política internacional e até mesmo à economia, quando chegar a hora.

O caso do professor

Dentro desta ótica, chama a atenção o caso da indicação pelo ministro Cristovam Buarque do professor Otaviano Helene, da USP, para o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. O Inep é o responsável pela realização das provas de avaliação das universidades (o Provão) e do ensino médio (Enem). O Provão é obrigatório, mas vem sendo contestado e até boicotado por organizações estudantis; o Enem é de adesão voluntária por parte das escolas. Mas o Inep também tem sob seu encargo a coleta de dados referentes ao ensino no Brasil: ele, em suma, é que traça o perfil, a radiografia, das condições de ensino no país.

A reação do jornal O Estado de São Paulo foi imediata e violenta. A indicação foi divulgada na imprensa escrita no dia 8/01, quarta-feira. No dia 9, quinta, o Estadão publicou virulento editorial dizendo que a nomeação de alguém com o perfil do professor Otaviano punha em risco o Provão e a própria idéia de avaliação do ensino. Por quê? Porque o professor Otaviano era um ?sindicalista?, membro da Adusp, a Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (hoje seção sindical do Sindicato Nacional, Andes-SN) e, como tal, sempre se opusera a processos de avaliação. O Jornal da Tarde repicou editorial de teor semelhante em 10/01, declarando também que o professor Otaviano era ?petista?.

Na seqüência, o Estadão publicou entrevistas com a presidente anterior do Inep, Profa. Maria Helena Guimarães de Castro (que não comentou a indicação do prof. Otaviano, mas fez críticas a posições do ministro Buarque, o que é do seu direito). E coroou sua intervenção no caso relembrando-o no editorial do domingo (12/01), dedicado a demonstrar que a maturidade dos ministros do ?núcleo duro? do governo não tem eco em vários dos demais. Na abertura, insistia o editorial: ?No editorial de quinta-feira, em que comentamos as ameaças à sobrevivência do Provão – pois a instituição que faz o levantamento da qualidade do ensino brasileiro será dirigida por um líder sindical que sempre se opôs à realização da avaliação, alertamos para a disparidade que é marca do novo governo(…)?. Quer dizer, na retórica deste ideário, juntando-se os dois jornais, ?sindicato? e ?PT? desqualificam liminarmente uma pessoa para dirigir o Inep.

Quem é o professor Otaviano

Este caso é muito importante, por tratar-se do Estadão, jornal que tem a fama de fazer uma cobertura jornalística abrangente, reservando suas opiniões conservadoras para o campo editorial. Em nenhum momento deste caso, no entanto, houve qualquer abrangência para esclarecer afinal quem é o professor Otaviano, e como foi parar onde foi parar. O jornal reagiu a bala: a pecha e a retórica do linchamento bastaram.

O professor Otaviano Helene é professor do Instituto de Física da USP e na sua área tem reconhecimento nacional e internacional. É sindicalista, sim; foi vice-presidente e presidente da ?famigerada? Adusp, instituição que já deu notável contribuição para democratizar e defender a universidade, contribuindo, por exemplo, para eliminar a triagem ideológica de professores que se fazia na reitoria da universidade – em conseqüência, aliás, de regime político que teve inicialmente o apoio desabrido do jornal. Como tal, o professor Otaviano tornou-se uma das maiores autoridades no país em coleta de dados e informa&cccedil;ões sobre o ensino, sobre aplicação de dinheiro público em educação, etc. É um dos que se vem batendo para que o Brasil faça essa coleta de acordo com a metodologia recomendada pela Unesco e adotada na grande maioria dos países organizados do mundo.

Vamos a um exemplo. O Congresso votou, recentemente, que o Brasil deveria atingir a meta de aplicação de 7% do PIB em educação, considerando-se as fontes públicas de investimento (governos, prefeituras, etc.), o que foi vetado pelo presidente anterior. De acordo com as estatísticas promulgadas, o Brasil investiria entre 5% e 6% do PIB. Entretanto, a Unesco recomenda que nesses números não sejam computados gastos com construção de prédios, estradas de acesso, hospitais universitários, previdenciários e outros cuja finalidade não seja exclusivamente educacional. Expurgando-se esses itens da informação brasileira, o índice cai para um montante inferior a 4% do PIB. Ou seja, traduzindo-se: a nomeação de alguém como o Professor Otaviano para o Inep será garantia de que a coleta de dados durante o governo Lula será feita de acordo com padrões reconhecidos internacionalmente e também de que não haverá maquiagens metodológicas. Além disso, o professor já declarou repetidas vezes que é a favor de avaliações, sim, e que deseja aprimorar as atuais, inclusive o Provão e o Enem. Mas veja só, por ?sindicalismo? e por ?petismo?, aquelas máculas que o governo Lula traz do berço, o ?aprimoramento? desejado pelo professor deve ser lido como ?liqüidação?.

