Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Fernando Martins

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

JORNAL DE NOTÍCIAS

"A curta distância entre o mérito e o ?voyeurismo?", copyright Jornal de Notícias, 30/11/02

"?O Homem passa o tempo/ a procurar a verdade/ que convém à sua realidade./Encontrada essa realidade,/ a verdade já não lhe convém? Werner Ehrard, A brochura de Werner Ehrard

Ninguém duvidará de que cabe aos ?media? o mérito de terem arrancado da sombra, furtado à cadeia de interesses instalados, roubado ao comodismo e ao medo uma série de crimes hediondos.

Sem as reportagens de Felícia Cabrita no ?Expresso? e na ?Sic?, e sem todo o cortejo de denúncias que se lhes seguiu, permaneceriam num inominável e não menos criminoso silêncio (que já se prolongava há mais de duas décadas!) actos da mais ignóbil violência. E ignóbil porque cometida por poderosos sobre meninos da mais humilde condição. A troco de uma sanduíche, de umas ?jeans?.

Os jornalistas, dando voz, consistência e força à coragem, à revolta e ao desespero dos ex-alunos da Casa Pia de Lisboa, cumpriram uma das suas mais importantes e nobres funções. Pena é que tão súbita e desastradamente se tenha passado do mérito à especulação do ?voyeurismo?, passando pelo julgamento sumaríssimo na praça pública, pela condenação e pelo linchamento mediático.

Que pena!

A sede de justiça dos casapianos, dos seus familiares, e de todos os portugueses que se revêem neste silenciar dos inocentes e dos seus direitos continua por saciar.

A revolta diante da inércia cúmplice, do silêncio subserviente e tacanho, do esquecimento de conveniência que se julga incontrolável — essa revolta está para durar. Mas não pode gerar no seu seio nem vinganças, nem leviandades em troca de protagonismo. Porque estão em jogo valores sem preço nem escalonamento social como o direito ao bom nome e à honra.

Graças aos ?media?, estão mais uma vez demonstradas, com rara evidência, as fragilidades do sistema judicial português.

Televisões, rádios e jornais, souberam mostrar, com acutilância, a ponta de um novelo de cumplicidades que, não sendo desfeito até ao fim (recusemos as utopias), nem por isso vai deixar incólume o prestigio de umas quantas personalidades que tiveram, diante das câmaras, um comportamento entre o nefelibata e o funâmbulo.

Só que alguns desses mesmos ?media? foram incapazes de controlar os impulsos da concorrência e, mais uma vez, perderam-se na fronteira para, abandonando os terrenos da informação, enveredarem pelos caminhos do espectáculo, cederem ao fácil e às exigências do imediatismo telenovelístico. E deixou-se que se forjassem culpados à imagem e semelhança da ansiedade dos públicos — mesmo antes da possibilidade de audição de alguns deles. Sem o mínimo respeito pelo princípio constitucional da presunção da inocência.

As direcções de alguns jornais, nomeadamente do ?Jornal de Notícias? e do ?Público?, reagiram, prontamente, contra a flagrante violação das mais elementares regras deontológicas do jornalismo.

Dizia a ?Nota? publicada na edição de sexta-feira do JN, nomeadamente:

?(…)A sede de justiça é naturalmente grande. A Direcção do JN entende, porém, que não cabe ao jornal proceder a qualquer julgamento, nem lançar nas suas páginas os nomes a que vai tendo acesso, para que outros os julguem?.

Mais adiante, a ?Nota? explicita:

?As parangonas que outros decidam, ou venham a decidir fazer, não nos diminuem. Queremos, obviamente, que estes crimes tenham castigo. (…) Mas, em nome da ética profissional, não acusaremos sem prova, nem faremos relatos escabrosos?.

Na véspera, a Direcção do ?Público? advertira para que ?a tentação será, mais tarde ou mais cedo, começar a divulgar os nomes de que se fala. Antecipar-se à concorrência e exigir ?justiça?, e concluía, citando Milan Kundera:?a ciência do jornalismo é combater a injustiça sem cair nela?.

Porém, neste caso de extremos, tão grave como o linchamento público, como o julgamento sumário, é a exposição dos jovens depoentes, confiados que estão na eficácia da protecção resultante da distorção da imagem.

Na quarta-feira, no Colóquio Internacional sobre Abuso de Menores, que, sob a égide da Polícia Judiciária decorreu em Cascais, Pedro Strecht Ribeiro afirmava que a comunicação social esquece, frequentemente, a diferença entre ?informar? e ?expôr?. Na sequência da manifestação das suas preocupações, o pedopsiquiatra afirmou que se sente perturbado quando vê imagens de miúdos de corpo inteiro, perfeitamente reconhecíveis ?para quem está na sua relação próxima?.

É verdade: a distorção pela chamada ?pixelização? apenas torna as pessoas irreconhecíveis para quem não é do seu círculo de conhecimentos. A essa conclusão chegou, há já vários anos, Diana Andringa, depois de exibida uma reportagem que a sua equipa de TV fizera no Porto, em que as imagens tinham sido submetidas ao tratamento ?protector?: familiares, amigos, vizinhos e colegas dos entrevistados reconheceram-nos à primeira!

Também Artur Costa, procurador-geral adjunto junto do Tribunal da Relação do Porto, e colaborador JN, fez, na sua coluna de quinta-feira última, e a propósito da pedofilia que envolveu casapianos, um severo julgamento dos ?media?:

?Quanto à comunicação social, já se sabe que tudo nela se inclina para a corrida às marés negras, semana após semana, do acontecimento global para o local, da catástrofe para o crime hediondo praticado dentro de portas. Numa sucessão vertiginosa, onde tudo é destinado a causar impacto (também à custa dos tais inocentes) e a esquecer logo a seguir.?

É, no fundo, uma opinião partilhada pelo sociólogo Paquete de Oliveira que, em conversa com o Provedor sobre o mesmo tema, abordava, também, o imediatismo da informação jornalística.

Paquete de Oliveira estranha a forma como os ?media?, levantando, tantas vezes e com muito mérito, problemas importantes, depois não os seguem, não lhes dão continuidade. Abandonam-nos, pura e simplesmente. Aliás, o tema das cenas pedófilas na Casa Pia é disso um bom exemplo: foi, há anos, denunciado por um jornalista do ?Tal e Qual?, mas, quase tão depressa como foi leventado, foi abandonado.

Há, na opinião de Paquete de Oliveira, uma falta de investigação, de aprofundamento, que até o recente caso do petroleiro ?Prestige? demonstra com clareza. Abordaram-se as questões imediatas, superficiais, sem se ir ao âmago da questão.

Depois, é a cedência à tentação fácil do espectáculo.

Para Paquete de Oliveira, nesta caso da pedofilia, como em vários outros, passou-se do mérito ao demérito, da informação ao contraponto do ?Big Brother?.

Pensa o Provedor que, apesar dos excessos denunciados, o saldo a favor dos ?media? é, ainda, altamente positivo. Porém, só uma comunicação social conhecedora e respeitadora dos limites ético-deontológicos tem legitimidade plena para exigir dos poderes político e judicial a restauração da tão abalada confiança dos portugueses: confiança na justiça e na igualdade de todos os cidadão perante os seus direitos, liberdades e garantias.

Para que o Poder não seja, nunca mais, a capacidade de alguns esconderem de todo um país dois ou três processos incómodos para meia dúzia de elementos de duvidosas élites."

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