Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > DAVOS-PORTO ALEGRE

Evento e antievento: a fabricação do barulho

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

DAVOS-PORTO ALEGRE

Era uma estância alpina para o tratamento de tuberculose. Lá Thomas Mann ambientou a sua Montanha Mágica, espécie de arena onde a burguesia enfrentava o bacilo de Koch e elocubrava sobre a vida e a morte.

Com os antibióticos, a TB deixou as grandes altitudes e começou a ser tratada na planície, nos trópicos, nas favelas e no litoral. Davos converteu-se no point de seleto clube de esquiadores. Para garantir a ocupação da rede hoteleira nos invernos com pouca neve, inventou-se um grande evento anual onde o jet set internacional poderia, durante alguns dias, ocupar-se de coisas transcendentais e justificar um prolongamento das férias.

O World Economic Forum é um empreendimento comercial. E muito lucrativo. Tanto assim que há poucos anos foi alvo de uma acirrada disputa entre empresas promotoras de eventos. Não é um congresso, não tem legitimidade nem representatividade. Não tem poderes, não tem debates. É uma invenção para produzir ruído, ecos e repercussão.

A agenda é aleatória, voltada para produzir resultados. Isto é, barulho. Vai quem tem dinheiro para pagar a inscrição e fala quem tem conexões políticas para impor-se como palestrante. É um foro de privilegiados e freqüentado por aqueles que precisam aparecer. Ou são pagos para aparecer.

Davos é um dos emblemas da Sociedade de Espetáculos. Convescote de inverno europeu para forjar celebridades. Truque para sustentar a teoria dos multiplicação de opiniões.

Até o ano passado Davos não tinha a menor importância para os grandes veículos internacionais. No Brasil, matriz da badalação e dos badulaques, Davos vem ganhando importância nos últimos três anos porque há uma mídia vocacionada para o alvoroço.

Incapaz de desenvolver um trabalho regular e contínuo, nossa imprensa precisa desses espasmos e orgasmos onde, em poucos dias e a baixo custo, produzem-se duas dúzias de declarações de gente nem sempre sóbria, garante-se uma sucessão de manchetes aspeadas e, sobretudo, oferece-se aos leitores a sensação de que estão por dentro de um grande acontecimemento. Que, dias depois, evapora-se completamente do noticiário.

Justiça seja feita: quem inventou Davos no Brasil foi a Folha de S.Paulo, que nos últimos anos tomou conta do assunto. Despacha para a estância de esqui aquele profissional de confiança, capaz de encher três ou quatro páginas diárias com declarações de grandes empresários, gurus do momento, estrelas ascendentes e cadentes do mundo da grana e da academia (o que vem dar no mesmo).

Para uma avaliação do que tem sido a cobertura de Davos pela imprensa brasileira, veja o que este Observatório publicou nos últimos anos [remissões abaixo].

Em 2001, Davos ganhou alguma ressonância além da Alameda Barão de Limeira em função do Efeito Seattle – posteriormente reproduzido em Nice e, agora, encorpado com o Davos Anti-Davos de Porto Alegre, o evento antievento neste mundo de eventualidades e pirotecnias.

A este observador, neste Observatório, não interessa a discussão sobre globalização e neoliberalismo que se estende ao longo do eixo Guaíba-Alpes suíços. O assunto é rico mas nosso foco, como sempre, é o desempenho da mídia. Que, no caso, está sendo usada para promover um coquetel ideológico digno dos Irmãos Marx.

George Soros falando sobre a necessidade de controle o fluxo dos capitais ou Lula abraçando o "camponês" José Bové são exemplos do desnorteamento que impera na mídia de massas – e que só serve para tornar as massas mais apáticas e despolitizadas. Armani hoje não é grife, é linha política; e quem conseguiu este milagre foram os mediadores que antigamente chamavam-se jornalistas.

O pequeno fazendeiro Bové, apesar da façanha de entrar com o seu trator num franchise do McDonald’s, na França, nada tem de esquerdista ou mesmo progressista. Não é camponês, é um médio proprietário rural que, como todos os da Europa ocidental, estão muito bem de vida e são reacionaríssimos. Em Portugal, o Bové local era monarquista e ferrenho anticomunista (morreu tragicamente há poucos anos). Vivem, esses "camponeses", de gordos subsídios governamentais (inclusive para manter o patrimônio paisagístico) e não estão minimamente interessados no problema da fome, do desemprego urbano ou dos imigrantes. Agricultura para os neocamponeses europeus é tradição – por isso são geralmente conservadores. Para eles agricultura não é processo econômico ou distribuição de riquezas. Ou inclusão social. É símbolo da propriedade privada.

Bové não gosta de hambúrgueres (no que faz muito bem) e, agora, está contra os transgênicos (despreocupado com o problema da fome na África ou na Índia). E como a direita na França está conquistando sindicatos e corporações, o "camponês" Bové monta na garupa do MST para ganhar manchetes na sua terra natal. Coisas da globalização da idiotice. Ou da ruína das ideologias.

Patético foi o comentário do inventor de Davos na Folha (5ª feira, 25/1/01, pág. A 2). Como aquele aprendiz de feiticeiro espantado com os efeitos da sua feitiçaria, agora tenta minimizar o "evento" alpino que o seu jornal explorou durante diversos janeiros.

Tarde demais, Davos já era. Agora estamos na Era Anti-Davos. Ano que vem será a vez do Anti-Anti-Davos.

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