Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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Fernando Martins

Por lgarcia em 22/07/2003 na edição 234

JORNAL DE NOTÍCIAS

"A grande importância da contextualização", copyright Jornal de Notícias, 20/7/03

"?Diferenças culturais podem bloquear compreensão da informação e até distorcê-la.?

O jornalista tem, permanentemente, toda uma série de preocupações que vão da necessidade de contextualização da informação à certeza de que, no universo daqueles que o lêem, há, naturalmente, uma grande diversidade de conhecimentos. Para não falar, já, da enorme escala de sensibilidades, que é, muitas vezes, um exigente filtro da mensagem. Por isso, entre muitas das suas funções, ele é, também, um descodificador com preocupações como as da clareza, da simplicidade, da síntese.

Gonzalo Martin Vivaldi, gramático e professor espanhol de jornalismo, costumava recomendar aos seus alunos o duplo exercício da humildade: aquando da recolha da informação e no acto da redacção, resistindo às tentações da sobranceria e da erudição.

Acontece que, frequentemente, o jornalista falha menos por arrogância do que por esquecimento. Por vezes, o esquecimento de que, entre os destinatários daquilo que escreve, há, decerto, alguém (e a quantidade não é importante) para quem os factos descritos (e aqui o número também não é relevante) suscitam dúvidas.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com a crónica do enviado JN ao Congresso da UNITA, em Luanda, publicada a 25 do passado mês de Junho, em que, a dada altura, pode ler-se: ?foi, de resto, a leitura de uma carta dos pais de Savimbi, que residem no Burkina Faso, o momento mais emocionante do congresso, com choros a escutarem-se aqui e ali?.

Diversos leitores manifestaram a sua incredulidade quanto à origem da mensagem que emocionou os congressistas, e Rodrigo Cerejo comenta que ?mandaria o bom senso que o jornalista se lembrasse de que, tendo Savimbi 67 anos quando morreu, os pais, a estarem vivos, teriam muito perto de 90!? Acrescenta o leitor que o enviado JN tinha obrigação de saber que os pais do líder carismático da UNITA morreram há cerca de 30 anos.

O Provedor não partilha a certeza do leitor quanto à obrigação que o jornalista teria de saber que os pais de Savimbi faleceram há três décadas. O senso comum e a dúvida metódica –esses sim poderiam ter funcionado (e funcionaram parcialmente) em defesa do rigor.

A carta lida no Congresso e referenciada na crónica do enviado do ?Jornal de Notícias? era, de facto, dos pais de Savimbi — ainda que a paternidade assuma, aqui, o seu significado cultural e étnico.

Em muitas etnias africanas, quando desaparecem os chefes de uma família, normalmente outros assumem esse lugar. Quase sempre parentes muito próximos. São os chamados pais da família a tomar o lugar dos pais biológicos.

No caso de Jonas Savimvi, uma sua irmã mais velha, Judite Savimbi Pena, tornou-se a mãe da família. Foi ela e seu marido, Isaac Pena, que endereçaram a carta, lida no Congresso justamente por Cassiqui Pena, filho de ambos e sobrinho do fundador da UNITA.

O jornalista sabia-o e reconhece que não deveria ter-se esquecido, em tempo útil, da explicação aos leitores, que acabou sacrificada a uma perspectiva política do Congresso e à pressão da hora do fecho.

O mesmo não se passou, naturalmente, com uma enviada do JN a Moçambique, que escreveu na sua crónica, publicada a 13 de Novembro do ano findo, ?que a terceira causa de morte naquele país era… a queda de cocos?.

O leitor Rodrigo Cerejo refere-se ao texto e pretende, com ironia, ligar os dois erros — que, de facto, não têm qualquer parentesco.

O humor, tal como o Provedor alertou, já, nesta sua coluna, é uma arma de arremesso tanto mais perigosa quanto pode atingir quer quem a lança, quer o seu alvo.

Não faz humor quem quer, mas quem sabe — e quem não sabe corre o risco da grosseria e da inconveniência. Da mesma forma que nem todos atingem o alcance da sátira. Por isso há quem diga que o humor é um dos mais exigentes exercícios da inteligência.

A juventude e a falta de experiência têm, por vezes, dificuldade em lidar com o sarcasmo, em definir a fronteira entre a caricatura e a realidade.

Encontrar uma possível explicação para um erro não o desculpa, havendo como há, na Redacção, uma hierarquia que, mais uma vez, falhou a sua missão de vigilância.

O contacto com o Provedor pode ser feito pelo correio, pelo fax 222002861 ou, por computador, para os endereços provedor@jn.pt ou fmartins@jn.pt

Raúl de Castro, advogado e conhecido antifascista, queixou-se ao Provedor de que a carta que enviou, com o título ?Governo, TV pública e Taxas?, publicada na ?Página do Leitor? do passado dia 13, saiu truncada, tendo sido efectuados cortes que, em sua opinião, configuram uma forma de ?usar o lápis azul?, na medida ?em que o ?resumo? consistiu, por coincidência, em cortar as afirmações mais críticas para o Governo e o seu ministro da TV, como a referência aos 675 trabalhadores da TV despedidos(…)?.

Reconhecendo que as regras da ?Página do Leitor? estão expressas e são claras, discorda dos resumos, já que, segundo afirma, eles ?acabam por ser uma forma encapotada de censura?.

Ora, o tema da ?Página do Leitor? e dos resumos é recorrente, já que, algumas vezes, os autores das cartas discordam dos critérios que presidem ao encurtamento do texto, afirmando que sai mutilado o espírito do mesmo. Mas, a verdade é que os resumos são inevitáveis, tendo em conta um conjunto de factores (e a conjugação dos mesmos) como o volume da correspondência, o espaço disponível e o tamanho das cartas.

Aliás, como reconhece o dr. Raúl de Castro, as regras são de todos conhecidas e diariamente explícitas no local próprio. Evitará o corte por mãos alheias quem, à partida, faça um exercício de contenção do espaço.

De outra forma, o resumo tem que ser feito, e uma redução implica, sempre, uma valoração factual que é necessariamente subjectiva e que pode, de facto, em alguns casos, trair involuntariamente o espírito do autor.

E não se está a falar, exclusivamente, de ?critério jornalístico?, que Raúl de Castro acha que é um estafado argumento. Mas ele também intervém, como não podia deixar de ser, já que o trabalho de selecção e ajustamento dos textos estáa cargo de um jornalista. Dos mais prestigiados desta casa.

Não é justo, e Raúl de Castro sabe-o, acusar o JN de estar ?a substitui a censura externa, abolida com o 25 de Abril, pela censura interna?. O pluralismo e a liberdade de expressão são unanimemente reconhecidos ao ?Jornal de Notícias?, e, da mesma forma que o Provedor não vê no protesto de Raúl de Castro uma manifestação de demagogia, não assiste ao velho combatente o direito de chamar censor a um jornalista JN."

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