Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Felicity Barringer

Por lgarcia em 31/10/2001 na edição 145

GUERRA & TERROR

"Jornalistas querem ?entrar? na guerra", copyright Folha de S. Paulo, 23/10/01

"Enfrentando duras restrições para realizar a cobertura militar dos ataques norte-americanos ao Taleban, regime extremista que controla a maior parte do Afeganistão, e à rede terrorista Al Qaeda, jornalistas dos Estados Unidos estão frustrados e cuidadosos para expressar sua decepção em público nos últimos dias.

Embora pressionem para ter acesso ao máximo possível de informações, os jornalistas estão fazendo os pedidos de forma cautelosa. Os repórteres pretendem evitar uma aparência intempestiva, que possa acabar atrapalhando qualquer chance de acesso no futuro.

Caso tanto o público, que apóia firmemente os militares, como o próprio Pentágono, que tem praticamente todo o controle de informações sobre o confronto no Afeganistão, se voltarem contra a imprensa, poderá levar meses para algum jornalista conseguir chegar perto das notícias no campo de batalha afegão.

E, certamente, muitos jornalistas enxergam a necessidade de manter algumas missões norte-americanas em segredo.

Sem precedentes

Os órgãos de imprensa dos Estados Unidos estão operando talvez sob limitações mais severas do que em qualquer outro conflito. Sem poder acompanhar as tropas em terra, os jornalistas não podem julgar de forma independente a eficácia das ações militares norte-americanas.

A ambivalência das empresas jornalísticas ficou evidente no último sábado, quando o mais alto oficial dos EUA, Richard Myers, divulgou um vídeo de uma missão de pára-quedistas em Candahar [cidade considerada o quartel-general do Taleban?, no Afeganistão.

Conforme diz o correspondente da rede de TV CNN no Pentágono, Jamie McIntyre, foi algo sem precedentes, pois o vídeo foi a única versão que os jornalistas tiveram da missão.

Proximidade

Para Doyle McManus, do diário ?Los Angeles Times?, ?é muito fácil perceber que não teremos reportagens em tempo real nem a verificação do que realmente aconteceu nos ataques. Mas, na situação atual, as restrições são compreensíveis?.

?A questão surgirá um pouco mais tarde, quando avaliarmos como a guerra está se desenvolvendo, se a estratégia está funcionando?, acrescentou o jornalista do ?Los Angeles Times?.

O que os jornalistas pretendem é ficar um pouco mais perto da ação, no porta-aviões Kitty Hawk, por exemplo, de onde partiu a operação relâmpago contra o Taleban em Candahar. Poderiam entrevistar os participantes da missão.

Michael Getler, ombudsman do ?The Washington Post?, afirma, por sua vez, que a política de manter a imprensa distante do campo de batalha e dos soldados continuará até a pressão chegar ao alto-escalão do governo norte-americano.

?Deve haver alguma autoridade em um posto-chave que entenda a importância da imprensa desempenhar seu papel na cobertura da guerra no Afeganistão?, afirmou o ombudsman do ?The Washington Post?.

As empresas jornalísticas estão pressionando, cautelosamente, para que seja possível acompanhar as tropas norte-americanas na região dos conflitos. Semana passada, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, se encontrou com representantes da imprensa em Washington e concordou com um esquema básico de cobertura da linha de frente das ações norte-americanas no Afeganistão.

Pedidos

Alguns pedidos de acesso maior à cobertura foram aceitos, segundo o Pentágono. Repórteres teriam trabalhado em porta-aviões na região do conflito. O USS Enterprise, segundo o Pentágono, teria 33 jornalistas a bordo. O USS Carl Vincent teria 39 e o USS Theodore Roosevelt, 16. Há uma rotatividade entre os jornalistas que são permitidos à bordo dos porta-aviões. Cada um permanece por um período de duas a cinco noites.

Em Washington, jornalistas que trabalham no Pentágono receberam alguma resposta para as entrevistas coletivas diárias realizadas na Secretaria de Estado e na Casa Branca. Semana passada, Rumsfeld afirmou que a dinâmica das coletivas poderia resultar em focalização de pontos secundários nas ações militares norte-americanas.

Na região próxima aos combates, na Ásia Central e no sudeste asiático, contudo, não há acesso dos jornalistas às tropas norte-americanas baseadas na área. De acordo com Rumsfeld, essa decisão se deve a desejos dos governos dos países que abrigam militares dos EUA na região."

"O Afeganistão virtual", copyright Folha de S. Paulo, 23/10/01

"Dormindo com o ?inimigo?. A porta de entrada para o mais representativo canal virtual de divulgação da cultura e dos costumes do Afeganistão está localizada em plena Costa Oeste americana, na cidade de Foster City, na Califórnia.

Instalado no endereço www.afghan-web.com, o Afghanistan Online mora em solo virtual americano desde 1996 e ainda hoje é administrado por seu fundador, o afegão Abdullah Qazi, 27 anos, que chegou aos EUA em 1990 para estudar biologia e atualmente, com seu título de mestrado, trabalha em uma grande indústria de remédios californiana.

O Afghanistan Online nasceu de uma idéia de Qazi de criar um ponto de encontro para a comunidade afegã (especialmente) na América e, razão primeira, divulgar locais para o culto islâmico.

