Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > THE WASHINGTON POST

Faces da guerra

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

THE WASHINGTON POST

A soldado Jessica Lynch, capturada pelas forças de Saddam Hussein e então resgatada, é provavelmente a personagem mais famosa dos EUA na guerra no Iraque. Alçada à categoria de heroína, ocupou espaço na mídia que poderia, em parte, ter sido usado para falar dos mais de 420 mortos e cerca de 2.400 feridos que seu país contabiliza nessa empreitada bélica. Para estes não há muito destaque.

O ombudsman do Washington Post, Michael Getler, em coluna de 15/11/03, conta que recebeu mensagens elogiando a publicação de duas fotos que representam bem a dor da perda na guerra. No dia 22/11, saiu na capa uma imagem do fotógrafo do Post Jahi Chikwendiu na qual a família de um sargento-major americano chora em seu enterro. Junto da mulher e do filho, duas soldados de olhos inchados fazem, com dificuldade, uma saudação militar. "Nunca antes fui levado às lágrimas por uma foto no jornal", observa um leitor. "Mas a de hoje fez isso."

A outra fotografia que mereceu comentários foi a publicada na primeira página do dia 13/11, em que se vê um soldado diante da sede da polícia militar italiana em Nassíria, sul do Iraque, destruída por um carro bomba. Olhando para o chão, o homem está com uma mão no capacete e a outra na arma que levava pendurada. O ataque matou 29 e feriu 100.

Recentemente, a própria soldado Jessica, que teve sua história heróica cercada de dúvidas, também contribuiu para a construção de um retrato mais verdadeiro do que foi a intervenção militar americana. Em entrevista na televisão, ela revelou que sua arma emperrou, que não lutou contra seus captores e que não matou inimigos. Finalmente, concluiu que não queria levar o crédito por algo que não fez e que se sentia incomodada pelo fato de seu resgate ter sido filmado para representar "esse negócio todo".

Os leitores não deixam o Post, um dos veículos que liderou a campanha de glorificação da jovem, sair impune após revelações como essa. Cobram de Getler por que o diário não dá o devido destaque a essa novidade. O ombudsman concorda que o jornal tem demonstrado pouco interesse nessa segunda fase on the record da história.

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