Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Falsificação de Remédios (I): Veja tem dois pesos

Por lgarcia em 20/07/1998 na edição 49

A MATÉRIA PAGA publicada e assinada por Veja nos principais jornais do país (7/7/98) ocupou um quarto de página. Assume todas as responsabilidades nos equívocos sobre a Novalgina e tem um nítido tom autocrítico. O que é ótimo.

Mas a atitude da revista na própria revista (edição seguinte, 15/7/98) é equívoca, maliciosa e arrogante. Para começar, a Carta do Editor nem menciona o lamentável engano, passa por cima do assunto e ocupa-se do trivial promocional. Como se para o responsável pela publicação este assunto fosse de somenos importância. A falha de apuração só aparece num box dentro da matéria (pp. 44-45), sem assinatura, num estilo “informativo”, sem nenhum pedido de desculpas pelos prejuízos causados ao fabricante e pelos incômodos aos leitores.

Para o público em geral (inclusive anunciantes, concorrentes e autoridades), Veja presta contas e assume responsabilidades. Para os seus leitores, continua infalível.

Ao contrário da Time (edição de 13/7), que publica um pedido formal de desculpas de página inteira assinada pelo seu responsável a propósito da reportagem sobre o gás sarin. Reparem que esta matéria não continha erros de informação como a de Veja, apenas faltaram comprovações.

 

AS AUTORIDADES SANITÁRIAS estão, há quase um mês, empenhadas em desbaratar a grande indústria de falsificação de remédios. A mídia vem acompanhando todas as diligências com a maior diligência, não poupando espaço ou tempo. Honra ao mérito.

Mas até o momento não conseguimos registrar na mídia nenhuma matéria original, resultante das próprias investigações. Nosso jornalismo continua acomodado no reboque do oficialismo. Sabemos repercutir, temos preguiça de apurar.

Em O Globo de 19/7/98, finalmente, uma ação própria, embora paralela: a irresponsabilidade e incompetência dos laboratórios de análises que não conseguem distinguir guaraná de urina.

 

COMO EXPLICAR O PODER, a organização e o tamanho da máfia dos remédios falsificados? Qual o chamariz que atrai tantos “empresários” para este negócio?

Elementar: o preço altíssimo dos nossos medicamentos. Se os produtos custassem alguns reais não atrairiam a cobiça dos inescrupulosos. Acontece que custam, em geral, algumas dezenas de reais. Neste caso, compensa imprimir rótulos e bulas, comprar embalagens, etc. O lucro é fabuloso.

Nossos jornalistas são capazes de comparar o preço do hambúrguer do Mac Donald’s ou de uma garrafa de Coca-Cola com os similares em outros países. Jamais se deram ao trabalho de comparar os preços dos produtos farmacêuticos.

E não é difícil, já que o nome dos medicamentos está globalizado. Mesmo nas farmácias especializadas na clientela brasileira de Nova York e que vendem sem receita (por isso mais caras), os preços estão, pelo menos, 15% abaixo dos praticados no Brasil.

De uma forma geral, os preços dos remédios brasileiros estão 20 ou 30% acima dos preços praticados nos EUA ou Europa.

Esta é a chave para esclarecer o mistério que envolve a expansão do negócio do remédio falsificado no Brasil.

 

NOVA MODA LANÇADA pelo jornalão paulista enquanto todos se distraíam na “Farra da Copa”: apresentar as agendas diárias dos candidatos à presidência e ao governo de paulista com os números que obtiveram nas últimas pesquisas eleitorais.

Isso é crime eleitoral. É uma forma de “congelar” para sempre os resultados de uma pesquisa, necessariamente circunstancial.

É evidente que, ao repetir diariamente que o candidato X tem tal percentual de preferência, este percentual acabará por repetir-se na próxima sondagem.

Onde estão os olheiros dos partidos que não reclamam?

 

CONTRARIANDO AS PREVISÕES, inclusive deste OBSERVATÓRIO, nosso mais importante diário econômico anunciou formalmente uma parceria com a Editora Abril.

Tudo indicava uma aproximação com o conglomerado Globo. O Estadão, aliado informal deste, estrilou com um comentário sobre as dívidas fiscais da Gazeta, logo respondido. (Estadão, 10/7/98, p. B-8, e Gazeta, 13/7/9, p.A-5).

Vamos ver a virada da Folha, aliada ostensiva da Abril e que recentemente fustigou diversas operações acionárias da Gazeta. (Ver abaixo remissão para “Transparência que falta”. )

 

A FARRA LOTÉRICA nas televisões está com os dias contados. A Justiça, através das diversas instâncias, está enquadrando esta aberração. Mas as emissoras de TV continuam ignorando em seus noticiários todos os desdobramentos do caso. Comprova-se que uma emissora de TV já não pode ser considerada empresa jornalística e gozar dos diversos privilégios constitucionais.

1) OS EXILADOS CUBANOS vão processar o grande jornal nova-iorquino pelas duas matérias publicadas no domingo e segunda-feira (12 e 13 de julho) denunciando as atividades terroristas da sua principal organização a (FNCA) contra o governo de Havana. Acontece que as matérias foram exaustivamente investigadas e comprovadas. Na quarta-feira, o jornalão publicou uma nota expressando total apoio aos dois jornalistas que participaram da investigação. A própria alegação dos exilados comprova a fraqueza dos seus argumentos: “Isso não é jornalismo: é guerra política”. Essa a diferença: Peter Arnett, da CNN, é um opinionista que finge de repórter. Por isso foi punido. Os jornalistas do “NYT” são repórteres.

2) ATENÇÃO, COLEGUINHAS nova-iorquinos: o NYT está disponível e grátis na Internet (www.nytimes.com) para assinantes do exterior (basta cadastrar-se). Portanto, tenham cuidado. A turma daqui pode estrilar quando as semelhanças forem excessivas.

 

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