Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > MULHERES NA MÍDIA

Fabricação de "verdades" e violência de gênero

Por Ana Liési Thurler em 13/06/2001 na edição 125

MULHERES NA MÍDIA

Que notícias nos dá um bebê abandonado? Deixado ao desalento, sob a chuva ou sob o sol, o bebê abandonado testemunha e materializa o encontro dramático entre um homem ?desertor da paternidade ? e uma mulher ? desertora da maternidade. Bastaria o gesto de acolhimento de qualquer deles, para que o abandono se tornasse impossível.

Está muito longe desse suposto lógico a compreensão passada aos leitores que se detiveram nas 77 matérias (abrangendo tanto pequenas notas quanto matérias de páginas inteiras), objeto desta análise, publicadas entre 1? de janeiro de 1998 e 30 de junho de 1999, pelos dois jornais de circulação diária da capital deste país. Nesse período o Correio Braziliense publicou 50 matérias sobre o assunto e o Jornal de Brasília, 27 matérias.

Se, lembrando Rorty em Contingência, ironia e solidariedade, "o mundo está diante de nós, mas as descrições do mundo não", se, em suma, a verdade não é dada, mas fabricada, cabe interrogar: qual a verdade produzida por esses jornais e servida à população de Brasília, naquele período, em reiteradas descrições sobre casos de deserção da maternidade e de deserção da paternidade que resultaram em 18 bebês abandonados apresentados nos dois jornais, nos 18 meses estudados?

A verdade apresentada à população interage com a cultura, mantendo-a e conservando-a ou questionando-a e renovando-a, no caso, relativamente a padrões de comportamento, valores e crenças ligados à promoção da eqüidade de direitos e deveres entre homens e mulheres, no espaço doméstico e no espaço público. Daí decorre a responsabilidade social da mídia.

Quem produziu essas matérias? Em qualquer dos dois jornais, as mulheres têm participação minoritária na construção da verdade sobre "bebês abandonados". No Jornal de Brasília, as mulheres são autoras de 30% das ? matérias veiculadas, no Correio Braziliense elas assinam somente 6,5% dessas matérias. Neste, 40% dessas matérias ganharam espaço de capa, e no Jornal de Brasília, 22,22% delas tiveram esse destino.

O material reunido oferece indicações e coloca interrogações.

O tema abandono de bebês, no período analisado, teve relevância nos jornais examinados ? tanto pelo volume de matérias produzidas quanto pela localização no jornal. Por quê? O problema sensibiliza o profissional? O jornal considera importante a coletividade tomar conhecimento dessa questão? Com que enfoque? O tema toca emocionalmente o público leitor? Ajuda a vender jornal?

Apesar do número de matérias não-assinadas ? especialmente no Correio Braziliense ?, o universo estudado mostra a predominância de homens na produção desse discurso. Se a situação se invertesse ? se profissionais mulheres estivessem em maioria interpretando essa questão, o olhar seria diferente?

A mãe é a personagem referida e responsabilizada, estritamente, na maioria absoluta das matérias. Em torno da figura do pai quase metade das matérias silenciam completamente. Seus escassos aparecimentos se devem a referências feitas pela mãe ou outra pessoa. A ele é reservado um tom de complacência. Uma matéria, solitariamente, faz referência à responsabilidade social (Jornal de Brasília, 27/12/98). Nem uma só matéria traz o pai para os acontecimentos, atribuindo-lhe responsabilidade. Por que a figura do homem desertor da paternidade não aparece na mídia? A mídia participaria, ao lado de diversas instituições, de um processo de "eliminação cultural do pai"?

Emblemático foi o caso da trabalhadora doméstica Marinete Liberalina de Souza, moradora de Águas Lindas (GO), um dos municípios mais pobres do entorno do Distrito Federal. Filha de lavradores, de uma família de 10 irmãos, a ela se aplicaria com justeza a expressão cunhada por Sebastião Salgado, "refugiada em seu próprio país". Migrante, veio para o Planalto Central, buscando melhores condições de vida. Engravidou pela segunda vez. Pela segunda vez foi abandonada pelo pai do bebê, ambos, como ela, do Piauí. Com Marinete, mulher provisoriamente desertora da maternidade, os dois jornais foram inclementes. Submetida a grande exposição pública ela esteve, no Correio Braziliense, em 21 matérias, entre 26 de dezembro de 1998 e 14 de maio de 1999, sendo 14 vezes na capa; no Jornal de Brasília, em 16 matérias, entre 27 de dezembro de 1998 e 14 de janeiro de 1999, e foi seis vezes capa do jornal. Nessa profusão de matérias arma-se uma fogueira. Marinete sofreu julgamento sumário e condenação.

Qual o tratamento concedido a Sidnei, o homem desertor da paternidade? Apesar de haver mantido um relacionamento estável de 13 meses com Marinete e haver se retirado de cena em 23/12/98 ? exatamente à véspera do nascimento da filha ?, foi considerado pelos dois jornais como só tangencialmente implicado nos acontecimentos. Nem uma só vez, nas 37 matérias publicadas, ele é, mesmo vagamente, co-responsabilizado. Pelo contrário, foram-lhe concedidos espaços para exercícios de arrogância e julgamento da situação, com a qual parecia nada ter a ver. No Jornal de Brasília, nas 16 matérias sobre o tema, ele é citado seis vezes e somente como "Sidney". Sem sobrenome, em contraposição à mãe, citada com nome e sobrenome, nome completo dos pais, vida pessoal devassada. No Correio Braziliense, o pai é nomeado, sim, mas sem maiores compromissos com a clareza de sua identidade. Ele é apresentado como Sidney da Silva, pintor, 23 anos, em 5/1/99; Sidney Queiroz, em 11 e 12/1/99; Sidney Souza, em 16/3/99; Sidney Queiroz de Sousa, pedreiro, em 14/5/99. Em 11/7/99, já fora do período estabelecido nesta pesquisa, ele ainda será reapresentado como Sidnei Queiroz de Souza, mecânico, 25 anos. O leitor deve entender que os jornais consideram o pai pura filigrana?

O comportamento da mídia ? nas formas de interpretação e disseminação dos fatos e, muito especialmente, no caso emblemático em foco, de deserção provisória da maternidade de Marinete e de deserção da paternidade de Sidney ? constitui uma forma de violência de gênero.

A violência é sempre uma forma de exercício de poder, supondo posições hierarquizadas, e está associada à desigualdade entre os atores do conflito. Em um sistema social classista, sexista e racista que subordina a mulher, Marinete Liberalina de Souza foi exposta, intimidada moralmente, constrangida. Sofreu violência de gênero, além de violência de classe. É mulher, pobre, migrante nordestina, duplamente desterritorializada ?geograficamente e pelo comportamento adotado, que a retirou do grupo de mães normais, de boas mães.

A mulher desertora da maternidade tem sido exposta pela mídia, buscada pela Polícia e pela Justiça. Paralelamente, a eliminação cultural do pai, preço que acompanha sua tácita absolvição é, enfim, uma outra face da violência de gênero.

(*) Integrante do Fórum de Mulheres do Distrito Federal e doutoranda pelo Departamento de Sociologia da UnB. Email: <althurler@yahoo.com>.

    
    
                     

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