Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Exaltação do estereótipo

Por lgarcia em 30/01/2002 na edição 157

JORNAL DA TARDE

Fabio Leon Moreira (*)

O jornalismo é um mundo fascinante. Um universo de convivência com o poder, com personalidades, com fatos, perigos, investigações e tudo o mais. Exigem-se paciência, um pouco de abnegação, uma agenda com os telefones mais quentes do pedaço etc. Se para nós, profissionais, o ofício costuma tornar-se uma dádiva ou um cadafalso, se há prazer ou envelhecimento precoce em nosso trabalho é uma realidade que seria mais confortável se ficasse enclausurada somente em nossas almas, ou dividido com os coleguinhas nas redações. Para os leigos, resta a imaginação de como funciona todo o sistema, ou torcer para que alguém explique direitinho.

Infelizmente, o Jornal da Tarde e a agência de propaganda contratada pelo diário paulistano colaboraram para a ineficácia da segunda alternativa. A peça publicitária veiculada na TV, numa interpretação secundária, quer enaltecer a "intimidade" do jornalista com os fatos em três situações diferentes, justificando uma teoria de credibilidade:

1) Repórter, sabe-se lá como, consegue entrar no carro de um árbitro de futebol que deve ter apitado um jogo decisivo. Lá fora, torcedores do time perdedor estão insatisfeitos com o resultado e querem depenar o automóvel do pobre juiz. O intrépido repórter aproveita o seu aspecto apavorado e, na ausência de uma Beretta, aponta o gravador para a fonte e pergunta. "Foi pênalti?" No estilo é-melhor-falar-senão-vai-ser-pior-para-você.

2) Repórter é designado para fazer matéria sobre um bar badalado da cidade e termina participando de uma confraternização de final de expediente, sendo quase carregado por uma horda de bêbados. O mais constrangedor é que ele insiste em fazer as perguntas ao grupo já em estado psico-etílico.

3) O auge vem agora: um repórter disfarçado de urso panda (esses publicitários…) flagra um esquema de corrupção entre dois suspeitos. O desfecho é surpreendente. Ele anuncia sua presença como se fosse Dick Tracy (se bem que estava mais para inspetor Clouseau): "Ahá! Peguei vocês com a mão na massa!", ou algo parecido. O que se segue é uma perseguição inspirada em algum longa-metragem dos Trapalhões.

Tudo bem, tudo bem. O signatário tem senso de humor, deu algumas risadas com o produto, é verdade. Mas convenhamos que se as plantonistas dos hospitais se sentiram ofendidas com a criação da Enfermeira do Funk, por enaltecer uma das fantasias sexuais mais grotescas do imaginário masculino depois da empregada doméstica, seria natural que alguém reagisse com certa estranheza à campanha publicitária do Jornal da Tarde. Nem toda loura é burra, nem toda enfermeira consegue transpirar erotismo dando assistência a doente terminal em hospital público.

Portanto, é ingenuidade fazer pensar que o jornalista é um inquisidor da verdade (caso 1), um mentecapto alheio a situações constrangedoras (caso 2) ou aspirante a detetive formado em curso por correspondência (caso 3).

A publicidade brasileira é uma das mais criativas do mundo, com respeitáveis prêmios internacionais conquistados por cérebros brilhantes e campanhas referenciais na lembrança coletiva. Pequenas obras-primas. Mas é preciso ter cuidado. Vivemos num país em que atores globais são agredidos na rua pelo caráter do personagem que interpretam nas novelas. Ou seja, a ficção costuma ganhar projeção tão grande que os pré-julgamentos se fortificam apenas com o que se vê. A TV mostrou, e não se fala mais nisso.

Moscovis, jornalista

As agências trabalham com elementos altamente férteis, como exagero, fantasia e bom humor. Mas há de se reconhecer que muitas vezes o limite do bom gosto foi extrapolado. A campanha do refrigerante Sprite, por exemplo, em que dois garotos-propaganda agridem pessoas que violam normas de boa conduta, como não lavar as mãos depois de usar o mictório, teve de ser editada, tesourando as partes consideradas violentas demais.

Para nossa sorte, o pequeno equívoco do JT é apenas uma campanha publicitária. São alguns segundos por dia, e não uma hora diária entre o Jornal Nacional e a novela das oito. Mas surpreende o fato de um jornal querer apelar para os clichês mais rastaqueras que podem recair sobre uma categoria, e que só servem para alimentar o imaginário preconceituoso de um povo eternamente vítima da desinformação. Ou você confiaria num jornal cujos repórteres se vestem como animadores de zoológico?

O problema é que se repetiu o erro que Hollywood comete em escala aritmética. Pródiga em produzir aberrações sobre o tema, distorcendo ou exagerando coisas simples como métodos de apuração, transforma os atores que interpretam jornalistas em seres egocêntricos, megalomaníacos, antiéticos, abutres dotados de gravador e bloco de anotações. Uma provocação clara aos paparazzi, aos jornais sensacionalistas, aos biógrafos oportunistas, aos apresentadores reacionários que proliferam na mídia americana e que perseguem a classe artística local. Uma verdadeira conjuração que os produtores encomendavam aos estúdios quase que por sanha pessoal. Como não existe nada parecido no país, os publicitários podem dormir em paz, pois espera-se o mínimo de repercussão neste episódio.

Resta é o alívio de estar analisando um fato completamente isolado. Graças a Deus.

Em tempo: vem aí mais um campeão de audiência. Em Desejos de Mulher, próxima novela da Globo, Eduardo Moscovis interpreta um jornalista em crise no casamento. A conferir.

(*) Jornalista

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