Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNAL DE NOTÍCIAS

Fernando Martins

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Até sobre a guerra interesse dos leitores tem ?prazo de validade?", copyright Jornal de Notícias, 2/12/01

"Diz uma velha lenda oriental que o Homem já teve o domínio sobre os elementos. Só que, tantas vezes chamados a resolver as guerras das chuvas e as guerras do sol, os deuses devolveram a si próprios esse poder que, apesar de deuses, nem eles próprios sabem regular a contento de todos.

De facto, a complexidade dos homens não lhes permite, sequer, chegar a acordo sobre os seus interesses mais elementares, mais primários. Mas os deuses, esses guerrear-se-iam se lhes fosse dado decidir sobre as matérias que fazem a diversidade do pensamento actual.

Dulce Quinta, de Vila Nova de Gaia, saúda a decisão do JN de ter deixado de preocupar-se ?só com a guerra?; enquanto que António Pereira dos Santos, de Coimbra, lamenta, junto do Provedor, que o JN tenha passado a menosprezar ?uma luta que é de todos nós, da civilização ocidental?. Para o leitor, ?o Jornal de Notícias cobriu a guerra como quem dá um recado. Como quem cumpre com a sua obrigação para voltar apressadamente aos futebóis e às politiquices caseiras?.

Os dois leitores assumem posições diametralmente opostas. Para Dulce Quinta a guerra ?não merece o destaque que os ?media? lhe vêm dando. Ela é uma forma de anestesiar o Mundo para os problemas que eles próprios, americanos, há muito vêm provocando?, enquanto que para António Santos ?os jornalistas são também, nesta circunstância, soldados, combatentes numa guerra que está a defender o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos. Por isso devem lutar ao lado das tropas aliadas até ao extermínio do terrorismo?.

Não seria difícil encontrar, em qualquer das duas posições, muitos mais conceitos perfeitamente simétricos _ não só sobre o conflito propriamente dito, mas também sobre a forma como ele vem sendo coberto pela generalidade da comunicação social e pelo JN em particular. Naturalmente que o posicionamento dos leitores sobre os ataques resultantes do ?11 de Setembro? não tem cabimento na página do Provedor. O mesmo já não pode dizer-se da cobertura jornalística da guerra _ particularmente a levada a cabo pelo Jornal de Notícias.

José Leite Pereira, director adjunto, reconhecendo, embora, que é difícil agradar igualmente a todo o universo dos leitores JN, considera que desde a primeira hora se vem dando ao assunto uma relevância de acordo com o interesse que sabe adivinhar-se na maioria dos leitores, e em concordância com as tradições do jornal.

?Tivemos no terreno três enviados especiais que correram perigo de vida para relatar os diversos enfoques do conflito. Um deles foi dos primeiros jornalistas no cenário das ondas de refugiados, na sensível região de Peshawar; outro esteve junto das forças da Aliança do Norte; e um terceiro percorreu a tristemente célebre ?Estrada da Morte? justamente na véspera da emboscada que custou a vida a três jornalistas. Demos, ao trabalho desses jornalistas e ao noticiário adjacente, todo o destaque que achámos que mereciam eles e os nossos leitores. A partir de certa altura, porém, como que o conflito entrou num impasse.
E com ele, naturalmente, as reportagens foram diminuindo de impacto. Por outro lado, quem dirige um jornal não pode deixar de ter em conta factores como a saturação e outros polos de interesse do noticiário?.

De facto, o interesse da maioria dos leitores tem, também ele, um prazo de validade. No início, reconheça-se, existia nos relatos jornalísticos uma avidez que ultrapassava o âmbito das operações militares – das quais, diga-se em abono da verdade, se sabia muito pouco, e apenas o que interessava estritamente aos dois campos em confronto.

Mas havia muito, muito mais para dizer sobre culturas e sobre povos que nunca mereceram um particular interesse por parte do ocidente. Os jornalistas abriram portas e janelas para um mundo novo e também ele deslumbrante, satisfizeram a curiosidade e o interesse que fez esgotar, nas livrarias, todo o tipo de livros com afinidades sobre a guerra: do ?Corão? às biografias de Ossama bin Laden.

A sede da novidade foi sendo, pouco a pouco, saciada. Ganharam, então, força os contornos de uma guerra que, de ambos os lados, provoca todos os dias mais interrogações do que mortos.

A algumas dessas dúvidas não é o fim do conflito (que ainda se avizinha distante) que vai responder: é a História à qual está reservado esse papel cada vez mais importante de consciência das nações. Muitas outras perguntas ficarão, porém, sem resposta, e algumas delas têm a ver com relatos e testemunhos que ninguém pode confirmar.

É certo que outros jornais portugueses continuam a abrir com o noticiário da Guerra no Afeganistão. Cada jornal tem o seu público, as suas tradições, a sua estrutura própria e o seu critério. O Jornal de Notícias tem os seus _ em que se incluem a preocupação com os momentos particularmente sensíveis da vida nacional como o que estamos a atravessar.

Nem por isso, porém, é restringido o volume do noticiário que, diariamente, dá conta dos acontecimentos da frente do Afeganistão _ apenas uma das muitas frentes que está, quotidianamente, nas obrigações de um jornal."

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