Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNAL DE NOTÍCIAS

Fernando Martins

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Jornalistas devem acautelar créditos da profissão", copyright Jornal de Notícias, 28/9/02

"A credibilidade, nomeadamente nos ?media?, é uma ?capela imperfeita?, porque sempre inacabada. Não lhe basta erguer-se a partir de sólidos alicerces: todos os dias é necessário juntar novas pedras ao edifício de uma confiança que um número considerável de factores fragiliza constantemente.

Uma falha de um repórter transforma-se nos erros de um jornal e na fragilidade prepotente de uma profissão… quase tão depressa como fazem de um articulista (editorialista ou não) um jornalista. Basta que dê jeito a alguns dos poderes que vivem o alvoroço das ameaças. E dos fantasmas. Então, até um ministro deixa de ser político para tornar-se, tão-somente, ex-jornalista.

Zeladores dos créditos da sua profissão têm de ser, obviamente, os jornalistas. Que não podem descansar à sombra dos resultados de sondagens, que valem o que valem, num dado momento. A profissão mais prestigiada? Vista a questão por outro ângulo, outras actividades profissionais é que merecem dos portugueses ainda menos consideração!

Naturalmente, tudo o que está no topo é mais vigiado. E tem que ter tal consciência dessa vigilância, que não pode permitir que a sua actuação menos clara faça germinar a dúvida.

A notícia publicada a 30 de Junho em ?Grande Lisboa?, subordinada ao título ?Professores fogem da primária do Feijó?, suscitou dúvidas que Norberto Correia expressou ao Provedor. Começando por pôr em causa o critério jornalístico que ditou o título da notícia, o leitor diz conhecer bem a situação retratada ?e as preocupações de alguns pais face à qualidade da formação das suas crianças?, discordando, no entanto, dos contornos com que a questão é apresentada. Diz, nomeadamente:

?Todos os intervenientes na escola reconhecem e reconheceram, estando mesmo referido em actas do Conselho Escolar, o percurso irregular da turma em termos do número de professores, mas também é reconhecido o esforço de todos na resolução do problema, o que permitiu obter bons resultados no 2? e 3? anos que mereceram o agrado dos pais da turma. Finalmente, no 4? ano, o qual teve um começo menos calmo, foi possível retomar o bom ritmo escolar desde o meio do 2? período e até final do ano lectivo, face a medidas introduzidas, após intervenção conjunta dos pais, Associação de Pais, Direcção da escola e CAE.

?Quanto às restantes acusações, sobretudo sobre a professora da turma, espero que existam provas evidentes e conclusivas sobre as referências efectuadas, pois caso contrário, esta notícia acaba por denegrir a imagem de um professor o qual me parece não ter sido ouvido, antes da publicação desta notícia.?

Às dúvidas expressas por Norberto Correia, que ficou com a impressão de que o assunto foi tratado com grande superficialidade, e de que não terão sido ouvidas as pessoas visadas, começa por responder a Direcção, através do director adjunto José Leite Pereira:

?São infelizmente frequentes no Ensino situações como a que a notícia retrata. Todos nós que temos filhos a estudar já passámos por situações de faltas de professores que não são substituídos, por ?furos? frequentes nos horários, etc, etc. E também todos já ouvimos falar de professores que têm grandes dificuldades (por culpa deles ou não é outra história) em ?segurar? as turmas que lhes estão destinadas.
Quero eu dizer que o assunto tem inegavelmente interesse, e que não pegámos nele para atacar especificamente a escola ou determinada professora, o que, aliás, não é norma do jornal. Acresce que a notícia tem duas ?caras?: a jornalista assinou o texto; e está identificada a mãe que tem queixas a apresentar. A notícia peca, infelizmente, por lhe faltarem outras caras: pais a queixarem-se, a professora a contrapor o que entendesse. É um aspecto que passou em claro na sua edição. Porém, assegura, agora, o coordenador da secção, essas tentativas foram feitas, razão pela qual, assumindo o erro do JN na elaboração da notícia por não ter revelado todos os passos que deu para ouvir mais gente e todas as partes, posso sossegar o leitor: não destruímos coisa nenhuma, não praticámos – reforço: não é esse o nosso hábito – nenhum terrorismo.?

