Domingo, 09 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Fama e picaretagem

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

O CRUZEIRO, POR MAKLOUF

A. P. Quartim de Moraes (*)

Há cerca de 50 anos, a revista O Cruzeiro e os Diários Associados, a que ela pertencia, tinham no Brasil uma influência sobre a opinião pública comparável à que hoje exercem as maiores redes nacionais de comunicação. O principal repórter de O Cruzeiro, David Nasser, desfrutava de um prestígio que hoje nenhum jornalista brasileiro tem. Em parceria com o fotógrafo francês Jean Manzon, Nasser produziu para O Cruzeiro reportagens fantásticas e surpreendentes que faziam a cabeça e eletrizavam as centenas de milhares de leitores da revista e eram assunto obrigatório de conversa em todo o país. Nasser se tornou um homem rico e influente.

Quando procurou a Editora Senac São Paulo, há cerca de dois anos, Luiz Maklouf Carvalho, um repórter obcecado pela investigação jornalística, propôs um mergulho profundo na história da vida de David Nasser. Mas, ao cumprir, com o rigor habitual, a árdua tarefa de destrinchar montanhas de documentos que lhe foram colocados à disposição, principalmente pela viúva de Nasser, e organizar o material colhido em mais de uma centena de entrevistas, Maklouf descobriu, em primeiro lugar, que a história que pretendia contar era indissociável da trajetória de O Cruzeiro. E que, portanto, o livro teria que ter seu foco ampliado. E constatou também que tudo o que já sabia ou imaginava a respeito das peripécias profissionais pouco ortodoxas da dupla Nasser/Manzon, assunto sempre misterioso e controvertido nos bastidores do jornalismo brasileiro, era na verdade uma imagem pálida da realidade que sua investigação colocava a nu. Assim, sempre evitando emitir juízos de valor, limitando-se a expor fatos fartamente comprovados pelo rigor se seu trabalho de pesquisa, Maklouf apresenta neste livro revelações surpreendentes, às vezes chocantes, sobre o verdadeiro "ninho de cobras" em que se ambientava a atuação de Nasser, de seu companheiro Manzon e da maior revista semanal brasileira da época (chegou a tirar uma edição de 720 mil exemplares com a cobertura do suicídio de Getúlio Vargas). Uma história à altura do "mar de lama" em que a República getulista era acusada de chafurdar.

Há quem diga, com base no teor do noticiário estampado hoje na imprensa brasileira, que o "mar de lama" permanece, se é que não é pior do que antes. Mas é preferível acreditar que, na verdade, o que existe hoje é maior transparência nos negócios públicos e privados, de modo que a impunidade, pelo menos, começa a perder terreno. E nesse inquestionável avanço cultural, a imprensa tem tido um papel relevante, decisivo. A mesma imprensa que já teve em David Nasser seu herói e em O Cruzeiro seu expoente máximo. Essa é uma das reflexões que este livro nos lega e, com ela, mais um serviço que o Senac de São Paulo presta ao esforço para a difícil compreensão da realidade brasileira.

(*) Editor de Cobras Criadas – A história de David Nasser e O Cruzeiro, de Luiz Maklouf de Carvalho, Editora Senac

    
    
                     

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