Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Fernando Martins

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Quadras de S. João levam sempre a ?fogueira? até depois do S. Pedro", copyright Jornal de Notícias, 30/6/02

"Ontem foi Dia de S. Pedro, o apóstolo pescador, e hoje, domingo, ainda toda a Afurada explode em festa. É o cantar ao desafio entre as ribeiras do Porto e de Gaia, no desejo de prolongar os arraiais dos santos populares. E o rio é uma ponte de desejos, enfeitado de fogos, artifícios de cores, magias de luz que apagam, por algumas noites, escuridões da realidade.

Logo à noite, se o calor o consentir, renascem os cheiros de Junho, nessa inimitável mistura de manjerico, erva-cidreira e alho, que desde a grande noitada do Porto se esconde no mais recôndito dos poros. Ou da memória.

É a mística do S. João (do Santo António ao S. Pedro é sempre S. João) que perfuma os martelinhos. Cheiro a alho, está bom de ver. Desde que não falte o manjerico e, lá muito ao fundo, como cenário irreal nas pituitárias, sardinhas e pimentos a marcarem presença. Que é tempo também de sabores. E de saberes…

Quem é que, de há 74 anos a esta parte, dispensa, logo aos primeiros minutos da madrugada (às vezes antes) conhecer quem ganhou o Concurso das Quadras do JN? Espreitam-se algumas das premiadas — até porque pode dar jeito dizê-las para o lado, baixinho, em murmúrio cúmplice. Lê-las, de facto, só nos dias seguintes — que isto de poesia, mesmo a popular, tem muito que se lhe diga. Dos elogios às críticas e às acusações de plágio ou de não cumprimento dos preceitos regulamentares.

É assim desde o sempre que três quartos de século consentem. Este ano não podia ser diferente…

Pelo menos um leitor (Júlio Gomes Correia, de Coimbra) já se dirigiu ao presidente do júri, o jornalista e escritor Germano Silva, e ao Provedor, num desabafo irónico e amargo. Outros, decerto, vão dar continuidade a um diálogo que só pode enriquecer o concurso.

Júlio Gomes Correia entende que o júri não deu cumprimento ao Regulamento do concurso, apontando aquilo que considera desvios ao seu preceito n? 3.

Ali se diz, concretamente:

?Constituirá motivo obrigatório das quadras a popularizada tradição s. joanina, tornando-se necessariamente indispensável que todas elas, sem excepção, abordem os costumados temas, postos em redondilha maior, tais como: os cravos, os manjericos, o rosmaninho, as ervas santas, as cascatas, os balões, as orvalhadas, o fogo-de-fantasia, as rusgas, os trevos, as alcachofras, etc.

?As quadras poderão ser do género lírico ou facetado, dando-se primazia àquelas que acusem maior perfeição de forma e elevação.?

Ora, segundo o leitor, ?21 das 62 quadras seleccionadas não cumpriam aquela condição indispensável, entre as quais, por manifesto azar, se encontram as quadras que mereceram os três primeiros prémios?

Mas Júlio Gomes Correia vai mais longe ao afirmar que ?…o 1? prémio foi atribuído a uma quadra que, além de não cumprir o Regulamento, enuncia a ideia, nada ?popular? e menos ainda sanjoanina, de que, para ?alcançar a aliança? (do casamento), a rapariga tem que dar ?maus passos?! Mas, generosamente, avisa, ?Menina, tome cuidado…/Nem sempre um passo mal dado/ Acaba numa aliança?! Edificante!?

Para o leitor, também a ?elevação?, ao contrário do que aponta o Regulamento, não foi tida em conta como critério do júri, e aponta como exemplos o 7? prémio (?Sozinha num louco anseio/ Cantei, bailei, diverti-me./ ‘Stava perdida, encontrei-o/ E ao encontrá-lo, perdi-me?) e a menção honrosa n? 19 (?Na roda da mocidade/ deste-me a volta da vida,/ Hoje, por necessidade/ Rodo com quem me convida…?).

