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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA EUROPÉIA

Exotismo de menos, mas persiste o preconceito

Por lgarcia em 09/10/2002 na edição 193

COBERTURA EUROPÉIA

Luiz Gonzaga Motta, de Barcelona (*)

O Brasil não é mais apenas um país tropical exótico que só tem mulher pelada e futebol para mostrar ao resto do mundo. Esta é a conclusão de quem, durante a semana que antecedeu o 6 de outubro, leu a cobertura dos jornais europeus sérios sobre as eleições brasileiras. A maioria dos jornais deu espaço generosos, publicou matérias informativas de correspondentes ou enviados especiais e artigos de opinião de analistas diversos, com chamadas de primeira página, muitas fotos, mapas e gráficos, mantendo o leitor europeu ligado nas eleições de nosso país ? com os escorregões de praxe. Houve de tudo: desde a exaltação exagerada à economia brasileira, advertências sobre o “perigo” que Lula representa e matérias simpáticas ao candidato vencedor do primeiro turno.

Lula é a grande notícia. Sua imagem em cores ou em preto e branco esteve em todos os jornais e telejornais, sua vida foi passada a limpo pela imprensa e sua transformação política e pessoal foi explicada à exaustão. A cobertura não deixa de revelar, entretanto, um certo espanto dos jornalistas e articulistas pela possível ascensão de um metalúrgico de esquerda à presidência da República de um país considerado líder da América Latina ? isto no momento em que a globalização impõe ao mundo a economia de mercado e que os Estados Unidos se armam para refrear militarmente qualquer resquício de contrariedade à sua hegemonia política.

Potência econômica

O maior indício de que nosso país não é mais tratado como uma republiqueta qualquer se revela nas palavras utilizadas nas manchetes de muitos jornais. O tablóide El País, de Madri, dizia em primeira página na sua edição do dia 6 que a economia mundial estava dependente do Brasil, reconhecendo que os rumos de nossa economia afetarão à dos demais países. La Vanguardia, o tablóide de maior circulação de Barcelona, dedicava a Lula as cinco primeiras páginas, e mais duas e a capa de sua revista de domingo, abrindo uma das matérias com a afirmação de que “a América Latina está dependente do Brasil”.

Le Monde, de Paris, no mesmo dia, deu uma cobertura bem mais discreta, mas não deixou de ressaltar a importância econômica de nosso país em matéria que ocupa toda a segunda página do caderno principal de domingo, estampando um mapa sob o título “Brasil, a 11? potencia econômica”. La Vanguardia publica também um mapa do Brasil na página 7, junto a estatísticas sobre a nossa economia. Mas suas informações estão defasadas em relação às do Le Monde: a matéria do jornal espanhol diz que somos a 9? potência econômica do mundo. Não somos. Como informa a matéria do madrilenho El País, já fomos a 8? potencia econômica mas caímos alguns pontos. Erros à parte, os destaques e gráficos mostram uma economia brasileira forte. Isto contradiz com as notícias publicadas nos mesmos jornais em outros momentos que, sem muita análise, construíram a imagem de uma economia brasileira frágil [veja abaixo remissão para matéria a este respeito, publicada no OI].

Ainda que de forma menos ostensiva do que algum tempo atrás, uma certa visão exótica continua afetando a imagem do Brasil. No dia da eleição, La Vanguardia preferiu estampar uma foto de Lula junto a um cacique enfeitado com um colorido cocar de penas em sua chamada de primeira página, e repetir esta mesma imagem cobrindo toda a capa de sua revista de domingo. No entando, os jornais europeus já notaram que também temos literatura, além de reconhecerem a riqueza de nossa música e a importância de nossa economia. Na verdade, os jornais da Europa têm dedicado relativa atenção ao Brasil além dos espaços ocupados pelas últimas vitórias de Rubens Barrichello na Fórmula 1 e dos gols de Ronaldo, pelo Real Madri. No domingo anterior às eleições, El Pais havia dedicado a capa e mais três páginas de seu conceituado caderno cultural Babélia à escritora Clarice Lispector e à literatura brasileira. No mesmo dia, o diário dedicou ainda uma matéria de página inteira ao maestro Jacques Morelembaum.

