Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

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Fernando Martins

Por lgarcia em 12/12/2001 na edição 151

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Agradar a todos é (também) no jornalismo missão impossível", copyright Jornal de Notícias, 9/12/01

"Luís Peres, do Porto. dirigiu-se ao Provedor por correio electrónico, contestando a imparcialidade do ?Jornal de Notícias? no tratamento das diversas candidaturas à Câmara do Porto. Considera o Bloco de Esquerda prejudicado, ?em contraponto com o apoio descarado a outras candidaturas, em especial Fernando Gomes e Rui Rio?.

O leitor recorre a um exemplo concreto: ?O candidato do BE esteve no dia 1 do corrente, durante todo o dia, visitando bairros da nossa cidade (Aleixo, D.Leonor, Aldoar). Esteve à noite, com o deputado à Assembleia da República Francisco Louçã, numa sessão de esclarecimento na Junta de Freguesia de Aldoar. Onde esteve o JN ? (…)É esse o significado da isenção que o JN diz praticar ? Como leitores merecíamos muito mais do que isso (…)?

O protesto de Luís Peres abre esta página. Porque é feito na qualidade de leitor, e este espaço tem como objectivo fundamental ser, justamente, a porta do diálogo entre os leitores e o seu jornal — pela via do Provedor. Mas é facilmente previsível que a esta acusação se juntem mais, dos candidatos, dos seus serviços de candidatura, e até dos partidos empenhados na importante disputa do próximo domingo.

Aliás, o Provedor teve a oportunidade, durante o longuíssimo período de pré-campanha, de apontar a previsível exacerbação dos ânimos de quantos, empenhados mais ou menos directamente na disputa eleitoral, não lograriam manter a distância necessária para entender que os ?media? em geral e o JN em particular, têm de reger-se por critérios jornalísticos, em que, algumas vezes, o rigor aparece prejudicado por factores meramente acidentais. Por exemplo, um acontecimento inesperado que obrigue ao desvio de uma equipa de reportagem previamente destacada para cobrir uma manifestação de campanha que, para os que nela estão envolvidos, é o mais importante de todos os acontecimentos.

De facto, eles aí estão: queixas, protestos, acusações, processos de intenção. De todos e sobre tudo. A tal ponto que José Leite Pereira, director adjunto, desabafava ao Provedor:

?Não há um partido, uma cor político-partidária, que não tenha, ainda, apresentado o seu protesto: se não formalmente, em desabafos telefónicos que, nem por isso deixam de reflectir a incapacidade que essas forças têm de avaliar o nosso esforço de equilíbrio. Sempre tendo em vista, exclusivamente, critérios jornalísticos. É impossível agradar a todos. A experiência já no lo demonstrou.

Haveria razões de queixa mesmo que nos prontificássemos a fazer ?fretes? a todos (e é público e notório que não os fazemos a ninguém?.

José Leite Pereira clarifica, com um exemplo:

?Isto chega ao extremo de haver um candidato do Norte, que não nomeio, que afirma que se recusa a dar entrevistas ou informações ao jornal, só porque foi tratado em pé de igualdade com os outros candidatos — ele que, nas últimas eleições, teve maioria absoluta. Naturalmente que não nos deixamos influenciar nem por estas, nem por quaisquer outras pressões?.

Mas, vejamos, concretamente, o caso do protesto de Luís Peres. Sobre ele,
Ana Paula Correia, editora de ?Política? afirma que, ?(…) de acordo com os critérios jornalísticos, e tendo em conta as disponibilidades humanas e de espaço nas páginas do jornal, a Secção Política tem vindo a fazer um trabalho diário para dar voz a todos os candidatos, tentando reflectir, além da situação político-partidária, a realidade geográfica, como se impõe em acompanhamento de eleições para o Poder Local. Apesar disso, não temos conseguido evitar que de todo o leque político-partidário surjam críticas à forma como um ou outro dia optamos por publicar um ou outro acontecimento.?

Também Ana Paula Correia reconhece:

?Não agradamos, de facto, a todos, todos os dias. Em relação ao caso específico do dia 1 de Dezembro, citado pelo leitor, quero recordar que a campanha eleitoral só começou oficialmente no dia 4, e que o candidato do BE ao Porto tem sido acompanhado diariamente desde então por um equipa de reportagem do JN.?

A conclusão de que não é possível agradar a todos nem sequer conforta, os jornalistas. Da mesma forma que a circunstância de os protestos surgirem de todos os quadrantes não representa qualquer garantia de equilíbrio. Uma e outra, quando muito, apontam caminhos como o da clareza de processos e de critérios.

Não se fazem notícias de boas intenções

Não constituem segredo para ninguém os vultosos investimentos que algumas campanhas envolvem e que, logo à partida, implicam um desequilíbrio de meios que vão, necessariamente, reflectir-se nas realizações de campanha. E nem sempre onde faltam as verbas para criar factos mediáticos sobra o talento para ultrapassar barreiras tão desiguais.

Ora, ainda que conscientes desta realidade, os órgãos de comunicação social cobrem factos e não a sua ausência, e nem em nome da equidade podem esquivar-se a noticiar realizações que foram públicas e relevantes.

É nestas circunstâncias que, com muita frequência, surgem acusações de tratamento desigual, de favorecimento deste ou daquele candidato, de um ou de outro partido. Medem-se espaços a régua e esquadro e cronometram-se tempos das emissões, numa única preocupação acusatória de parcialidades e de favorecimentos.

Os jornalistas, porém, regem-se por critérios onde raramente podem entrar só as boas intenções e a ausência de elementos de notícia."

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