Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > LEITURAS DA FOLHA

Factóides, radicais e governistas

Por lgarcia em 12/02/2003 na edição 211

LEITURAS DA FOLHA

Luiz Antonio Magalhães

A Folha de S. Paulo conseguiu criar o fato político mais importante no cenário brasileiro desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na terça-feira (4/2), o diário da família Frias saiu com uma manchete em seis colunas vaticinando a expulsão de parlamentares das correntes de esquerda do Partido dos Trabalhadores: “Governo e PT tentam coibir radicais”. Na chamada interna da reportagem que mereceu a manchete (pág. A 4), a Folha deu o nome aos bois ? “Dirceu e Genoino articulam expulsão de ?radicais? do PT” ?, explicando que o ministro-chefe da Casa Civil da Presidência e o presidente nacional da legenda eram os responsáveis pela ofensiva, que teria como vítima preferencial a senadora alagoana Heloísa Helena.

A matéria, de autoria do repórter Kennedy Alencar, lembra a história da montanha que pariu um rato. De concreto, havia apenas uma declaração de José Genoino que sequer corrobora a tese da expulsão: o ex-deputado dizia que levaria para a próxima reunião do Diretório Nacional do PT a proposta de uma advertência pública à senadora Heloísa Helena por ela ter se ausentado da sessão de votação da presidência do Senado que elegeu o ex-presidente José Sarney (PMDB). Ou seja, nem mesmo a tal advertência não era um fato consumado, mas sim uma hipótese que o presidente do PT estava levantando para evitar que a atitude da senadora se repetisse em votações futuras.

Declaração de Genoino à parte, a reportagem constitui o que no jargão da profissão os jornalistas costumam chamar de “cascata”. A arrogante expressão “a Folha apurou”, que caracteriza informações obtidas “off the record” (quando a fonte não quer se identificar), é utilizada duas vezes para se referir às supostas opiniões de José Dirceu sobre o episódio. Na segunda referência, o jornal afirma ter “apurado” que o ministro “gostaria de ver fora do PT as senadoras Heloísa Helena e Ana Júlia e os deputados federais Lindberg [sic] Farias, Luciana Genro e o Deputado Babá.”

No dia seguinte, o ministro negou a versão do jornal paulista, mas a esta altura do campeonato o mal estava feito e a Folha havia conseguido a proeza de elevar um problema interno do PT à enésima potência, transformando-o em questão de Estado, pois passou para o público a idéia de que o governo Lula não tem sustentação firme no partido do presidente. Assim, durante toda a semana a “guerra” entre radicais e governistas tomou conta do noticiário não só da Folha, mas dos principais jornais nacionais. O líder do governo no Congresso, senador Aloizio Mercadante, jantou na quarta-feira com Heloísa Helena e convocou uma entrevista coletiva para informar que sentiu da senadora a vontade de colaborar para a “unidade” do partido. Enquanto isso, os deputados Lindbergh Farias e Babá articulavam um “movimento de solidariedade” à senadora e continuavam criticando alguns membros do primeiro escalão de Lula, especialmente o ministro Antonio Palocci.

Cascas de banana

Diante desses fatos, quem não conhece o PT pode achar que “onde há fumaça, há fogo”, isto é, há uma crise real no partido. Não é bem assim. A primeira reportagem da Folha (e as dos demais jornais que passaram a repercutir aquela cascata) peca não apenas pelo que diz, mas principalmente pelo que omite. As críticas que o governo Lula vem sofrendo de integrantes do PT partem de exatamente quatro parlamentares: os deputados Lindbergh Farias, Luciana Genro, João Batista de Araújo, o Babá, e a senadora Heloísa Helena. Babá e Luciana integram a Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST), um recente agrupamento praticamente inexpressivo no partido. Heloísa Helena faz parte da Democracia Socialista, uma ala que conta com dois ministros no governo (Olívio Dutra e Miguel Rossetto) mas há muito vive às turras com os dirigentes da corrente e com seus correligionários de Alagoas. Já Lindbergh Farias, egresso do PSTU, não tem história alguma no PT. Se faz parte de algum grupo, é da ala do “eu comigo mesmo”.

Em outras palavras, faltou ao repórter Kennedy Alencar, que já foi assessor do presidente Lula e conhece muito bem o PT, contextualizar os embates que estão sendo travados na agremiação. A esquerda petista não é um bloco homogêneo, conta com 23 deputados, duas senadoras e cerca de 30% de representação nas instâncias partidárias mais importantes (Diretório Nacional e Executiva Nacional). A maior parte dos “radicais” está integrada no governo Lula, apóia o presidente e avalia que as mudanças prometidas virão com o tempo, pois sabe que não é fácil lidar com a herança do governo FHC, de tão triste memória.

Também é verdade, por outro lado, que as correntes mais expressivas da esquerda de fato têm algumas restrições ? e não é de hoje ? à estratégia escolhida pela direção moderada do partido para chegar e manter-se no poder. Acontece que este é um debate franco, travado com grande transparência no Partido dos Trabalhadores: basta ler as teses que são apresentadas nos Encontros Nacionais da legenda, disponíveis no sítio petista na internet, para entender a discussão teórica que permeia o partido é travada em alto nível, e não na forma de intrigas de camarilhas, como insinua a Folha. Evidentemente, há sempre na política espaço para excessos verbais e atitudes impensadas. Os quatro parlamentares que saíram atirando duro em Lula antes mesmo que a nova gestão completasse um mês podem ter escorregado nas cascas de bananas que a grande imprensa, Folha à frente, está espalhando para colher intrigas contra o novo governo. Eles também pode estar jogando para os seus próprios públicos locais ? e, neste caso, ficarão isolados no partido ou tomarão decisões que eventualmente podem levá-los a mudar de sigla.

Tudo somado, o fato é que a Folha e os jornais que a seguiram têm objetivos concretos para publicar as tais cascatas sobre a “grave crise do PT”: de um lado, intrigar a esquerda da legenda com a ala moderada, a fim de que a última dê uma guinada à direita e isole os “radicais”; por outro, o objetivo de fazer o grande público acreditar que existe uma fratura funda no novo governo. Manobras que no fundo não passam de um péssimo modo de fazer jornalismo.

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