Eixo do mal

Na cobertura das eleições, porém, a maior atenção foi mesmo para Lula e para as implicações para a economia mundial decorrentes de sua vitória. O ex-líder metalúrgico passou a ser a grande vedete das notícias e análises, o fenômeno que necessita ser compreendido, a novidade que ainda precisa ser assimilada principalmente porque parece navegar na contramão das tendências que prevalecem atualmente na Europa ? um continente do qual se esperava uma posição de independência depois da unificação, para contrabalançar a hegemonia norte-americana, mas que exerce hoje um papel secundário na política mundial com quase total submissão à política do big stick dos Estados Unidos, não fosse a posição isolada, mas tímida, da Alemanha. A curiosidade para compreender o que se passa no Brasil é a pauta que marcou a cobertura da imprensa européia.

A “vida severina” de Lula, sua origem humilde, a migração para São Paulo em caminhão “pau-de-arara”, seus primeiros trabalhos como engraxate e vendedor ambulante, sua formação como operário, a perda de um dedo na mão, a questão da inexistência de um diploma universitário, tudo foi exaustivamente vasculhado e contado pela imprensa européia. Estes tópicos “pitorescos” forneceram a matéria-prima para ressaltar em histórias bem contadas a contradição de “um homem tosco” (na expressão de La Vanguardia, 6/10) se transformar em presidente da República. Literatura à parte, em geral as matérias revelam o espanto de uma imprensa preconceituosa. Tanto que, colocando lado a lado os perfis dos dois candidatos mais votados, o jornal identifica no título dado a José Serra como o mais capaz porque “bom intelectual” (ainda que sem carisma).

Além das curiosidades em relação à trajetória inusitada de Lula, proveitoso material para um jornalismo ávido de aspectos emocionantes, os jornais europeus dedicaram muito espaço para as transformações do candidato. Quase todas as matérias enfatizam as mudanças pessoais de Lula, sua barba bem aparada, o uso freqüente dos ternos de grife, a intervenção de Duda Mendonça, a campanha moderada. Resumindo tudo, nas palavras da manchete da página 3 do El País, “la nueva imagem de moderación”. Dois dias antes do pleito, o jornal já havia publicado matéria com o presidente do PT, José Dirceu, mostrando “o homem que conseguiu colocar gravata no Lula”. Outra matéria, também da semana anterior às eleições, mostrava a atuação de militantes moderados do PT em suas ações de aproximação do partido com os empresários brasileiros, investidores e agentes dos organismos financeiros internacionais.

É tanta a ênfase na moderação que os jornais europeus parecem querer mostrar aos seus leitores que Lula evoluiu: se, no Brasil, os comentários jornalísticos parecem querer ressaltar que ele evoluiu da esquerda para o centro, a julgar pela ênfase do material publicado pelos jornais europeus ele evoluiu do centro para a direita. O noticiário parece querer convencer que o candidato não é mais um político “perigoso”, que ele hoje faz parte de uma esquerda palatável. O Le Monde de domingo (6/10), reproduz uma frase do subsecretário de Estado norte-americano para as Américas Otto Reich, segundo o qual Lula é um líder da “gauche responsable”, posição atribuída ao presidente Lagos, do Chile.

Mas essa pressa em trazer Lula para o centro do espectro político não dirime as incertezas nem as desconfianças que os jornais mostram com relação ao candidato que disputará o segundo turno com José Serra. Como diz La Vanguardia, o fato de Lula chegar à presidência constitui-se em um acontecimento histórico, “um terremoto político com fortes repercussões no campo econômico de todo o continente”. As matérias publicam palavras de Lula e outros dirigentes petistas confirmando que os compromissos com o FMI serão mantidos, mas não deixam de repassar um certo nervosismo com relação aos investimentos estrangeiros no Brasil a partir da posse de um líder operário de esquerda. Mesmo o progressista Le Monde passa certa expectativa em relação ao comportamento do futuro presidente. Ainda que se refira a Washington, o jornal revela o risco que significa uma “deriva populista”.

Pior de tudo foi o jornal direitista Nación de sábado, dia 5. De forma desrespeitosa, tratando a possibilidade da vitória eleitoral de um partido democrático de oposição com prepotência (e desde o ponto de vista do capital espanhol aplicado no Brasil), o jornal chamava levianamente o eixo constituído por Cuba de Fidel Castro, a Venezuela de Hugo Chaves e o Brasil de Lula, de “eixo do mal”. A mesma posição, aliás, defendida semana atrás pelo diário americano The Washington Times, de propriedade do notório reverendo Moon.

(*) Jornalista e professor, atualmente em pós-doutoramento em Barcelona, Espanha

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