Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > JORNAL DE NOTÍCIAS

Fernando Martins

Por lgarcia em 15/07/2003 na edição 233

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Explicação existe sempre por incómoda que ela seja…", copyright Jornal de Notícias, 13/7/03

"Havia, na minha adolescência, no Porto, o comandante de uma unidade do Exército conhecido pela sua extrema distracção. Acumulando um curso de engenharia militar com um de arquitectura, todos quantos o conheciam de perto lhe estranhavam o temperamento e a postura, longe dos estereótipos dos oficiais de carreira.

Era extenso o anedotário que o seguia como uma aura, de que será talvez exemplo caricatural o episódio em que, chegado um dia à porta de armas, tirou a espingarda ao soldado que lhe fazia a continência do estilo, ao mesmo tempo que lhe ordenava: ?Vai ver se encontras o meu automóvel, que já não me lembro onde o estacionei?.

Uma dessas cenas testemunhei eu, visita frequente do quartel. E fui, também, de certa forma, envolvido no atarantamento com que, do recruta ao capitão, numa tarde quente, todos procuravam os óculos do comandante. Uma busca rigorosa foi feita a todos os sítios onde de supunha que o coronel pudesse ter estado. Sem resultado.

O capitão continuava a gritar ordens aos subordinados esbaforidos, quando um velho sargento entrou no gabinete, chamado pelo comandante, entretanto já absorto em qualquer outro assunto que dispensava o apoio dos óculos. E foi quase em simultâneo com a continência, que o sargento exclamou:

?Mas o meu comandante tem os óculos na cabeça! No cabelo!?

Andaram vários homens, durante mais de uma hora, na busca dos óculos, passaram vezes sem conta pelo coronel e nada viram… É, no fundo, algo de semelhante com o que se passa frequentemente nos jornais, onde os erros atravessam, indetectados, toda uma cadeia estabelecida para evitar que eles saiam à rua.

Daí que não seja de estranhar a lamentável situação que João Pedro Moura detectou e que, pelo menos por três vezes, fez chegar à Redacção e ao Provedor:

?O JN continua a anunciar, todos os dias, de segunda a sexta-feira, suponho eu, na página dos programas televisivos, o epigrafado ?A Anedota do Herman?, programa que já acabou há, talvez, 8 meses! ?

Todos os considerandos que João Pedro Moura faz sobre o desleixo que a falha testemunha têm que ser aceites como legítimos. E como lição!

Partir em busca de uma explicação para o sucedido valerá por procurar desculpa para o que desculpa não tem. Falhou toda uma cadeia que ?não soube encontrar os óculos?, bem visíveis, desde que ?procurados com olhos de ver?.

Não faltará, eventualmente, quem pense que chamar o ?caso? da anedota do Herman a esta página é, isso sim, uma anedota. Pela sua insignificância. Igual entendimento, como se vê, não tem o Provedor. Porque as grandes exigências dos leitores fazem-se, justamente, de pequenos pormenores a que cada um dará a sua própria dimensão.

Um dos grandes erros de muitos jornalistas é, justamente, minimizarem, atribuindo-lhes pouca importância, tarefas rotineiras do tipo cartaz dos espectáculos, programa da televisão, tabela das marés ou farmácias de serviço.

Um erro no programa da televisão pode constituir uma contrariedade, um desconforto; uma falha nas farmácias de serviço pode, eventualmente, provocar uma morte!

A primeira qualidade do jornalista deve ser a humildade, que o faz reconhecer que todas as tarefas de uma Redacção são importantes – humildade que está nos antípodas do snobismo intelectual que reflecte, de facto, desrespeito pelo leitor.

Todos os pormenores são importantes. Por isso, a ilegibilidade (pela pequenez dos caracteres) das correcções de algumas provas do 12? ano provocaram uma quantidade substancial de protestos.

Carlos Alberto Reis, de Viana do Castelo, considera mesmo que, na prática, tal publicação representou uma burla para milhares de jovens que compraram propositadamente o jornal para terem acesso à correcção e que, no fundo, não conseguiram lê-la.

Jorge Mota da Silva, do Porto, Jorge Bastos, de Vila Flor, e Alberto Martins Ferreira da Costa, de Santa Maria da Feira, são os subscritores dos mais recentes lamentos a propósito das gralhas e do mau Português que o JN serve logo pela manhã. Que alguns consideram, igualmente, uma falta de respeito ?por aqueles que não conseguem separar-se do seu JN?.

Jorge Bastos pede ao Provedor que alerte os responsáveis do jornal para que as desculpas e as justificações que vêm sendo apresentadas não popdem ser aceites pela maioria dos leitores.

?Há quanto tempo disseram que a divisão imperfeita das palavras, na mudança das linhas, era um problema informático? E porque é que não o corrigem? O que têm os leitores a ver com os computadores, os fornecedores ou a marca de dentífrico que os jornalistas usam? Mas lá que têm direito a um jornal em bom Português, isso têm?.

Jorge Mota da Silva dá um exemplo do ?péssimo Português que, inclusivamente, desvirtua a mensagem?. A propósito da próxima constituição de novas áreas metropolitanas, titulava o JN: ?Santo Tirso mais voltado para Porto que Braga?- que tem um significado bem diferento do que devia dizer, ?Santo Tirso mais voltado para Porto que para Braga?.

De facto, a desculpa de que ?não cabia? não poderá levar-se em conta…

Francisco de Barros Jorge, residente em Gondomar, não gostou da forma como o JN noticiou o diferendo registado na sua terra natal, Alijó, entre o padre José Real e alguns paroquianos: o pároco não se incorporou na procissão das crianças que, no dia 18 de Junho, fizeram a primeira comunhão porque os homens que iriam conduzir o pálio sob uma temperatura de 40 graus, se recusaram a vestir fato e a pôr gravata.

Segundo o leitor, o ? JN empola estas ?guerrinhas de campanário?. Mais: ?o pároco cumpriu escrupulosamente o Código de Direito Canónico e as normas da diocese?. Como, aliás, o JN dissera, depois de ouvir o bispo.

Só que a rigidez na interpretação do Código Canónico fez os paroquianos manterem a procissão e dispensar o pároco. Não se sabe se, um dia destes, perante igual inflexibilidade, não dispensam a procissão, a comunhão e, no limite, a própria igreja. É esse o perigo!

João Francisco Matoso, de Vila Nova de Gaia, queixa-se de que a ?Edição Nacional?, que se vende, nomeadamente, na Área Metropolitana do Porto, sofreu ?uma diminuição substancial do noticiário regional?.

Recordando as tradições do JN e a atenção que sempre votou às regiões, o leitor pede que não esqueçamos que ?no Porto e arredores vivem muitos milhares de pessoas oriundas de Trás-os-Montes, Beiras e Alentejo e, naturalmente gostam de ver o que se passa nas suas terras?.

As edições múltiplas visam, justamente, desenvolver o noticiário das regiões que essas edições abrangem. Foi uma opção editorial que implica, naturalmente, que os portuenses não recebem noticiário tão aprofundado da Beiras, como os beirões na edição que lhes está reservada…"

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