Um pouco de história

A reação virulenta do Estadão tem uma explicação recente (o embate com o governo Lula, cuja visão estratégica vai se delineando) e outra remota (a USP e suas origens). O Estadão tem uma ligação umbilical com a universidade e isto, diga-se de passagem, tem sua razão de ser. A Cidade Universitária leva o nome de Armando Salles de Oliveira, que assinou o decreto de criação da USP. Mas há quem diga até que ela devia levar o nome de Júlio de Mesquita Filho, pois ele e Fernando de Azevedo foram de fato os mentores intelectuais da criação da universidade que revolucionou o ensino superior no país. Mas parece que o jornal não consegue superar o trauma de ter visto o centro nervoso da nova universidade – a então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – tornar-se uma das principais fontes do pensamento radical no país (conforme até mesmo a máxima do Millôr, ?livre pensar é só pensar?), nem o de ver a USP abrigar a associação de seus professores em defesa legítima de seus interesses, e que atua, com outras instâncias, em favor da democracia e da própria universidade. Da mistura explosiva destes dois condimentos saiu o editorial. Mas a moldura que ele prenuncia para o governo Lula nada promete de bom. E que não haja ilusões: mais cedo ou mais tarde todo o governo Lula, inclusive sua equipe econômica, será enquadrado na devida moldura.”

“Propaganda vive ?onda governista?”, Folha de S.Paulo, 15/1/03

“?Mãe, o novo presidente vai deixar todo mundo rico??, pergunta o menino, no comercial de uma rede de supermercados.

Todo mundo não, poderia responder a atriz da campanha, mas a depender da aposta dos publicitários no carisma de Luiz Inácio Lula da Silva para vender, vai ter muito empresário se arrependendo de não ter votado no presidente desde os tempos mais aguerridos de 1989. Ele e o PT vêm dando o mote de vários comerciais, de Toddy no varejo do supermercado a ?curso universitário em apenas dois anos?.

A mãe -no comercial-, ciente da necessidade de conter ?as ansiedades sociais? do rapazote, responde, enquanto cata feijão, que rico, não, o presidente não vai nos deixar. Vai é ?lutar por mais emprego, vai todo mundo ganhar dinheiro para comprar roupa, comida…?.

?Mas não precisa de dinheiro…?, insinua o filho. ?Lá no [supermercado] Extra, usa o cartão?, afirma, parecendo ter acompanhado o debate sobre a forma de distribuir o benefício do programa Fome Zero.

O ?governismo? publicitário não serve só para as vendas no varejo. A Citroën do Brasil criou uma série especial do carro de luxo Xsara Picasso: a Étoile (que além de estrela, em francês, é também vermelha). Vem com banco de couro, toca-CD e rodas de liga leve para o conforto do petista light; tudo por R$ 42.990.

A série limitada, apesar do nome e da campanha publicitária, não expressa apoio político ao PT, diz a gerente de publicidade da Citroën, Cristina Britto. Que também não teme perder clientes entre os eleitores do candidato derrotado à Presidência José Serra (PSDB). ?Fizemos pesquisas e os eleitores do Serra não conseguiram associar [a série Étoile] com o fato de ser PT. Gostaram do apelo, do carro, e não ligaram com o partido.?

A ?carona? na suposta perseverança do candidato três vezes derrotado à Presidência é usada pelos publicitários como elemento de identificação com o público. Um anúncio de jornal no dia da posse incitava: ?Hoje Lula realiza um sonho. Amanhã pode ser você?. Outro: ?Lição de 2002 para a vida toda: nunca deixe de acreditar nos seus sonhos.? (Rafael Cariello)”

“Arte de falar mal”, copyright no mínimo <www.nominimo.com.br>, 14 de janeiro de 2003

“De um leitor ou leitora que se assina ?hk?, recebi o seguinte e-mail: ?A intenção desta é solicitar a gentileza de brindar a nós, seus leitores, com uma crônica ilustrada com fotos de sua sobrinha Thaís Ventura. Um abraço.? Brindaria com o maior prazer, hk, se a Thais fosse minha sobrinha ou se pelo menos eu soubesse quem é.

