Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Fernando Martins

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Textos dos leitores são uma mais-valia em qualquer jornal", copyright Jornal de Notícias, 14/7/02

"?Deixai-me ouvir os homens que falam tão baixo./ Porque não sei trair a honra de cantar deixai-me/ cantar meu povo onde meu povo não cantar.? [Manuel Alegre, ?Praça da Canção?, Canção Segunda]

As cartas dos leitores são tema recorrente nesta página, porque concentram, ainda e sempre, a maioria dos desabafos que chegam ao Provedor. E será política de avestruz, profundamente negativa, o refúgio na frase tantas vezes repetida àqueles que se me dirigem, de que a publicação de textos de autores estranhos ao corpo redactorial carece de convite expresso, ou de autorização (directa ou delegada) da Direcção do jornal.

É verdade que o Provedor não tem, nas suas funções de mediador entre os leitores e o jornal, a selecção das cartas a publicar. Mas nem por isso deixa de encaminhar para a Direcção as reclamações, bem como os textos que, por engano, lhe endereçam com o pedido de publicação. Até porque, não sendo, naturalmente, os directores a encarregar-se nem desses, nem de quaisquer outros originais para publicação, não podem deixar de estar informados do grau de satisfação obtido por um sector tão sensível como a ?Página do Leitor?.

Não deixa o Provedor igualmente de recordar, com frequência, que a simples existência da ?Página do Leitor? vale por um convite expresso da Direcção a todos os leitores (sem excepção) para que nela colaborem. Mas não pode, igualmente, deixar de apelar à compreensão de todos os que, connosco, querem fazer o seu jornal, para factores como o cumprimento das regras expressas diariamente na página, das quais se destacam a identificação e a extensão dos textos. O volume de cartas recebidas exige medidas de rigorosa gestão do espaço disponível. Por isso, o tamanho e a oportunidade dos temas abordados podem constituir razões suficientes de publicação prioritária.

Todas as selecções são necessariamente subjectivas, mas a multiplicidade e o pluralismo dos temas que diariamente a ?Página do Leitor? acolhe não indiciam nem ?oportunismo? nem ?censura? — duas acusações que o Provedor recolheu como as mais significantes de algumas das últimas reclamações que recebeu.

O simples acompanhamento da página como leitor permite recusar liminarmente a acusação de ?censura?. O conceito de censura implica uma restrição à livre manifestação de ideias e não coincide, necessariamente, com a não publicação de um ou mais textos. A variedade dos temas e da forma de abordá-los não indicia, de forma alguma, qualquer limitação à liberdade de expressão. E, como atrás se disse, várias são as circunstâncias que podem conduzir à não publicação de um texto. Entre elas, a mais imediata será, eventualmente, a sua não recepção. Depois, a extensão e a construção de alguns escritos, que tornam a sua redução impossível ou demasiado empobrecedora.

Estas entre várias outras razões.

Quanto à acusação de oportunismo, expressa ou sugerida, ela surge bem explícita na mensagem electrónica de Carlos Alberto Rodrigues Meira, de Braga.

Diz o leitor que o JN é apenas mais um ?entre tantos outros ?media? que, em vez de servirem os leitores, se servem deles nas ?cartas ao director?.?

Carlos Alberto Meira lamenta a apatia dos leitores portugueses de jornais que não reagem àquilo que considera uma ?manipulação despudorada?. Explica:

?Os leitores não percebem (isto partindo do princípio que as cartas publicadas existem mesmo e não são mera ficção de conveniência) que estão a ser pura e simplesmente instrumentos de bem programadas campanhas de ?marketing?, para dar corpo à ideia que se vai instilando no público de que são merecedores de toda a credibilidade, pela confiança da informação e pela qualidade. Dando de barato que as cartas existem mesmo e são de leitores, é óbvio que só são publicadas as que convêm, e não as que mostram as deficiências a que nenhum jornal escapa?.

Carlos Alberto Meira não devia estar a reportar-se ao JN quando se dirigiu ao Provedor. Desde logo porque no ?Jornal de Notícias? não existe a secção ?Cartas ao Director? que, de facto, é parte integrante de inúmeras publicações, nacionais e internacionais — e com as características de avaliação de conteúdos a que o leitor de Braga alude. No fundo, é uma forma prática de avaliação contínua do desempenho de jornais e revistas, através do grau de satisfação dos seus leitores.

As ?Cartas ao Director? estão profundamente enraizadas no tempo, e algumas delas foram evoluindo, com pequenos passos que consentiram na crítica não só da forma, mas de alguns conteúdos. O Jornal de Notícias foi, no entanto, pioneiro de uma revolução que se traduziu na transformação da letra e do espírito tradicional das ?Cartas ao Director? num espaço de criação plural e aberta. Trocou de nome, exponenciou o espaço: é hoje de uma página, mas já foi de duas em ?broadsheet? (formato grande).

Tudo aconteceu sem alardes, e na continuidade de uma relação leitores-jornal, que tem também no JN um caso singular de proximidade.

O conteúdo da ?Página do Leitor? vai da poesia às biografias, passando pela crónica, pelo comentário político, pela biografia ou pelo pequeno ensaio.

Que também ela poderia ser susceptível de manipulação? É óbvio que sim, como tudo quanto está sujeito a uma escolha. Mas nunca nos termos que Carlos Alberto Meira tipifica.

As ?Cartas ao Director? (que muitas publicações de grande prestígio, um pouco por todo o mundo, continuam a não dispensar) foram, já, objecto de estudos aprofundados a nível da crítica dos ?media? — e não passaram incólumes por diagnósticos profundos, alguns deles com conclusões próximas (as mais inócuas!) das expendidas pelo leitor de Braga, mas mal apontadas ao JN.

Existe no Jornal de Notícias a consciência de que a colaboração dos leitores representa uma mais-valia importante — consciência que se vai apoderando, um pouco por toda a parte, mesmo dos responsáveis dos media que viam nesse entrosamento, se não uma certa promiscuidade, pelo menos um populismo indesejado.

Há já cerca de uma dezena de anos, numa reunião da Associação Mundial de Jornais, abordava-se o tema da perda de quantidades substantivas de leitores de jornais, que então se verificava em diversos países. Na sua intervenção, o vice-presidente da Associação Norte-Americana de Editores apontava como uma das causas a escassa atenção dada aos leitores por jornais e revistas. E dava a receita:

?É preciso mostrar aos leitores que precisamos deles não só para que comprem os nossos produtos ou neles anunciem. É preciso que sintam os jornais como sendo seus, ao ponto de quererem escrever neles. E por que não havemos de dar-lhes esse direito?

O JN já antes o descobrira, e aprofundou-o depois.

Hoje, a extensão da estratégia às televisões, através dos ?reality shows?, acabou por revelar-se uma ferramenta de sobrevivência, pela conquista de audiências."

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