Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Fernando Martins

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Não se confunda jornalismo ?de missão? com portuguesismo", copyright Jornal de Notícias, 16/6/02

"Ainda alguma incredulidade servia de almofada ao desencanto, e já se extremavam posições em volta da eliminação da equipa portuguesa. E viu-se o Provedor feito muro de lamentações perante a derrocada de um unanimismo, que a goleada sobre a Polónia tão facilmente gerara sobre as cinzas do ?desastre? com os Estados Unidos.

(Ia escrever que é um fenómeno que nos caracteriza a nós, portugueses. Mas, não, é próprio do Homem e das suas paixões, sejam elas íntimas ou colectivas, como por aqui acontece com o futebol. E nem seremos dos piores.)

Não faltaram as críticas ao seleccionador nacional e à sua falta de coragem para prescindir de Figo, ?que nada fez nos três jogos?; nem escapou, mais do que a culpabilização do árbitro argentino, a ?crucificação? dos jogadores que, com as faltas que levaram à expulsão, comprometeram o resultado do desafio crucial e a carreira da equipa das quinas. Mas, acima de tudo, houve um apontar do dedo aos ?media?, responsabilizando-os por um clima que terá acabado ?não só por afectar a selecção, mas por tornar a derrota mais dura?.

O JN não foi poupado (António Silva Mendes, do Porto; António Romão, de Gondomar e José Dias da Silva, de Aveiro) na acusação de manipulação da opinião pública, que acabou por acreditar que Portugal era um dos favoritos.

?Fomos levados a sonhar, a ter altos voos, e o trambolhão foi muito maior, de muito mais alto. E a culpa foi também vossa?, acusa António Mendes. José Dias da Silva, ainda que apontando os jornais desportivos e as televisões como principais responsáveis de um exagero que acabou consumido por todos, considera:

?O JN teve excessos inqualificáveis, alguns de muito mau gosto. Espero que, no rescaldo da ‘campanha’, o Provedor não deixe de tomar medidas em relação ao verdadeiro ‘jornalismo de campanha’ que agora se fez, e que nada difere do que tanto criticou nas reportagens de alguns jornalistas sobre Timor?.

Esta prática tem milénios: mais fácil (e mais cómodo e menos comprometedor) do que apurar responsabilidades, é procurar para a mesa sacrificial um bode expiatório. Acaba por ter, muitas vezes, a função de catarse terapêutica de tantos recalcamentos.

Os órgãos de comunicação social contam, nas franjas da sua actuação, também com essa missão, benefício de que usufruem cada vez mais sectores da sociedade, no lídimo exemplo da classe política.

Mas deixemos os políticos que, agora, nem é deles que se trata!

Ou talvez seja…

Hoje em dia, saber se foram as notícias que criaram determinado clima, ou se foi esse mesmo clima que deu origem às notícias — é quase tão difícil como descobrir se no mundo apareceu o ovo, se a galinha.

De há muito que alguma comunicação (e algum jornalismo também) navega à vista das preferências do público. O que torna, inegavelmente, mais fácil enveredar pela ?tabloidização?, pelo sensacionalismo mais fácil e reprovável. Mas não parece que, no caso do Mundial do Japão e da Coreia, o ambiente gerado lance âncora nessas águas pouco profundas e sujas.

As apreciações do valor do futebol português em geral e da selecção em particular são uma realidade extra-nacional e não fruto da vontade de alguns jornalistas sedentos de manchetes. Elas precederam o Campeonato propriamente dito e, já com os jogos a decorrer, mesmo depois da derrota frente aos Estados Unidos, especialistas internacionais colocaram os pupilos de António Oliveira entre os favoritos.

Se, tendo essa realidade como ponto de partida, se fez dela um eco excessivo que acabou por tornar-se contraproducente em relação à moral da equipa, e que, no rescaldo desastroso da prestação da selecção, tornou ainda menos suportável a eliminatória — essa é uma possibilidade que a serenidade dos próximos dias permitirá analisar, espera-se que com benefícios para o futuro.

Diz, por exemplo, António Romão, que está convencido de que foi esse clima criado, logo no início, à volta da selecção, o responsável pela derrota frente aos norte-americanos:

?Fez-se um tal estardalho à volta da equipa que ela só pode ter entrado em campo cheia de complexos, com medo de falhar. Puseram-nos de tal maneira nos píncaros, que eles até tinham medo de tocar na bola! Aliás, o próprio Figo, numa entrevista que deu, ainda em Macau, queixou-se disso mesmo! O resultado está à vista(…) Depois com a Polónia, passámos outra vez de bestas a bestiais, ninguém nos segurava. E os treinadores de bancada não se cansaram de alertar para a velocidade da Coreia, era preciso travá-los a qualquer custo. Pois foi, à custa de duas expulsões. Agora, assoem-se a esse guardanapo!?

Diz o povo, na sua infinda sabedoria, que, ?na casa onde não há pão, todos ralham e todos têm razão?. Ora, à mingua do sucesso perante uma derrota que vai, nos próximos dias, esgotar os adjectivos, também não faltam os ralhos. E quase todos têm razão. Até, eventualmente, os que não poupam os media. Mas será sempre assim…

Mesmo quando as ambições são domésticas e bem mais moderadas, quando a disputa envolve equipas nacionais, há sempre quem veja na relação jornalista-jogadores paralelismo com o binómio tabaco-fumadores. Só não se sabe de onde vêm os maiores malefícios. E essa realidade detecta-se nos ?black out? que, sistematicamente, treinadores e dirigentes dos principais clubes determinam. Acham que é remédio eficaz… e conforta-lhes o ?ego?, dá-lhes sensação de poder!

Não está o Provedor de acordo em relação a duas acusações: de excessos do JN e de manifestações de ?jornalismo? de missão comparáveis às que se condenaram em Timor.

O ?Jornal de Notícias? deu ao ?Mundial? (e continuará a dar) o relevo que a importância da competição e que as expectativas geradas à volta da participação portuguesa justificavam. (Não estão em causa alguns desvios pouco toleráveis à já de si permissiva linguagem desportiva.) Aliás, como fizeram, praticamente, todos os media portugueses.

E não há, nem no JN, nem em qualquer outro órgão de comunicação social que o Provedor tenha analisado, qualquer fenómeno de jornalismo de campanha, de missão. Nunca, em relação ao ?Mundial? os objectivos se sobrepuseram aos meios para atingi-los — nem que desses meios tivessem resultado (como aconteceu no caso de Timor) notícias não confirmadas, que viriam a revelar-se falsas.

Manchetes a manifestar confiança na equipa e a dar-lhe ânimo? Foram, na opini&atildeatilde;o do Provedor, uma legítima manifestação de patriotismo – aliás em correspondência (sem qualquer corruptela deontológica!) às bandeiras agitadas por jovens e orgulhosamente ostentadas em varandas, janelas e automóveis.

Só pelo atiçar da chama do portuguesismo terá valido muito este ?Mundial?!"

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