Ia encerrar essa história assim, mas achei que devia tomar alguma providência, não podia ficar por fora, passar por desatualizado. Entrei então num site de busca para tentar conhecer a minha mais nova parente. Aí vi o que estava perdendo. Minha ?sobrinha? é um morenaça, um avião que posou para a última capa de Playboy. Ela aparece abraçada a um dos 16 ursinhos de pelúcia que possui, num ambiente cor-de-rosa. Um texto muito elucidativo, como vocês verão, explica: ?O ano começou bem para os fãs que enlouqueceram com o jeitinho de Thaís Ventura no Big Brother 2?.

Quer dizer que era daí que eu a conhecia! O rosto não me parecia estranho, o corpo também não, se é que se pode falar assim sem ser mal interpretado. Havia mais informações: ?A morena, que fez babar marmanjos de todas as idades, é a estrela da edição desse mês da revista Playboy?. O texto falava também em ?estilo Lolita? e dizia que ?vários homens gostariam de se transformar naqueles ursinhos?. Terminava com as impressões de Thaís sobre a responsabilidade de posar nua: ?Passei por um processo de insônia, nervosismo à flor da pele?.

O que eu poderia acrescentar a essa literatura? Além do mais, vinha de um fim de semana em Petrópolis, onde estive durante o temporal que matou 17 pessoas e fez os estragos que a televisão mostrou: casas destruídas, famílias desabrigadas, lama nas ruas. Eu subira a serra com minha mulher para ver o espetáculo ?Som e luz? no Museu Imperial, a convite dos amigos Vera Flexa Ribeiro e Luiz Garcia, que já tinham visto e adorado. Por causa de problemas técnicos, porém, houve luz mas não houve som. Assim, mal começou a história, em 1864, tivemos que voltar para casa, abandonando D. Pedro II e toda a corte ao silêncio e à própria sorte.

Os organizadores prometeram reparar o defeito em 40 minutos, mas não quisemos arriscar. Pegamos nosso dinheiro de volta e fomos tomar um banho de piscina, sem desconfiar que aquele inusitado calor à noite não era um bom sinal. Acho que o temporal caiu um pouco antes da meia noite, quando estávamos discutindo a atitude da imprensa nesses dez primeiros dias de governo Lula. Eu provocava meu amigo, comentando um artigo recente em que ele teve a maior dificuldade de falar bem do ministério que acabava de se formar: ele queria, se esforçava, mas relutava, quase pedia desculpas.

Ele concordou com as observações, e chegamos à conclusão de que a gente, os jornalistas, se sente mais à vontade criticando, falando mal. Isso por obrigação, índole e vocação, mas também por razões históricas. Durante a ditadura, a imprensa foi obrigada pela censura a tratar bem o governo, a elogiar, a mostrar um país como o quarto da Thaís, todo cor-de-rosa. Com a redemocratização, tivemos que fazer um custoso aprendizado. Da mesma maneira que foi difícil pegar de volta os símbolos nacionais que haviam sido apropriados pelos militares _ cantar o Hino e desfraldar a Bandeira viraram moda cívica só após a ditadura _ não tem sido fácil para nós encontrar o equilíbrio entre a nossa missão fundamental, que é apurar, fiscalizar, cobrar os erros, e o dever de reconhecer também os acertos.

A visão negativa nos tenta mais. O caso Lula é um bom exemplo. É evidente que a imprensa, cansada dessa incômoda lua-de-mel com ele, está doida para baixar o pau. Já se ouve entre colegas uma espécie de ?chega!? que daqui a pouco vai para as páginas dos jornais com todas as letras. ?Ele tá badalando demais?, ?tá falando besteira?, ?só pensa em aparecer na mídia?, ?tá prometendo em vez de realizar?. É como se já fosse a hora da cobrança. Já se lêem balanços do governo Lula _ balanço de dez dias de governo!

De qualquer maneira, mesmo admitindo que seja cedo para cobranças definitivas, não acho que seja nociva essa atitude da imprensa, ainda que prematura e excessivamente exigente. Para a democracia, seria melhor que houvesse o equilíbrio, mas o excesso ainda é melhor do que a escassez. Recomenda-se que o novo governo se habitue com isso, até porque, quando estava na oposição, ou seja, quando não era vidraça, o PT adorava as pedras, às vezes até demais.

Em tempo: o temporal que desabou sobre Petrópolis foi uma fatalidade, mas seus efeitos não, podiam ser evitados. Em 2001, em conseqüência de chuvas parecidas, 50 pessoas também morreram soterradas. O prefeito de lá precisa fazer alguma coisa, quando nada para honrar o nome. Numa ironia de mau gosto, ele se chama Bomtempo. Rubens Bomtempo.”

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