José Leite Pereira sugere ao Provedor que continue a abordar ?a velha e sempre presente questão das notícias, de todas as áreas, que têm de ser elaboradas sem que a fonte se queira identificar, já que ?é bom que o leitor fique ciente dos cuidados básicos que são seguidos em casos que tais, que saiba quantas coisas ficam por publicar por falta de contra-prova,, etc, etc.?. E remata:

?Finalmente, gostaria de dizer que o JN é um jornal respeitado não pelos seus 114 anos de vida diária ininterrupta, mas pela forma como se tem comportado ao longo desse tempo. Um jornal que publica tantas notícias como nós, todos os dias, arrisca-se a errar, como já temos errado. A regra básica de condução de um jornal, antes de se reger por códigos, é a do bom senso, da Direcção ao mais recente estagiário. Recordo isto porque, às vezes, me fica a dolorosa sensação de que os leitores têm a tentação de olhar para os jornalistas como se estes fossem pistoleiros/justiceiros prontos a disparar ao menor movimento suspeito. Todos sabemos que não é assim. Muitas vezes, jornais e jornalistas têm dado a cara em situações que de outro modo não seriam conhecidas. Mas esses são outros contos que só muito lateralmente têm a ver com o reparo do leitor.?

Carlos Tomás, coordenador de ?Grande Lisboa?, pormenoriza a explicação já adiantada por José Leite Pereira, de que ?houve a tentativa de se ouvir o maior número possível de pais?. Acrescenta, no entanto:
?Mas a maioria que foi contactada recusou-se a ser identificada e não quis comentar a situação escolar dos respectivos filhos. Também a Direcção da escola, a CAE e a Associação de Pais foram contactadas pela jornalista, no sentido de explicarem as acusações feitas pela autora das denúncias e facilitar o contacto com a professora visada no trabalho, mas optaram pelo silêncio, tanto antes como após a publicação da notícia que, aliás, desde essa data, não provocou qualquer outra reacção.?

Não sabe Carlos Tomás nem o Provedor se não houve qualquer outra reacção. A verdade é que o desconhecimento não consente, sequer, qualquer tipo de presunção. Uma manifestação expressa de dúvida na clareza de procedimentos da jornalista autora da notícia basta para que todos nós nos preocupemos de que possa haver muitos outros que envolveram a incerteza em silêncio. Ao Provedor bastou. Ao director adjunto José Leite Pereira também, que assume o erro da jornalista e do coordenador — do jornal, enfim! — para sossegar o leitor.

Porque houve, de facto, aquele erro que o Provedor, nesta página, já por várias vezes associou à mítica necessidade da mulher de César de parecer séria — ainda mais do que sê-lo! No fundo, é mais benigna a dúvida sobre algum conformismo da jornalista (num universo grande onde lhe seria possível exercitar o contraditório e encontrar alguém disposto a dar a cara), do que a suspeita de que não houve, sequer, a tentativa de recolher mais testemunhos e de dar possibilidade de defesa à professora visada?.

O Provedor acredita que existiram todos os cuidados profissionais. Ou quase. Mas é necessário que os leitores fiquem igualmente convencidos, nem que seja à custa do relato de alguns dos passos dados sem sucesso.

Numa altura em que grande parte do debate nacional se centra num caso de falta de assunção de responsabilidade política, que alguns pretendem travestir de falta de idoneidade jornalística — todos as falhas, até a da notícia da primária do Linhó servem para apontar a dedo os jornalistas em geral. Acusando-os de ?terrorismo público?, como fez, sem razão, o leitor Norberto Correia."

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