Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Fernando Martins

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Em democracia não há máscaras para a realidade ", copyright Jornal de Notícias, 14/12/02

"?Um erro do ?management? moderno: inventa uma humanidade antes da queda, um paraíso, a harmonia sorridente que descreve essa literatura hipócrita, hoje retomada à escala planetária?

?As ideologias totalitárias, mais do que consentem, recomendam primeiro… para acabarem na exigência musculada da modelação das sociedades segundo padrões daquilo que previamente definiram como ?o bem da Nação?. Assim começava o primeiro de dois parágrafos da coluna de domingo passado ? parágrafos acrificados à minha deficiente adaptação a um novo sistema informático. Glosando um aforismo, arriscar-se-á que ?os computadores escrevem direito por linhas tortas?, que é como quem diz, deram ao Provedor a oportunidade de voltar a um assunto que o espaço na altura disponível obrigara a reduzir para aquém dos limites considerados pedagógicos ? e pedagógicos porque passíveis de promover alguma reflexão e, quem sabe, o diálogo.

Tentava o Provedor, nesses dois parágrafos, marcar de forma clara a sua discordância em relação a dois leitores que, a propósito de um título de incorrecção meramente formal, acusavam os ?media? em geral e o ?Jornal de Notícias? em particular, de promoverem um clima hostil a algumas instituições fundamentais da sociedade portuguesa como a Guarda Nacional Republicana (nomeadamente a sua Brigada de Trânsito) e a Polícia Judiciária.

Convictos, os leitores amarraram os jornalistas ao pelourinho em que, em sua opinião, devem ser zurzidos em nome do comprometimento do futuro, por indução à suspeita e ao consequente desrespeito das autoridades. Um dos críticos duvida, mesmo, da utilidade de difusão de notícias como as das investigações à presumível corrupção de agentes da autoridade, dado que, em sua opinião ?dar algum dinheiro para evitar pagar a multa por inteiro é tão velho como o abuso sexual de crianças internadas em asilos?. Até porque, segundo diz, os poderes conhecem perfeitamente a realidade nos seus contornos (?há mais funcionários cumpridores do que prevaricadores, e aqueles nunca deixaram de relatar aos seus superiores o que se passava?), e só não agem porque, ?com poderação e muito senso, decidiram que eram muito mais perniciosos à sociedade tornando-a conhecedora dos pôdres?.O que, não significaria a inacção das hierarquias, uma vez que ?sempre houve aposentações compulsivas, demissões e outros castigos ? mas as penas eram aplicadas com discreção, sem o espalhafato das notícias?.

O posicionamento dos leitores que defendem o silenciamento dos jornalistas é, de facto, inaceitável numa democracia, já que aceita a hegemonia de uma classe, de um grupo, que pensa pelo país e em seu nome, e que por ele tudo decide ? até o que os cidadãos devem saber da realidade que os cerca.

Trata-se de uma posição indefensável, hoje, em plena sociedade da comunicação. Se, ainda antes da ?internet?, as antenas parabólicas derrubaram, decidida e inexoravelmente, o ?Muro de Berlim?, defender o monolitismo de uma informação direccionada é fazer a apologia de castelos de areia no quebra-mar.

Os portugueses conheceram a mordaça e a verdade de conveniência durante quase meio século. Um tempo de estereótipos daninhos, que a fé de uns quantos e o oportunismo de outros transformou nas verdades de um regime, em que a engenhosa bitola do ?a bem da Nação? acabou por ser maniqueísmo de conveniência.

Julgo que foram investigadores da Polícia Judiciária que tiveram a seu cargo, nos anos 80, o processo dos casos de pedofilia na Casa Pia, que chamaram às cenas de sexo que teriam envolvido adolescentes daquele estabelecimento de ensino ?ballets bleu?. O nome não é mais do que uma associação aos ?ballets rose? que, nos anos 50 e 60 do século XX, nas zonas do ?Grande Porto? e da ?Grande Lisboa?, envolveram umas quantas jovens e uns quantos devassos dos poderes político e económico da altura.

Os ?ballets rose? não passaram, ao tempo,de um murmúrio em que se amalgamaram boatos com convicções, dúvidas com o desejo oculto por uma élite de comprometer o regime. Inconsequente porque sem provas e sem nomes credíveis que, perante o fantasma da ?segurança do Estado?, dessem voz à suspeita. Só no pós-Abril os ?ballets rose? tiveram divulgação pública, feitos episódios de telenovela, em que a verdade e a ficção não respeitaram fronteiras.

Que pena!

Desde há mais de um quarto de século que, restauradas as liberdades, os jornalistas puderam assumir a sua instância fiscalizadora das instituições. Com algumas restrições legais e deontológicas que a própria democracia legitima, cumpre aos jornalistas, em nome da sociedade que servem, produzir e seleccionar informação por critérios que são, acima de tudo, os do interesse público.

Assim, mais do que mostrar que há, nas instituições de solidadriedade social, quaisquer que elas sejam, crianças que se prostituem, é obrigação dos jornalistas, protegendo esses meninos e os que lhes são próximos, perguntar porquê, durante mais de 20 anos, foram acobertados, vergonhosamente escondidas

pelas instâncias dos poderes judiciais e políticos, tantas e tão graves chagas sociais. Perguntar, tão alto quanto possível, para que não possam mais ficar sem resposta!

Sem espectáculos folhetinescos que façam dos ?ballets bleu? a nova telenovela, devorada pelos ?voyeurs? e desviante das atenções dos protegidos do costume.

Essa é a função dos jornalistas numa sociedade democrática.

Como é sua obrigação informar, com rigor, com objectividade, sem ferir o segredo de justica e respeitando a presunção da inocência, que, em Portugal, ninguém está acima da Lei, lei que obriga tanto o cidadão comum como o governante ou o agente da autoridade.

Seria,de facto, danoso tanto para as instituições em causa como para a sociedade que o rigor perdesse a favor de uma leitura generalizante e comprometedora do todo. Mas as próprias instituições, como qualquer cidadão, têm ao seu dispôr mecanismos para reposição da verdade, e encontram nos jornalistas enquanto classe o desejo de clarificação dentro dos mais estritos preceitos ético-deontológicos.

O tempo que vivemos não é compatível com paraísos artificiais. Ao contrário do que desejariam os leitores que interpelaram o Provedor.

A verdade é sempre o único suporte de um futuro sustentável.

Que os acontecimentos da Casa Pia estão a afectar, nesta sensível época do Natal, outras instituições de acolhimento e de educação de menores ? parece ser uma realidade detectável pela diminuição, em relação a anos anteriores, do volume de manifestações de solidariedade.

A consciência não pesa, decerto, aos jornalistas. Mas não lhes será difícil imaginar formas de lembrar aos leitores, aos ouvintes e aos espectadores, que os meninos menos favorecidos deste Portugal não podem ser duplamente vítimas dos poderosos perversos e prepotentes."

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