Hoje, vende de bonés a canecas com o emblema do Afeganistão, permite o download do hino de seu país, traduz a letra da música para o inglês, discute a questão da condição de vida da mulher afegã, convida a uma visita virtual ao destruído Kabul Museum e estampa orgulhoso em sua página inicial alguns dos vários selos conquistados por sua excelência no quesito ?site multicultural?.

Em sua homepage, ainda, logo abaixo da inscrição ?Afeganistão, o país mais amistoso do mundo, possivelmente do universo?, está escrita em vermelho uma nota em que afirma ser o Afghanistan Online um site particular operado de dentro dos EUA, que não tem nenhum compromisso com o governo afegão, não apóia nenhum ato de terrorismo e condena a prática de tais atos.

Em tempos de guerra, o site e seu criador têm sofrido ameaças de retaliação, tanto no campo virtual quanto no mundo real. Por conta disso, e embora muito pouco das coisas do Afeganistão escape do site, Qazi prefere não levar à web as questões do pós-11 de setembro. No máximo, reproduz notícias na seção ?news?. Sua sala de bate-papo está fechada.

À Folha, por e-mail, Abdullah Qazi falou sobre seu site. E sobre a guerra entre suas duas pátrias, a verdadeira e a adotiva.

Folha – Como um afegão vivendo nos EUA, de que modo você descreveria seus sentimentos em ver o país que escolheu para morar atacando o paíiacute;s em que você nasceu?

Abdullah Qazi – Sinto-me profundamente devastado, porque eu não quero ver as inocentes e já sofridas mulheres e crianças do Afeganistão sendo mortas nesse ataque a bombas americano. O povo afegão tem vivido em meio a guerra e caos já faz 20 anos. Essa guerra vai destruir ainda mais o país, já bem destruído.

Folha – Tendo em vista os ataques terroristas em Nova York e no Pentágono, você concorda com essa ?revanche? americana? Acha que essa é a melhor maneira de combater o terrorismo?

Qazi – Primeiro, eu queria dizer que desde 1994 muitos afegãos tinham avisado os americanos sobre o que o Taleban e Osama bin Laden eram capazes de fazer, o perigo que eles representam para os povos de todo o mundo.

Os americanos não só não se importaram com isso como permitiram que o Taleban espalhasse o terror dentro do Afeganistão. Pessoas importantes do Afeganistão também avisaram aos americanos sobre o Paquistão e os jogos sujos que eles praticavam em meu país. O Paquistão praticamente criou e financiou o Taleban, em benefício próprio.

Muitos acreditam que o governo do Paquistão quer tirar proveito do Taleban para restaurar a chamada ?inviolabilidade da Fronteira de Durand?, o acordo que respeita a linha fronteiriça de Afeganistão e Paquistão.

Jornalistas estrangeiros têm presenciado evidências de que o Taleban consegue fundos para o seu exército através de contrabando de drogas com o Paquistão.

Folha – O que você e a comunidade afegã que frequenta o afghan-web.com discutem como melhor solução para essa questão do combate americano ao terrorismo?

Qazi – Eu não acho que bombardeio indiscriminado seja a resposta. Os americanos precisam trabalhar conjuntamente com o ex-rei do país, Zahir Shah, e também com os grupos de oposição que formam a Frente Unida e a Frente Islâmica de Salvação do Afeganistão (UNIFSA).

A imprensa ocidental chama essa coalizão de Aliança do Norte, o que é errado. Essa união é muito muito mais abrangente e é composta por vários partidos políticos que não aparecem para a mídia ocidental, de tão subterrâneos e perseguidos que são, mas bem importantes no atual contexto da luta contra o Taleban.

A única chance de paz só nasceria no Afeganistão se o Taleban fosse completamente afastado do poder. Mas, também, que não se permitisse ao Paquistão nunca mais continuar seus jogos políticos no Afeganistão.

Folha – Sobre o site que você dirige, o Afghanistan Online, o quanto ele é importante para a comunidade afegã que vive na América?

Qazi – Eu o construí em 1996, como um site pessoal. A idéia era que ele servisse de ponto de encontro para a comunidade afegã, para troca de idéias, divulgação de cultos ao islã. Mas desde então ele cresceu muito. Hoje serve como divulgador da cultura afegã, sua história, política, sociedade, línguas, esportes, comida, economia. O site ajuda os afegãos que vivem na América (EUA) a ficarem em contato com suas origens.

Recebe por volta de 85 mil visitas por dia, a maioria de afegãos ou relativos que vivem nos EUA, Canadá, Europa e Austrália. Há bastante visitantes do Paquistão, Arábia Saudita, Índia, Japão e mesmo da Rússia. Quem opera o site somos eu e meus irmãos, Mustafa e Mir, aqui da Califórnia.

Folha – Como a vida de você e de seus amigos afegãos mudou depois de 11 de setembro?

Qazi – Não tivemos mais paz. Temos recebido muitos e-mails e cartas de ameaça a nossas vidas, insultando o povo afegão e nossa religião. O servidor do nosso website também tem sofrido vários problemas por causa da tentativa de ataque de hackers.

A ameaça não se limita apenas à nossa vida on line. As pessoas nos olham feio na rua, fazem sinais racistas e gritam para irmos embora dos EUA. A única coisa que nos resta contra tudo isso é deixarmos sempre claro, no Afghanistan Online, que condenamos o que ocorreu no dia 11 de setembro. E esperar que isso um dia acabe."

    
    
                     
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