Germano Silva, presidente do júri, historiador do Porto (e portanto do S. João) diz, claramente, que não têm razão de ser os reparos do leitor. E analisa-os, ponto por ponto:

?a) – o leitor entende que das 62 trovas distinguidas, 21 não cumpriam o estipulado no n? 3 do regulamento do concurso. Dessas 21 aponta as três primeiras classificadas como exemplo. Errado. Tanto a primeira como a segunda classificadas abordam o termo DANÇA e CASAMENTO que são, nas tradições sanjoaninas, das mais populares e das que mais vezes aparecem referidas no cancioneiro popular dedicado ao santo. O mesmo se deve dizer da quadra classificada em terceiro lugar em que sobressai o tom BREJEIRO do rico folclore sanjoanino aliado que anda muitas vezes ao casamento e à fertilidade. As quadras em causa, no entender do júri, respeitam as normas estabelecidas e estão dentro da exigência regulamentar.

?b) o leitor em causa tece ainda considerações de teor moralista acerca do conteúdo de algumas trovas. É uma opinião que se respeita. Da nossa parte, da parte do júri, lembraremos apenas que o S. João tem todas as características de uma festa orgíaca, e daí as licenciosidades e a linguagem por vezes desbragada que se utiliza no cancioneiro dedicado ao santo. E não é por aí que virá mal ao mundo.

?Uma ultima nota. Álvaro Machado, iniciador deste popular Concurso, também recebia todos os anos muitas cartas de protestos de leitores, em regra concorrentes que não viam a suas quadras distinguidas. Sempre assim foi e sempre assim há-de ser. Ninguém gosta de perder. E se no futebol a culpa é do árbitro, aqui o culpado é o júri, que foi o árbitro do certame. De uma coisa tenho a certeza: esteja onde estiver o velho camarada Álvaro Machado, há-de sentir-se feliz por ver que a sua obra está aí, para lavar e durar…?

Pouco, muito pouco mais haverá a acrescentar à resposta de Germano Silva. Há, naturalmente, o testemunho saudoso de tantas conversas com Álvaro Machado, com Costa Pereira, com António Canedo e com tantos outros que tiveram a seu cargo, não apenas a árdua tarefa de premiar, mas, principalmente a de seleccionar, entre muitos milhares de trovas, as poucas centenas que chegavam à apreciação do júri. Até porque eles acabavam por ser os guardiões de uma memória inestimável e sempre procurada, em primeira instância, aquando das acusações de plágio.

Também eles enfrentaram, pedagogicamente, as reclamações dos que, no Regulamento, só liam palavras onde deviam ver conceitos.

Germano Silva recorda, e bem, que não há S. João sem bailarico, sem dança; e toda a gente sabe que incontáveis pares de uma noite orvalhada o foram para toda a vida, com ou sem casamento. É sanjoanino, claro: a dança, o balão e… depois, muitas vezes, a rusga de filhos.

Aliás, o n? 3 do Regulamento, que atrás reproduzi, fala nos cravos, nos manjericos, no rosmaninho e nas ervas santas como exemplos que acabam num etc.. E como é infinito um ?etc?… onde cabe tudo.

Quem pretender, porém, ver o caso abordado em termos eruditos, científicos, pode consultar um notável estudo do prof. doutor José Esteves Rei, subordinado ao tema ?Tradições orais, meios de comunicação social e escola: perenidade e mudança. Estudo de um caso: o Concurso das Quadras de S. João do Jornal de Notícias?. Foi publicado pela Universidade de Fernando Pessoa em 1997 e analisa, com profundidade, justamente o fenómeno da área de significação coberta por algumas palavras ou grupos de palavras (campo lexical). Mas também os campos semânticos, as figuras de estilo, etc..

O Provedor preferiu falar, tão-somente em conceitos. Que as palavras também constroem."

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